Chefes de bancos centrais e CEOs de bancos defendem Powell após ameaça do governo Trump
Os chefes de bancos centrais globais e os principais CEOs de bancos de Wall Street se alinharam em apoio ao chair do Federal Reserve, Jerome Powell, nesta terça-feira, em uma manifestação de solidariedade depois que o governo Trump o ameaçou com uma acusação criminal, medida que o chefe do banco central dos EUA chamou de intimidação.
O presidente do Banco Central do Brasil, Gabriel Galípolo, foi uma das autoridades monetárias que assinaram o documento.
A reação - evidência dos relacionamentos que Powell construiu durante seus anos no Fed e da importância do banco central norte-americano para os mercados financeiros globais - segue-se à resistência de vários parlamentares do Partido Republicano do presidente Donald Trump na segunda-feira, incluindo membros do Comitê Bancário do Senado, que tem o poder de bloquear a nomeação pelo presidente de um sucessor para Powell.
O mandato do atual presidente do Fed termina em maio. Powell revelou no domingo que o banco central dos EUA recebeu intimações do Departamento de Justiça sobre o que ele disse ao Congresso a respeito da reforma de US$2,5 bilhões da sede do Fed em Washington. Powell disse que a investigação é um pretexto para pressionar o banco central a reduzir a taxa de juros, como Trump quer há muito tempo.
"Estamos em total solidariedade com o Sistema do Federal Reserve e seu chair Jerome H. Powell", disseram os chefes de 11 dos maiores bancos centrais do mundo em uma rara declaração conjunta.
"Todos que conhecemos acreditam na independência do Fed", disse o CEO do JPMorgan, Jamie Dimon, a repórteres em uma teleconferência nesta terça-feira. "Isso (investigação) provavelmente não é uma boa ideia e, na minha opinião, terá as consequências inversas de aumentar as expectativas de inflação e provavelmente aumentar os juros ao longo do tempo."
A independência da influência do governo tem sido o principal alicerce dos bancos centrais modernos. Ela permaneceu como padrão inquestionável até que Trump começou a exigir juros mais baixos e a pressionar as autoridades quando eles não obedeciam.
Nesta terça-feira, Trump exigiu novamente que Powell reduza a taxa de juros de forma "significativa" depois que um relatório do governo mostrou que os preços ao consumidor aumentaram 2,7% em dezembro na base anual.
Enquanto isso, operadores mantinham as apostas de que a inflação ainda muito alta vai manter o Fed em espera com relação aos juros até junho.
APOIO DE BCS
Os chefes do Banco Central Europeu, do Banco da Inglaterra e de outras nove instituições, incluindo do Brasil, disseram que Powell agiu com integridade e que a independência do banco central é crucial para manter os preços e os mercados financeiros estáveis.
"A independência dos bancos centrais é a pedra fundamental da estabilidade econômica, financeira e de preços no interesse dos cidadãos que atendemos", acrescentaram.
Outros signatários incluíram os presidentes dos bancos centrais do Canadá, Suécia, Dinamarca, Suíça, Austrália, Coreia do Sul e França, bem como altos funcionários do BIS.
Os banqueiros centrais temem que a influência política sobre o Fed afete a confiança no compromisso do banco central com sua meta de inflação, levando a uma inflação mais alta e a volatilidade do mercado financeiro global.
Outros temem que um Fed politizado não ofereça mais um respaldo em dólares para as instituições financeiras em todo o mundo, transformando em armas essas linhas de financiamento cruciais que normalmente são usadas para acalmar os mercados durante períodos de estresse.
A influência política sobre o Fed provavelmente abalaria os mercados dos EUA e aumentaria a inflação doméstica, criando volatilidade que os EUA exportariam para outras partes do mundo por meio dos mercados financeiros.
Isso tornaria mais difícil para os outros países manterem os preços estáveis e seus próprios mercados calmos.
"Bancos centrais independentes com a capacidade de definir de forma independente a política monetária no interesse de longo prazo da nação é algo muito bem estabelecido que temos visto em todo o mundo durante um longo período de tempo", disse o CEO do BNY, Robin Vince, a repórteres em uma entrevista telefônica.
"Não vamos abalar os alicerces do mercado de títulos e, potencialmente, fazer algo que possa fazer com que as taxas de juros sejam de fato empurradas para cima porque, de alguma forma, há falta de confiança na independência do Fed", disse Vince.