Braskem Idesa, com sede no México, pede recuperação judicial nos Estados Unidos
Juiz do Texas autorizou a empresa, nesta terça-feira, 18, a fazer um empréstimo DIP (Debt-in-Progress), específico para empresas com problemas financeiros, de US$ 409 milhões
A petroquímica Braskem Idesa, que tem sede no México, entrou nesta terça-feira, 18, com um pedido de recuperação judicial (Chapter 11) na Justiça dos Estados Unidos e anunciou uma reestruturação para reduzir o endividamento. A companhia é uma joint venture da brasileira Braskem e do grupo mexicano Idesa, formada em 2016, que opera um complexo petroquímico em Veracruz, no México.
O pedido de recuperação judicial trouxe como parte da proposta um aporte da Braskem de US$ 476 milhões. O juiz Christopher Lopez do Texas, autorizou a Braskem Idesa a fazer um empréstimo DIP (Debt-in-Progress), específico para empresas com problemas financeiros, de US$ 409 milhões, de acordo com documentos judiciais. Esses recursos correspondem aos US$ 476 milhões que a Braskem anunciou que vai contribuir para a reestruturação da Idesa. A diferença dos números, de acordo com pessoas a par do assunto, ocorre por conta de diferenças imateriais na conciliação das contas.
A autorização do DIP veio após uma audiência na tarde desta terça-feira, a primeira do Chapter 11 da empresa, que entrou ontem com pedido de proteção contra credores em um tribunal de Houston, no Texas.
Pela estrutura do DIP apresentada ao juiz, a Braskem será a principal provedora dos recursos. Do total do empréstimo, US$ 230 milhões são de dinheiro novo, com desembolso imediato. Outros cerca de US$ 126 milhões foram desembolsados antes do pedido da Chapter 11. E o restante será aportado na empresa em até 6 meses.
Para prover os recursos, a Braskem pretende utilizar o próprio caixa, de acordo com pessoas a par do assunto. A Braskem encerrou o segundo trimestre com caixa de US$ 1,016 bilhão.
Segundo um dos participantes das negociações, não faria sentido disponibilizar os recursos todos de uma vez para a empresa mexicana. Além disso, o plano tinha de ser desenhado de forma que não prejudicasse a liquidez já curta da controladora brasileira. Assim, os pagamentos foram escalonados ao longo do tempo. Outro ponto importante era garantir que o pedido de proteção à justiça contra credores no México não disparasse vencimentos no Brasil.
A holding brasileira não é garantidora de títulos de dívida em dólar da Braskem Idesa, mas tem um acordo de suporte de capital em um empréstimo tomado pela Idesa na construção de um terminal de importação de etano no México. A possibilidade de esta dívida levar ao vencimento cruzado de débitos no Brasil, no entanto, estaria superada. "Todo o desenho, obviamente, foi feito para não prejudicar e, na medida do possível, ajudar o processo de recuperação da Braskem como um todo", disse a fonte.
O entendimento até o momento é de que o empresário Carlos Slim - que possui, por meio do controle do Grupo Idesa, posição acionária de 25% na Braskem Idesa - faria conversão de bonds e empréstimos em ações da empresa. Na composição toda do acordo, porém, ele manteria cerca de 25% do capital. A Braskem, por sua vez, seria diluída para 58% a 60%, mantendo o controle da empresa. O restante iria para os detentores de títulos de dívida.
A Braskem Idesa pretende reduzir a dívida de cerca de US$ 2,5 bilhões para US$ 1,6 bilhão. A Braskem aportará US$ 476 milhões e manterá a participação majoritária na companhia. A empresa informou que pretende encerrar o processo de recuperação em um prazo de 60 a 90 dias e que a operação não será afetada pela reestruturação.
Em fato relevante enviado à Comissão de Valores Mobiliários (CVM), a empresa destaca que alcançou um acordo "abrangente e consensual" de reestruturação com os principais envolvidos no negócio, incluindo os acionistas Braskem S.A., Braskem Netherlands e Etileno XXI (do grupo Idesa), além da maioria substancial dos detentores de títulos de dívida e o credor do empréstimo de longo prazo.
"Para implementar a reestruturação, a Braskem Idesa iniciou um processo de reestruturação judicial 'prepackaged' (pré-negociado) nos Estados Unidos, por meio do protocolo voluntário de pedidos sob o Chapter 11, perante o Tribunal de Falências dos Estados Unidos para o Distrito Sul do Texas, com expectativa de conclusão em aproximadamente 60 a 90 dias", escreveu a empresa.
Após a conclusão do processo, a Braskem afirmou que continuará detendo participação majoritária no capital social da Braskem Idesa.
Fábrica operava com menos da metade da capacidade
A empresa passou meses sob forte pressão após deixar de pagar os juros de seus títulos em dólares (bonds) com vencimentos previstos para 2029 e 2032. Diante da escassez de caixa, o complexo petroquímico Etileno XXI operava abaixo da capacidade instalada (apenas 43% no segundo trimestre). Isso impediu a companhia de aproveitar o ciclo de alta do petróleo gerado pelas tensões geopolíticas no Oriente Médio.
O mercado global de petroquímicos vinha enfrentando um longo período de retração, com excesso de oferta e margens de lucro muito apertadas, sufocando os produtores financeiramente mais frágeis.
A própria Braskem no Brasil vive sua própria crise financeira severa devido aos passivos bilionários do desastre ambiental em Alagoas, o que limita o suporte de capital irrestrito à subsidiária. Ela vem negociando com credores sobre uma possível reestruturação de dívidas.
Para os analistas do Citi, o pedido de recuperação judicial da Braskem Idesa nos Estados Unidos não foi uma surpresa: o assunto já vinha sendo discutido há algum tempo e a Braskem Idesa não paga juros de seus títulos desde novembro de 2025.
O Citi tem recomendação de venda para a Braskem, com preço-alvo de R$ 4,50, o que representa um potencial de queda de 13,5% ante o fechamento do papel no pregão de ontem.
Em relatório, os analistas Gabriel Barra, Pedro Gama e Andrés Cardona afirmam que a Braskem está se aproximando do fim do prazo de sua liminar (vencimento em 24 de agosto) e ainda não chegou a um acordo com seus acionistas.
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