Brasil vive combinação de crise institucional com uma crise moral, dizem Landau e Mendonça de Barros
Os economistas participaram de debate promovido pelo 'Estadão' sobre os desafios econômicos do próximo governo
Os economistas Elena Landau e Mendonça de Barros alertam que o Brasil vive crises institucional e moral que afastam novos investimentos e favorecem grupos de pressão. Em meio à desaceleração e ao esgotamento econômico, o País caminha para um ponto crítico que exigirá ajustes fiscais e melhor governança. Apesar do potencial de atração de capital externo por seus recursos naturais, a insegurança regulatória e os riscos institucionais continuam sendo os principais entraves para a retomada.
O Brasil enfrenta uma combinação de crise institucional com uma crise moral, às vésperas das eleições, afirma a economista e advogada Elena Landau, que participou, ao lado do economista e sócio da MB Associados José Roberto Mendonça de Barros, do quarto debate promovido pelo Estadão para discutir os desafios econômicos do próximo governo.
Isso é um dos principais fatores de desestímulo a investidores e profissionais que atuam dentro das regras de transparência e de mercado para atuar no País. Segundo os participantes, a fragilidade institucional favorece grupos com maior capacidade de influência sobre órgãos reguladores, Legislativo, Executivo e Judiciário, dificultando a entrada de novos investidores, especialmente no setor de infraestrutura.
"Nas disputas por concessões em infraestrutura, não tem investidor novo. Só atua a pessoa que já sabe como lidar com agência reguladora, com legisladores e o Congresso Nacional", diz Landau.
Segundo os economistas, o problema não é recente e vem se acumulando há décadas. A percepção é de que a deterioração institucional se tornou mais visível, enquanto o País se aproxima de uma situação de esgotamento econômico, com crescimento cada vez menor e menos instrumentos para impulsionar a atividade.
"O Brasil só muda quando põe o pé no abismo. É assim que historicamente acontece no País, porque ele sempre se acomoda e evita mudar. A escravatura, por exemplo, só foi revogada quando já não fazia mais sentido econômico", diz Mendonça de Barros. "Estamos escorregando lentamente para o abismo. Crescemos dois anos atrás mais do que no ano passado; este ano vai crescer menos e o ano que vem vai ser menos ainda. As grandes empresas entrando em recuperação judicial chamam atenção."
Para o economista, o País não tem mais coelhos para tirar da cartola. Na primeira década do milênio, "a China nos puxou pelo cabelo". Depois, o setor agropecuário elevou a economia. Nos últimos anos, houve um aumento forte da carga tributária.
"A sociedade não aceita mais inflação. E o debate público agora fala que não tem escape, a não ser fazer algum ajuste fiscal", defende Mendonça de Barros. "O abismo pode nos empurrar para alguma coisa que nos levará a um lugar melhor. Há um problema grave de governança, e estamos nos aproximando da situação de abismo, ajudada por cenário internacional, de rearranjo geopolítico e de inteligência artificial."
O capital estrangeiro pode ter papel decisivo nesse processo de trazer recursos para reavivar os investimentos no País, em especial porque o Brasil tem ativos capazes de despertar interesse internacional, como recursos naturais, terras raras e segurança geopolítica. A questão, porém, é saber até que ponto o retorno potencial compensa os riscos institucionais e econômicos, destaca Landau.
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