'Brasil tem poder incomensurável para ser um campeão contra a crise climática', diz CEO da Weleda
Maria Claudia Villaboim Pontes, líder da marca de remédios, avalia a necessidade de respeitar o ritmo da natureza ao utilizar plantas medicinais e identifica oportunidades para o Brasil na COP-30
Ter uma produção baseada no ritmo da natureza é um desafio extra para indústrias com matérias-primas naturais comprometidas com a luta contra as mudanças climáticas. Essa escolha, ainda que limite o crescimento, é parte da cultura da Weleda, marca de remédios e cosméticos baseada em plantas e elementos naturais, diz ao Estadão a CEO, Maria Claudia Villaboim Pontes.
A marca surgiu na Suíça em 1921 e chegou ao Brasil em 1959. Hoje, tem oito farmácias próprias e distribui os produtos por meio de outras redes. Conseguiu dobrar de tamanho no País nos últimos cinco anos e projeta seguir nesse ritmo — sem acelerar demais, para não atropelar o ritmo de produção dos jardins em que obtém as plantas para os medicamentos — dos seis ao redor do mundo, um está no Brasil, em São Roque (SP).
Na entrevista, Pontes fala sobre a cultura da empresa, a estratégia de crescimento e a importância da questão ambiental e da COP-30 para o Brasil. Confira os principais trechos.
A Weleda trabalha com produtos naturais e orgânicos desde a fundação?
A Weleda é uma empresa centenária e, desde sua origem, sempre trabalha com ingredientes naturais, orgânicos e, hoje, biodinâmicos, trazendo do solo, da natureza, tudo que a gente usa nos medicamentos e nos cosméticos. A Weleda nasce baseada na antroposofia, a partir da ideia do filósofo Rudolf Steiner, que entende que nós, seres humanos, somos parte da natureza; não estamos apartados dela. O que nos diferencia é que nós temos esse livre-arbítrio, essa capacidade de agir de acordo com a nossa própria consciência.
Por que a Weleda foca tanto em cosméticos quanto em remédios?
A Weleda nasce para providenciar o equilíbrio para as pessoas, então eu diria que a vocação é na parte de medicamentos, que é muito importante para nós no Brasil. Porém é uma medicina muito específica, muito nichada, muito ligada à comunidade antroposófica, que entende essa medicina de uma maneira diferente da que estamos acostumados. E, por ser uma empresa pequena, entendeu-se naquele momento que poderia desenvolver cosméticos que seriam mais fáceis de serem entendidos pelas pessoas. São produtos de cuidado, respeitando o ser humano e também a natureza. A doença vem da desconexão, de não ter esse momento de se conectar consigo, com a natureza e com o seu redor. A antroposofia é uma medicina integrativa. Ela não vai olhar uma parte isolada sua, ela vai olhar o todo, vai olhar o seu estilo de vida, suas crenças, seus sentimentos, para poder, através desses minérios ou desses vegetais, buscar alguma composição que te reequilibre. A questão é reequilibrar.
Como é feita a pesquisa dos ingredientes pela Weleda?
Eu diria que é quase uma medicina ancestral europeia. A base é olhar o comportamento das plantas. Olha-se o processo daquela planta. Na hora que você identifica o processo e que forças que estão por detrás daquela planta para criar esse processo vital, descobre como a planta funciona para a gente. Eu tenho pouquíssimos produtos hoje no Brasil que advêm da nossa biodiversidade. Esse é um elemento que a gente tem negociado muito com a Weleda global, de trazer mais pesquisa para o Brasil, para utilizar essa riqueza que a gente tem no Brasil e buscar novas formas de tratamento, de reequilíbrio, através da nossa biodiversidade.
Então a Weleda vai aumentar essa busca pela biodiversidade brasileira dentro dos produtos?
