Brasil terá recomposição de estoques de etanol na nova safra após queda de 20% em 2025/26
Com os preços do etanol no Brasil próximos dos maiores níveis em quase três anos e as cotações do açúcar em mínimas de cinco anos, haverá forte estímulo na nova safra 2026/27 para a recomposição da oferta do biocombustível, após uma queda nos estoques de mais de 20% nesta entressafra do centro-sul, segundo especialistas e dados do setor.
O aumento da produção virá da manutenção do crescimento do etanol de milho, mas também da mudança na alocação de cana para a produção do biocombustível em detrimento do açúcar, cujos preços no mercado internacional atingiram nesta quarta-feira uma mínima de cinco anos, com o excedente global pressionando os valores.
"Os preços do etanol se mostram entre 30% a 40% maiores que os do açúcar, o que justifica essa posição mais alta do etanol (prevista para 2026/27), onde os estoques terão chances de serem recompostos ao longo de 2026", disse o analista da consultoria Safras & Mercado, Maurício Muruci, ao ser questionado pela Reuters.
A consultoria estima que em 2026/27, com início em abril, o "mix" da cana para etanol será de 53% e, para o açúcar, de 47%, "invertendo a posição de 2025", quando o adoçante detinha a maior parte da alocação da matéria-prima, afirmou Muruci.
Os estoques disponíveis de etanol no centro-sul do Brasil somavam 5,81 bilhões de litros em 15 de janeiro de 2026, queda de 20,7% ante os 7,33 bilhões de litros no mesmo período do ano anterior, de acordo com os dados mais recentes publicados pelo Ministério da Agricultura, que indicam também um recuo de 24,5% para os volumes do combustível hidratado, a 3,30 bilhões de litros, e de 15,2% para o anidro, a 2,51 bilhões de litros.
Nesta conjuntura, os preços médios do etanol hidratado nas usinas do Estado de São Paulo superaram R$3/litro, patamar nominal não visto desde abril de 2023, enquanto as cotações do anidro oscilam perto de R$3,50, também uma máxima de vários anos.
"O estoque está baixo porque a produção (de etanol) foi mínima (em 2025/26). O preço na bomba foi competitivo o tempo todo com a gasolina, tinha oferta restrita e demanda firme", disse o sócio-diretor da consultoria JOB Economia, Julio Maria Borges.
Com base nos dados do ministério, Borges avaliou os estoques como "muito baixos", mas vê uma recuperação da oferta na nova safra e uma subsequente pressão sobre os preços em 2026/27.
Apesar da baixa oferta neste início de ano, os especialistas não consideram que há riscos para o abastecimento, citando que a produção vai se recuperar, até porque compensa menos para a usina produzir açúcar, em função da depreciação do produto.
Além disso, a produção de etanol de milho, que não para na entressafra da cana, ganha cada vez mais fatia do mercado, devendo registrar novo recorde em 2026/27.
A consultoria StoneX projeta que a produção de etanol de cana crescerá 4,4% em 2026/27, para 25,5 bilhões de litros, enquanto a de milho aumentará 17%, para 11 bilhões de litros.
FAVORÁVEL PARA O ETANOL
O presidente-executivo da União Nacional do Etanol de Milho (Unem), Guilherme Nolasco, comentou que a situação é favorável para a indústria.
"Com o mercado bastante enxuto, estoques baixos e com a produção exclusiva de etanol de milho em grande parte do país, temos uma demanda aumentada pelo etanol de milho para a manutenção do abastecimento", disse ele, estimando que a produção do combustível de milho e outros cereais na nova safra crescerá para 12 bilhões de litros.
Todo o cenário para 2026/27, assim, indica que o Brasil terá "demanda forte de etanol", oferta elevada e estoques recompostos, concluiu Muruci, da Safras & Mercado.
QUEDA NO PREÇO AO LONGO DA SAFRA
De acordo com avaliação da consultoria Datagro, os preços do etanol hidratado, que estão cerca de 8% mais altos no polo de Paulínia (SP) em relação ao mesmo período do ano passado, deverão oscilar próximos do atual patamar de R$3,16/litro (sem impostos) ao longo de fevereiro, mas deverão recuar a partir de março, à medida que as usinas do centro-sul antecipem o início da moagem da nova safra.
Conforme projeção da Datagro, os preços do etanol hidratado em Paulínia deverão cair para R$2,52/litro na média do mês de maio, girando em torno da marca de R$2,50/litro até o mês de novembro.
A Datagro, que na sua análise também considera uma maior moagem de cana, menor "mix" para açúcar e elevação da produção de etanol de milho, avalia que os preços do combustível voltariam a subir em novembro e dezembro, com o encerramento da safra do centro-sul, mas não na mesma proporção de 2025/26.