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Começou na aviação, teve medo de voar com Roberto Carlos e hoje dirige empresa de seguro-viagem

Alexandre Camargo, diretor-geral da Assist Card no Brasil, trabalhou na Varig e na Copa Airlines, mas saiu do setor quando começou a ter medo de viajar de avião

23 out 2023 - 09h40
(atualizado em 27/10/2023 às 12h20)
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Alexandre Camargo, diretor-geral da Assist Card no Brasil, no escritório da empresa em São Paulo
Alexandre Camargo, diretor-geral da Assist Card no Brasil, no escritório da empresa em São Paulo
Foto: Daniel Teixeira

O paulistano Alexandre Camargo, 53, trabalhou em aviação (Varig e Copa Airlines) por mais de 10 anos, mas em certo momento ficou com medo de viajar de avião. Chegou ao ponto de desistir de embarcar no mesmo voo em que ia o cantor e compositor Roberto Carlos, porque achou que havia risco de o avião cair (foi pura superstição, não havia nada concreto). Ele foi cuidar disso, mas acabou mudando de carreira.

Chegou a promover shows de cantoras de MPB, como Luiza Possi e Bruna Caram. Formado em Jornalismo e pós-graduado em marketing e administração pela Universidade Federal Fluminense, acabou indo para a área de turismo, onde atua há mais de 30 anos. Hoje é diretor-geral da Assist Card no Brasil, empresa global de seguro-viagem, com 51 escritórios comerciais pelo mundo.

Em entrevista ao Estadão, ele fala sobre mudança de carreira, o que gostaria de ter aprendido no início de sua jornada e dá dicas para quem quer ser um bom líder. Veja os principais trechos a seguir.

O que o inspirou a ser um líder na área de turismo e viagem?

Tudo que nos move na vida é paixão. O turismo foi basicamente isso. Eu trabalhava no banco Itaú, mas não gostava. Eu era escriturário na área de cobrança, tinha de 18 para 19 anos, estava começando meu primeiro trabalho profissional.

Mas um belo dia eu decidi que não queria aquilo para mim. Pedi as contas e fui embora. Foi uma decisão de impulso, de quem não estava feliz com o que estava fazendo.

E aí a vida vai te levando de alguma forma para aquilo que você quer fazer. No meio dessa jornada toda, desempregado, tive a oportunidade de viajar com um colega para Fortaleza de ônibus, foram três dias de ida.

Na volta, a gente não aguentou, e uma passagem de avião na Vasp (Viação Aérea de São Paulo, companhia já extinta). Fomos de madrugada, pagamos metade do preço. Foi minha primeira viagem de avião, uma experiência extraordinária.

Comecei a conversar com uma comissária, que me falou que havia vaga na Vasp. Dois dias depois decido ir à Vasp, mas desci no ponto errado de ônibus e parei bem em frente à Varig (outra aérea que também encerrou as atividades).

Tinha uma placa que dizia que estavam contratando. Entrei e saí empregado. Cheguei à Vasp só depois de 15 anos, passei rapidamente pela empresa.

Entrei trabalhando na emissão de passagens aéreas. Comecei a viajar, a ter aquela paixão pelo negócio. Era uma época difícil de viajar, principalmente de avião. Vim de uma família que nunca passou de dificuldade, mas também nunca teve nada de muito extravagante na vida.

Sempre estudei em escola pública, tive que trabalhar desde cedo para conseguir as minhas coisas.

Qual era a profissão de seus pais?

Meu pai trabalhava como vendedor na rua 25 de Março (centro comercial popular de São Paulo) e minha mãe dava aula para crianças na pré-escola.

Nunca me faltava nada, mas eu também nunca tinha nada. Então eu não tinha oportunidade de viajar para lugar nenhum.

Nessa época, estava me formando em jornalismo, mas vi que não dava para ser jornalista. Ganhava muito pouco, pensei que não conseguiria me sustentar trabalhando em jornalismo.

Que tropeços você teve na carreira que o ajudaram a encarar a vida de outra forma?

Há questões um pouco pela falta de experiência no começo de carreira, muito jovem. Tive meu primeiro cargo gerencial na Varig com 20 e poucos anos.

Um cargo gerencial vai muito além do conhecimento técnico, é muito mais também uma questão de relacionamento. E na minha idade, naquele momento, eu não tinha talvez a maturidade de tratar algumas situações, de tratar as pessoas, de tratar alguns problemas.

Nessa idade, você tem um pouco mais de prepotência em relação a outras pessoas e toma decisões que não estão erradas, mas a forma como você decide, você coloca a empresa toda contra você.

Então um grande aprendizado que tive na minha trajetória profissional foi lidar com as pessoas, colocar-se no outro lado para entender o ponto de vista do outro.

Quais os principais desafios no negócio de seguro de viagem?

O principal é criar uma cultura de seguros no Brasil. O brasileiro não tem uma cultura de seguros para nada. Por exemplo, comparando a quantidade de carros em circulação e a quantidade de carros segurados, você vai perceber que grande parte da população ainda não tem um seguro vinculado a seu carro.

E há outros tipos de seguro, como de vida ou de bens, em que a penetração ainda é muito pequena.