Com certeza, a nossa operação hoje é bem pequena, mas vem crescendo e dobrou de tamanho nos últimos cinco anos, também dobrou de rentabilidade, e isso nos permite ter um pouco mais de musculatura para buscar esses desenvolvimentos locais. Não obstante, hoje nosso principal produto é feito no Brasil com plantas brasileiras, plantas essas que inclusive estão para dividir benefícios através do Ibama, de toda a parte dos BES (Benefícios da Exploração da Sociobiodiversidade — repartição de benefícios decorrente do uso de recursos genéticos e conhecimento tradicional), para a nossa comunidade local, porque são plantas nativas brasileiras. Imagine se a gente conseguir explorar os seis biomas brasileiros. Acho que existe aí uma cultura que a gente precisa incentivar para que mais e mais empresas possam explorar de uma maneira responsável e consciente o que a natureza brasileira tem.
Como a Weleda faz para garantir o fornecimento constante dos insumos, seja com agricultura orgânica, seja com outras formas de agricultura?
São duas perguntas em uma. A natureza não é uma máquina, não é sintética, então para explorar produtos que vêm da natureza, tem de se criar uma cadeia sustentável e ampla, porque, se você sofre um problema, onde vai buscar? A Weleda busca desenvolver ao longo do tempo vários parceiros para que possam suprir as nossas necessidades. Outra característica é que não adianta eu planejar um crescimento de dobrar de tamanho de um ano para o outro, não rola. Tudo é muito constante, então trabalhamos três, quatro, cinco anos na frente no desenvolvimento desses parceiros agrícolas, parceiros esses que a gente tem de validar se trabalha de maneira orgânica. Os ritmos da natureza são distintos e respeitamos tudo isso, com amarras que fazem com que a gente tenha um ritmo constante, nunca maior, pode até ser menor se for uma tragédia, que eu espero que não ocorra. E para não ocorrer as tragédias, a gente vai desenvolvendo outros agricultores que possam nos suprir em caso de necessidade. A Weleda participa do comércio justo, então se você é um agricultor e perde sua plantação, eu vou lá e pago uma parte da sua plantação. É a cultura da empresa, que o que eu faço para você volta para mim, se eu te destruo, se eu te exauro, eu também vou ser destruída em outro momento. Há uma filosofia de respeito muito grande com o outro, com a terra, com o meio ambiente e com o planeta.
Como se dá esse desenvolvimento da relação com as comunidades?
A Weleda é verticalizada. Eu tenho seis jardins biodinâmicos no mundo, um aqui no Brasil, em São Roque (SP), e é um jardim onde plantamos e colhemos 40 espécies. Vamos desenvolvendo parceiros no entorno da minha fábrica, porque usamos apenas plantas frescas, com muita vitalidade. A gente traz o caminhão para dentro da fábrica, processa essa planta fresca, faz toda a manufatura, pega o pouco que sobra e devolve para a terra para virar insumo, para virar compostagem. E não levam nenhum conservante. Os produtos têm uma base alcoólica, que por si só tem um conservante natural, e a gente usa as melhores práticas de fabricação dentro dos nossos produtos. A validade é de dois anos, comprovados com testes. Também contamos com uma certificadora, que dá tranquilidade de que ela olhou e dá o selo de que tudo que tem ali é natural. É livre de filatos, de conservantes, de silicones, de petrolatos, de microplásticos.
Como a Weleda lida com a questão da produção das embalagens? Ela exige, por exemplo, que as embalagens sejam recicláveis?
Tudo na Weleda é pensado em sustentabilidade, também na embalagem que eu vou utilizar. Se não for para ser sustentável, nem lança. Os acionistas da Weleda não têm essa necessidade de um crescimento estrondoso, mas sim de uma responsabilidade sustentável neste crescimento. Hoje, 80% das embalagens já são recicláveis e têm potencial de ser recicladas. No nosso caso, na Europa, é um pouco mais fácil. Usamos vidro, alumínio e muito pouco plástico, um pet já reciclado. Na hora que se pensa num produto, já se pensa em todos esses elementos.
