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Brasil continua correndo atrás dos vizinhos

País deve crescer bem menos do que outros sul-americanos neste e no próximo ano; FMI também aponta desaceleração global

16 out 2019
04h16
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WASHINGTON - Com crescimento de apenas 0,9% neste ano e 2% no próximo, o Brasil continua bem atrás de outros emergentes, incluídos vários sul-americanos, segundo as novas projeções do Fundo Monetário Internacional (FMI).

Os números apontam uma economia com pouco fôlego, apesar de algum avanço na pauta de reformas. No cenário anterior, divulgado em julho, a expansão brasileira ficaria em 0,8% em 2019 e chegaria a 2,4% em 2020. A fraqueza da economia nacional está refletida também na expectativa para 2024. No primeiro ano do novo mandato presidencial, o Produto Interno Bruto (PIB) deverá aumentar 2,3%. Esse número corresponde, aproximadamente, ao potencial de crescimento estimado por economistas do mercado e também de entidades internacionais. Não se inclui nas contas, portanto, um ganho relevante na capacidade produtiva até o fim do atual governo.

Houve alguma recuperação no Brasil, mas permanece a incerteza quanto à política econômica, disse numa entrevista coletiva a economista-chefe do FMI, Gita Gopinath. O progresso no front da reforma da Previdência foi muito bom, acrescentou. "É preciso fazer mais, no entanto, porque os níveis da dívida são muito altos (…) Esperamos melhoras se continuar a redução da incerteza em relação à política e mais reformas forem empreendidas."

Fraquezas da economia brasileira têm sido apontadas há anos pelos técnicos do Fundo. O endividamento citado por Gita é parte do problema fiscal, a solução inclui a reforma da Previdência, mas o quadro é muito mais complexo. Técnicos do Fundo têm listado, em vários estudos e relatórios, o engessamento das finanças públicas, a tributação disfuncional, as deficiências da infraestrutura, a pouca integração global do Brasil e a escassez de capital humano qualificado, entre outros.

A curto prazo, o Brasil continua preso ao baixo crescimento da fase iniciada em 2017 com o fim da recessão. Essa fase, com expansão próxima de 1% nos primeiros dois anos, foi mencionada pela economista Oya Celasun, chefe de divisão do Departamento de Pesquisa, liderado por Gita Gopinath. Mas os problemas brasileiros são emoldurados, neste momento, por um quadro global em deterioração.

A economista-chefe e seus principais auxiliares apresentaram esse quadro na entrevista organizada para o lançamento da nova edição da Perspectiva Econômica Mundial, relatório publicado regularmente em abril e em outubro. O documento descreve uma desaceleração sincronizada da atividade global.

Mundo

O produto mundial deve crescer 3% em 2019 e 3,4% em 2020, de acordo com as novas projeções. Os cálculos publicados em julho indicavam expansão de 3,2% neste ano e 3,5% no próximo. A atividade vem sendo travada pelo baixo desempenho da indústria de transformação, pelo enfraquecimento do comércio internacional, prejudicado por aumentos de tarifas, e pela incerteza quanto às políticas comerciais. Uma das consequências é a redução de investimentos e, portanto, da demanda de bens de capital, isto é, de máquinas e equipamentos. Além disso, lembrou Gita, a indústria automobilística está em contração. Isso se explica por vários fatores, incluídos novos padrões de emissão adotados na zona do euro e na China. O crescimento do comércio mundial, 1% no primeiro semestre, foi o menor desde 2012, lembrou Gita.

O balanço da economia global teria sido pior sem a política monetária mantida pelos grandes bancos centrais. Sem os estímulos, o crescimento global seria 0,5% menor em 2019 e em 2020, indicou a economista-chefe do FMI. No mundo rico, a economia mais fraca tende a se acomodar em seu potencial de crescimento de longo prazo. No mundo emergente e em desenvolvimento, a perda de impulso é em parte atribuível ao comércio e às incertezas da política doméstica e em parte à desaceleração estrutural da China, iniciada há alguns anos.

A recuperação global esperada para 2020 deverá provir em grande parte a atividade mais intensa nesse conjunto de países, incluídos Brasil, Índia, México, Rússia e Arábia Saudita. Neste último grupo, o crescimento em 2019 tem sido bem menor que em 2018. Mas há considerável incerteza quanto a essa recuperação, quando se espera nova desaceleração de grandes economias como Estados Unidos, Japão e China, explicou Gita.

"Em resumo, a perspectiva global permanece, com uma desaceleração sincronizada e uma recuperação incerta", disse a economista. "Com crescimento de 3%, não há espaço para erros políticos", acrescentou. A mensagem final incluiu um apelo a favor da cooperação, do fortalecimento do sistema de comércio e do multilateralismo.

Enquanto o Brasil se arrasta e seu governo combate o multilateralismo, outros sul-americanos continuam mostrando vigor. O Chile deve crescer 2,5% neste ano e 3% no próximo, a Colômbia, 3,4% e 3,6%, o Paraguai, 4% e 3,9%, o Peru, 3,6% e 3,8%, mantendo a vantagem conquistada há anos em relação ao maior país da vizinhança.

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Estadão
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