Mas um pouco do meu trabalho hoje na Assist Card é isso, e é um pouco também da minha trajetória na aviação. É sempre estar buscando alguma coisa que o mercado não tem e que o cliente possa a vir precisar.

Você começa a construir alguma coisa que as pessoas querem, mas elas nem imaginam que querem.

Penso o tempo todo no que que eu poderia criar que o mercado não tem para podermos diminuir as dores do passageiro.

Recentemente a gente criou uma cobertura de bagagem de mão segurada. Hoje você tem seguro para bagagem despachada. Mas a bagagem de mão você não tá segurado.

A pessoa comprou um celular ou está viajando com um laptop. Isso fica na bagagem de mão. Ele saiu do aeroporto, pegou um táxi, e, se acontecer alguma coisa no trajeto, ele tem de estar segurado.

Diga três características que te definem como um líder.

Acho que a primeira 30 anos é sempre estar buscando conhecimento.

Uma coisa que eu percebia muito quando estava na Varig é que você levava conhecimento e de certa forma aquele conhecimento não era compartilhado pelas outras pessoas porque elas já tinham seus 30 anos de carreira e já sabiam o que era certo e o que era errado.

O novo era descartado, e aquilo sempre me incomodou muito. Conhecimento nunca é demais. Quando alguém me traz alguma coisa nova, sou um dos primeiros a tentar entender o que aquela pessoa está falando e o que aquilo traz de relevância.

O segundo ponto é entender muito o que as pessoas têm a me dizer, principalmente a equipe. Não sou uma pessoa de tomar decisões sem escutar ninguém.

A última palavra pode ser que tenha de ser a minha, mas, em qualquer decisão que a gente venha a tomar hoje, existe um comitê na empresa para entender um pouco os pontos, causas e consequências daquelas decisões. Então hoje grande parte das decisões são compartilhadas.

E um terceiro ponto que eu particularmente tenho trabalhado muito na minha equipe é empoderamento. As pessoas de alguma forma devem tomar as decisões. Claro que a gente tem que passar para elas algumas bases muito sólidas de valores da empresa, de caminhos que a empresa quer trilhar, deixar muito claro que algumas decisões não podem passar de alguns limites éticos, mas as pessoas têm que tomar as decisões por elas mesmas.

Se a gente não der o poder de as pessoas tomarem decisões, principalmente as mais jovens, a gente vai ficando cada vez mais para trás.

Queria falar um pouco sobre sua experiência no show business. O que essa vivência trouxe para sua carreira?

Foram dois anos em que eu investi nesse nesse projeto, entre 2010 e 2011.Tinha acabado de sair da Copa Air Lines. Foi uma decisão minha porque nessa época eu tive um sério problema de crise de pânico. Uma situação muito complicada, porque eu comecei a ter medo de voar. Tive que fazer um tratamento para isso. Imagina você começar uma carreira na aviação com medo de voar… era uma coisa totalmente fora de contexto.

Comecei a perder um pouco medo de voar na Nordeste (companhia aérea extinta e ligada à Varig), porque os comandantes perceberam isso e me levavam para a cabine, explicavam todo o conceito do avião, de segurança.

Então aquilo começou a me tranquilizar um pouco, mas embora tenha ajudado e pouco a pouco fui perdendo o medo, era uma coisa que eu tinha que trabalhar na minha cabeça. Quando tive a oportunidade, eu decidi que precisava dar um tempo de aviação.

Mas nessa época você já trabalhava fazia um bom tempo com aviação?

Eu trabalhava em São Paulo e ia muito para o Rio. Na época, os voos da ponte aérea eram feitos por um avião da Varig, depois um da Vasp e outro da Transbrasil.

Quando eu pegava um bilhete de avião da Vasp ou Transbrasil, eu não queria ir. Ficava esperando um passageiro que chegasse de última hora e eu dava meu bilhete. Eu esperava o avião da Varig, não tinha coragem de ir em outro avião.

Um dia estava voltando para São Paulo e estava tranquilo porque ia pegar um avião da Varig. Faltavam 20 minutos para o embarque, e chega na sala VIP o Roberto Carlos.

Começamos a conversar, ele é supersimpático, mas aí eu pensei: 'Cara, eu estou no mesmo avião do Roberto Carlos. Isso não vai dar certo. Esse avião vai cair, está predestinado. Na hora em que chamaram para embarcar, eu não fui.

Então, eu saí da aviação e fui investir num projeto que se chamava Quartas Musicais. Tinha como objetivo abrir espaço para cantores jovens de MPB que ainda estavam se lançando. Fizemos shows com Bruna Caram, Luiza Possi. Cantoras que naquele momento não eram tão conhecidas.

Foi um grande aprendizado: para empreender, precisa ter muita coragem e um plano de negócio muito bem definido. Tinha que colocar muito dinheiro na frente porque você tinha que contratar os cantores, tinha que alugar o teatro, gastar na época com muita publicidade, e você recuperava o dinheiro ou com patrocínio ou com bilheteria.

Para empreender, precisa de um plano de negócios muito bem estruturado, porque senão você quebra, e quebra rápido.

Estadão
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