Braskem vê caixa negativo em meio a dívidas de R$ 48 bi e preparação para recuperação extrajudicial
Em pedido de tutela de urgência que pretende congelar cobranças por 60 dias, petroquímica afirma a credores que, sem suspensão de pagamentos, caixa ficará negativo em R$ 821 milhões em dezembro
A Braskem afirmou a seus credores que, caso os vencimentos de suas dívidas não fossem suspensos, a companhia chegaria em dezembro com caixa negativo em US$ 821 milhões. Já na projeção em que a empresa não precise realizar esses pagamentos, a companhia teria US$ 1,52 bilhão à disposição.
A informação consta nos documentos que a Braskem divulgou na quinta-feira, 25, na entrega de um pedido de tutela de urgência cautelar na 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo, com o objetivo de congelar cobranças por 60 dias.
A tutela de urgência é uma espécie de "escudo protetor" temporário e emergencial contra os credores financeiros da petroquímica. Ela é um passo que antecede a recuperação extrajudicial. Caso a tutela seja aprovada, bancos e investidores ficam impedidos de cobrar judicialmente as parcelas da dívida que estão vencendo ou de bloquear seus bens. A empresa, por sua vez, diz ganhar "fôlego" para negociar a recuperação extrajudicial.
Como as propostas de alongamento da dívida feitas pela petroquímica foram rejeitadas pelos bancos, a Braskem usou esse instrumento de urgência da lei para forçar uma mediação protegida pela Justiça, segundo ela, para evitar que o caixa zerasse.
Entre os principais termos da primeira proposta da Braskem aos credores externos, que formam o maior grupo de detentores de dívidas, estavam a prorrogação de vencimentos em cinco anos e a possibilidade de pagamento de juros PIK (sigla para Payment-in-Kind, ou "Pagamento em Espécie/Natureza"), juros que não são pagos em dinheiro (cash) durante a vida da dívida, mas sim capitalizados, ou seja, somados diretamente ao saldo devedor principal.
Nessa hipótese, na proposta apresentada, seriam pagos 100% de julho de 2026 a dezembro de 2028, "a critério do devedor", além de redução de 2 pontos porcentuais na taxa aplicável aos instrumentos.
Os credores responderam que a proposta apresentada foi "totalmente insatisfatória" e se mostraram surpresos com seus termos, "diante da presença de tantas partes sofisticadas envolvidas na preparação dessa proposta". A inclusão do conceito de redução de cupom é citada como "algo inédito em uma reestruturação de dívida corporativa" e "coloca em dúvida a seriedade com que a companhia tem abordado esse engajamento".
Em outro trecho, o grupo de credores diz ainda que esperava que, no processo de negociação, a companhia administrasse de forma racional quaisquer investimentos. Nesse ponto, eles citam, por exemplo, que a companhia deveria usar recursos gerados internamente em vez de buscar financiamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para o Transforma Rio, projeto de expansão da Braskem no Polo Petroquímico de Duque de Caxias (RJ).
A companhia somava, ao fim do primeiro trimestre, dívida bruta de US$ 9,4 bilhões (R$ 48,6 bilhões pelo câmbio atual). Desse montante, a dívida em moeda estrangeira representava 91%. A alavancagem é de 16,81 vezes (dívida líquida/geração de caixa dos últimos 12 meses).
A medida cautelar não era a primeira opção da companhia, mas, diante de vencimentos próximos, sendo US$ 141 milhões de juros em julho, referentes a cinco bonds (títulos de dívida emitidos no exterior), e US$ 36 milhões em agosto, a alternativa se mostrou o caminho mais seguro para preservar o caixa e ganhar tempo de negociação, segundo a Braskem.
Credores buscam garantias da Petrobras
Nos mesmos documentos tornados públicos no dia 25, os credores externos da Braskem usaram as proteções presentes no acordo fechado pelos credores da Raízen, que protocolou um plano de recuperação extrajudicial com mais de 80% de adesão recentemente, como referência do que seria desejável para apoiar o ingresso da petroquímica em uma recuperação extrajudicial. Nesse sentido, citam que o plano deve ter "parâmetros apropriados e proteções aos credores". Eles não consideram que a situação da Raízen seja análoga à da Braskem.
Esses credores, detentores de títulos de dívida emitidos pela Braskem no exterior, estão organizados em um comitê de representação e exigem que representantes da Petrobras participem das discussões de forma significativa, incluindo uma reunião a ocorrer no máximo até 20 dias após o início da possível recuperação extrajudicial. Eles buscam da petroleira garantias aos detentores de dívida.
Os credores pedem ainda proteções adicionais de restrição a transações fora do curso ordinário, com a proibição de assunção/incorrência de dívida. Também constam do documento a proibição de transferências de ativos/passivos intragrupo e entre partes relacionadas fora do curso ordinário.
Citi rebaixa recomendação para ações de petroquímica
Após a divulgação do pedido de tutela de urgência, o Citi rebaixou a recomendação para as ações da Braskem de Neutra para Venda, mantendo a avaliação de Alto Risco. O preço-alvo também teve redução, passando de R$ 11,50 para R$ 4,50 por ação, o que representa um potencial de desvalorização de 34% ante o fechamento de quinta-feira. A companhia já havia fechado o dia de ontem em queda de 10,50% (R$ 6,82).
Para o Citi, a mudança se justifica com a piora das perspectivas para os spreads petroquímicos e o aumento dos riscos específicos da companhia. O banco afirma que a tese anterior, baseada em recuperação cíclica e em uma resolução mais clara sobre a estrutura acionária, deixou de ser sustentável diante do enfraquecimento dos fundamentos no curto prazo e de uma mudança negativa no equilíbrio risco/retorno.
Na avaliação dos analistas Gabriel Barra, Pedro Gama e Andrés Cardona, o cenário financeiro é desafiador, com redução do capital de giro, o que deve levar a fluxo de caixa livre negativo e maior sobrecarga do balanço. Em relatório, também dizem que o risco residual do evento geológico de Alagoas segue relevante e que uma reestruturação judicial passa a ser um desfecho realista. Além disso, a ambiguidade sobre as intenções estratégicas da Petrobras e a possível necessidade de injeção de capital aumentam a incerteza para os acionistas.
Ao detalhar os fatores por trás da revisão para baixo, o Citi afirma que a empresa combina alta alavancagem com geração limitada de fluxo de caixa livre e margens Ebitda historicamente comprimidas, em meio a um ambiente desfavorável de spreads globais, agravado por volatilidade cambial e demanda enfraquecida em mercados como Europa e Estados Unidos.
No plano operacional, o banco menciona custos elevados de matéria-prima, especialmente nafta, e taxas de utilização da capacidade abaixo do potencial instalado, o que limita a recuperação de margens no curto prazo.
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