Falando um pouco da COP, qual que é a sua expectativa para o evento?
A Weleda não estará presente diretamente. A Weleda é uma empresa do Sistema B (coalizão de empresas atentas a questões ambientais e sociais), então, eu diria que a presença do Sistema B já dá a representatividade para a Weleda estar lá. A Weleda é uma das três maiores empresas de cosméticos certificada mundialmente. A COP, eu diria que é um marco, onde a gente espera que ações sejam implementadas para que se rume à diminuição do aquecimento. E, principalmente, que empresas surjam, novas ou renovadas, e surjam compromissos de melhorar a nossa pegada ambiental e também o nosso impacto social no planeta. A COP não é um fim, a COP é mais um marco muito importante para que a gente possa, como população, como humanidade, evoluir para ter um mundo mais sustentável. Esperamos que saiam ações concretas. Não temos de ter empresas boas somente para os acionistas, temos de ter empresas boas para o mundo.
Qual a importância de a COP ser no Brasil?
Estando no Brasil, vai todo mundo ver essa diversidade que a gente tem no Brasil, o potencial que o Brasil tem é incomensurável de poder ser, de fato, um grande campeão nessa crise climática. Acho que não tem um país mais bem posicionado como o Brasil para ter um impacto na crise climática, na biodiversidade. Os holofotes vão estar aqui, para que possamos discutir caminhos possíveis. Sabemos que o momento geopolítico não é o mais adequado. Toda crise gera o outro lado, que são as oportunidades. O Brasil tem centenas de empresas que fazem soluções muito bacanas, de uma maneira responsável, ganhando seu dinheiro de uma maneira sustentável e gerando um impacto positivo para o planeta.
Você espera que a COP ajude a trazer essa atenção sobre a produção sustentável nas indústrias em que a Weleda atua?
Eu acho que não especificamente no setor, é uma questão de educação. A nova geração vai demandar, vai entender, vai buscar. Ela está conectada, o celular nos permite saber tudo ao tempo todo, então eu acho que isso vem. O nosso passo no Brasil é um pouco mais moroso, mas esse consumidor que quer coisa sustentável quer ver como você faz, o que está por detrás, como é que você gere a sua empresa. Então, as coisas vêm evoluindo, não aos passos que nós gostaríamos, mas ao que pode ser feito, na velocidade que pode ter.
Como a Weleda pretende seguir crescendo no mercado brasileiro?
A gente não tem pressa, eu fico bem confortável de dizer isso. Estive com o pessoal da Suíça semana passada aqui, e a gente vai crescer no nosso ritmo de uma maneira sustentável. Crescer consome caixa, consome investimento e recursos, e não conseguimos fazer esses saltos muito grandes de um dia para a noite, porque o nosso principal fornecedor é a natureza. Então viemos crescendo, dobramos de tamanho, e esperamos dobrar de tamanho de novo nos próximos cinco anos, lançando produtos, alguns desenvolvidos no Brasil. Pensando nesse cosmético, hoje a Weleda não produz cosméticos no Brasil, importamos esses cosméticos, e viemos discutindo com o global de realmente criar uma linha de cosméticos brasileira. É muito difícil competir, a nossa qualidade é maravilhosa, mas temos uma moeda mais frágil, e obviamente taxas de importação que acabam onerando mais o nosso produto para o consumidor final. A solução para o cosmético no Brasil é o desenvolvimento local, usando essa biodiversidade que o Brasil nos proporciona. Temos plano, sim, de fazer um desenvolvimento de cosméticos locais, mas a gente segue crescendo em medicamentos, que hoje é o principal negócio da Weleda no Brasil, 80% do faturamento advém de medicamentos, e esses medicamentos que eram antes restritos para aquela comunidade antroposófica. Estamos passando essa barreira, então mais pessoas que não frequentam a comunidade antroposófica entendem o benefício dos nossos medicamentos e começam a usar.