Brasil pode aproveitar guerra comercial para 'ficar rico antes de envelhecer', diz sócio da McKinsey
Segundo Nelson Ferreira, na nova configuração geopolítica global, o Brasil aparece como um dos poucos grandes países capazes de negociar com todos os lados ao mesmo tempo
A tradição diplomática brasileira de sempre enxergar o multilateralismo para além da ideologia de plantão é uma arma geopolítica que faz com que o País, neste momento da história, esteja bem posicionado para jogar o jogo global, mesmo sendo essencialmente um exportador de commodities. Essa é a avaliação de Nelson Ferreira, sócio sênior da McKinsey e um dos participantes do São Paulo Innovation Week, o maior festival global de tecnologia e inovação, realizado pelo Estadão, em parceria com a Base Eventos. O evento será realizado entre os dias 13 e 15 de maio na Faap e na Arena Pacaembu e contará com mais de 2 mil palestrantes.
Segundo Ferreira, o Brasil tem diante de si uma última oportunidade de "ficar rico antes de ficar velho", em referência às características demográficas atuais do País. Um estudo da própria McKinsey revela que o crescimento econômico latino-americano ficou em 2,3% ao ano nas últimas duas décadas, abaixo da média global, enquanto a expansão da força de trabalho começa a perder fôlego. A partir de 2040, ela deve até encolher. O diagnóstico é direto: sem um aumento relevante de produtividade, a região corre o risco de envelhecer antes de atingir renda de país desenvolvido. O próprio relatório usa a expressão "get rich before it gets old" para a América Latina. A janela de oportunidade pode estar começando a se fechar.
Nesse tabuleiro planetário, diz Ferreira, o Brasil ganhou importância porque o comércio global deixou de ser guiado apenas pela eficiência e passou a ser moldado por uma geopolítica que deixou de ser bipolar - ou simplesmente globalizada sob a batuta norte-americana. O relatório "Geopolitics and the Geometry of Global Trade", do McKinsey Global Institute, mostra que as cadeias globais estão sendo reorganizadas ao longo de linhas políticas e estratégicas. A disputa entre Washington e Pequim deslocou mais de US$ 165 bilhões em comércio para fora do corredor formatado pelos dois países apenas em 2025.
"O Brasil aparece como um dos poucos grandes países capazes de negociar com todos os lados ao mesmo tempo. O comércio internacional passou a aumentar a distância geográfica e diminuir a distância geopolítica. Em outras palavras: produtos e serviços percorrem trajetos cada vez maiores, mas os países estão negociando mais entre parceiros politicamente alinhados. O Brasil, entretanto, ainda pode falar com todos", diz Ferreira.
O valor do próprio comércio global mudou de lugar. Cada vez mais, ele está concentrado em produtos e serviços ligados ao século XXI: inteligência artificial, software, semicondutores, computação em nuvem, eletrônicos e tecnologia. Mesmo em meio a uma guerra tarifária, o comércio mundial cresce, impulsionado principalmente por esses segmentos.
Segundo Ferreira, isso acende um sinal amarelo para o Brasil. O País continua excessivamente dependente da exportação de produtos primários, como commodities agrícolas, minério de ferro e celulose. "Não há problema em ser competitivo nesses setores. O problema é depender quase exclusivamente deles justamente quando o comércio global passa a valorizar mais tecnologia, serviços digitais e produtos de maior complexidade", afirma.
Hoje, o Brasil ainda ocupa pouco espaço nos segmentos mais promissores da nova economia. Ferreira cita a exportação de aviões como uma das raras exceções de exportação industrial sofisticada em escala global.
Fuga do estrangulamento
O conceito dos chamados "choke points" - pontos de estrangulamento físicos e tecnológicos - passou a definir a segurança econômica global. Eles vão muito além de rotas marítimas, como as que passam pelo Estreito de Ormuz. Incluem semicondutores, minerais críticos, data centers, energia, fertilizantes, infraestrutura logística e capacidade industrial. No passado, lembra Ferreira, o controle italiano sobre a rota das especiarias empurrou os portugueses para as grandes navegações, que culminaram na chegada ao continente americano.
Hoje, o avanço da inteligência artificial tende a acelerar muito mais essas disputas. Em 2025, equipamentos ligados à IA, como chips, servidores e sistemas de rede, responderam por cerca de um terço do crescimento do comércio global.
Isso afeta diretamente o cotidiano brasileiro, segundo Ferreira. O preço dos fertilizantes depende da geopolítica. O acesso a chips impacta desde a indústria automobilística até o sistema bancário. Data centers exigem energia abundante e estável. Minerais críticos, cobre e terras raras ganharam peso estratégico. O agro virou peça central da segurança alimentar global. Até a infraestrutura portuária entra nessa equação. O comércio internacional deixou de ser um tema distante para diplomatas e passou a influenciar inflação, emprego, energia e investimento.
"Mas o Brasil aparece bem posicionado justamente porque reúne ativos que o mundo passou a considerar estratégicos. O País tem energia renovável relativamente barata, produção agrícola em escala, minerais críticos e uma posição diplomática menos alinhada aos extremos da polarização global", explica Ferreira. O estudo da McKinsey sobre produtividade na América Latina aponta justamente que países com recursos naturais, capacidade industrial e relativa neutralidade geopolítica podem ganhar espaço nas novas cadeias globais.
A América Latina, porém, avança em velocidades diferentes. Ferreira cita México e Costa Rica como exemplos de inserção mais moderna na economia global, baseada na industrialização. "Cerca de 40% dos equipamentos médicos que os Estados Unidos importam saem da Costa Rica."
Acordo obsoleto
Na visão do sócio da McKinsey, ao mesmo tempo em que o Brasil pode se tornar um polo relevante para data centers e atividades intensivas em energia - justamente por conseguir oferecer segurança energética baseada em hidrelétricas, além do avanço de fontes como solar, eólica e biogás -, existe um lado preocupante.
Um gargalo que pode deixar o Brasil para trás é a estagnação do seu parque industrial, locomotiva que ajudou a impulsionar o desenvolvimento do País no século passado, mas que hoje perdeu competitividade.
"O acordo entre Mercosul e União Europeia é bom para o Brasil. Ele abre oportunidades, mas já nasce anacrônico. Foi concebido há 25 anos, quando a Europa era o nosso principal parceiro comercial. Hoje, é a China. Então ele já começa desatualizado", diz.
Isso não significa, porém, que tudo esteja perdido. Na transição energética, nos biocombustíveis, na mineração e na agricultura, o Brasil possui vantagens competitivas naturais. E todos esses setores ganharam importância em uma era de transição global que já começou.
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