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Bancos digitais agora querem concorrer com empresas como Magalu e iFood

Instituições como Inter, C6 e BTG lançam marketplaces e buscam inovações em seus aplicativos que as levem além do mundo financeiro

18 jan 2021
19h06
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Foi-se o tempo em que a competição no setor financeiro se limitava a uma disputa entre bancos e fintechs. Agora, envolve também varejistas, aplicativos de entrega, operadoras de telefonia e qualquer outro segmento que tenha uma base expressiva de clientes para a qual se possa oferecer produtos financeiros. Como resposta, as instituições financeiras também se mexem e procuram ir além do mundo das finanças, turbinando seus aplicativos e lançando marketplaces (espaço virtual onde vários lojistas se reúnem para vender seus produtos), tudo para conquistar aquilo que se tornou o bem mais precioso nesse mercado cada vez mais diverso: o tempo do cliente.

O movimento mais recente foi o anúncio da parceria entre o BTG Pactual e a Mosaico, empresa dona do Zoom e do Buscapé, que, entre outras coisas, vai desenvolver um marketplace. Outros bancos digitais, contudo, já estão nessa há mais tempo, como o Inter, que desde o ano passado oferece no aplicativo o que eles preferem chamar de shopping, onde as pessoas podem comprar produtos diversos de 272 lojas.

"Há dois ou três anos, ser um banco digital era algo revolucionário. Hoje já está velho. Queremos ser um aplicativo que também oferece serviços não financeiros, um superaplicativo, que passa pelo conceito do banco não como um fim, mas como um meio", afirma o CEO do Inter, João Vitor Menin, que tem trabalhado para lançar no primeiro semestre de 2021 um serviço de telefonia e outro de delivery, tudo no mesmo app. "A ideia é que o cliente acorde, trabalhe e chegue ao fim do dia com a percepção de que fez tudo pelo aplicativo do Inter", explica.

Na disputa pelo tempo, contudo, as varejistas começaram antes. O Mercado Livre tem a conta digital Mercado Pago; o Magazine Luiza, o sistema de pagamentos MagaluPay - e recentemente fez mais uma aquisição neste sentido; a Via Varejo tem o Banqi; e a B2W, a Ame Digital. Tudo isso para garantir que o consumidor não precise sair do aplicativo para encontrar soluções, além de conseguir ainda mais dados de hábito de compras destes clientes. Assim, fica mais fácil oferecer produtos irresistíveis. Além disso, é mais barato alcançar com publicidade os clientes que têm diversos pontos de contato com a empresa.

Os aplicativos de entrega também estão atentos. O Rappi criou o RappiBank e o Ifood lançou uma conta digital gratuita para donos de restaurantes. "Os aplicativos de entrega vão conseguir ter uma profundidade maior de análise dos clientes, conhecendo volume de pedidos, sazonalidades. Podem até oferecer uma taxa de juros menor baseada em recebimentos futuros. É um grau de profundidade que os bancos não têm", afirma o consultor Bruno Diniz, líder na América Latina pela Financial Data and Technology Association (FDATA) e cofundador da consultoria especializada em inovação para o mercado financeiro Spiralem.

Ele ressalta que os bancos perderam o monopólio do serviços financeiros mais básicos, como poder oferecer uma conta e conceder empréstimos, e vão precisar avançar para soluções não financeiras. "Os varejistas, por exemplo, têm a vantagem de ter todo um ecossistema de ofertas não financeiras para os clientes e podem oferecer descontos para estimular o uso dos serviços financeiros. Os bancos vão também ter de aliar ofertas que sejam interessantes", disse.

Para Eduardo Terra, presidente da Sociedade Brasileira de Varejo e Consumo (SBVC), com o advento do Pix e do open banking (sistema no qual as instituições financeiras podem compartilhar informações dos clientes), é possível que os superaplicativos das varejistas cheguem - de fato - a incomodar os grandes bancos. "Quando se olha para a China, os marketplaces engoliram serviços de pagamento e crédito. Daqui a cinco anos, se essas plataformas ficarem mais robustas, é possível que elas façam disrupção nessas áreas. Como os bancos podem lidar com isso? Reembaralhando o jogo", diz.

A base atualizada e ativa de clientes e a presença de seus aplicativos nos celulares dos brasileiros são as principais armas dos bancos na tentativa de criar seus espaços de compras. Sabendo quanto o cliente gasta e quanto ele ganha, além de ter acesso a esse cliente por meio de notificação nos telefones, são vantagens importantes para traçar essa espécie de caminho inverso de acesso ao consumidor.

"Não sei se eles (os bancos) vão ter sucesso, mas eles têm muito insumo para ter sucesso", afirma Gustavo Chapchap, líder do Comitê de E-Commerce da Associação Brasileira de Agentes Digitais e diretor da Jet/ZapCommerce. Ele explica que a origem desse movimento é antiga e vem dos sistemas de recuperação de pontos de cartões de crédito. "O banco tem a vantagem de poder atrair esses clientes de diferentes formas. Por exemplo, isentando de tarifa o cliente que comprar determinado montante na plataforma de varejo."

Quando se trata de vender online, tudo envolve conquistar o cliente com menos investimentos e mostrar aos lojistas que sua plataforma atinge mais consumidores que as demais. No caso dos bancos, o acesso aos clientes e aos lojistas é facilitado pela quantidade de informações que eles têm de ambos. Falta, porém, uma habilidade importante. "Eles não têm expertise de varejo", lembra Terra.

O presidente da SBVC ressalta ainda que grandes varejistas como o Magazine Luiza e o próprio Mercado Livre já competem de igual para igual com grandes instituições financeiras em valor de mercado, ou seja, em quanto os investidores acreditam que essas empresas valem. "Se for para apostar em quem deve engolir quem, é preciso levar isso em consideração", avalia.

Para o c6 Bank, que lançou um marketplace em outubro do ano passado, o caminho dos bancos é mais fácil que o das varejistas. "O varejo quer ser banco, mas precisa montar algo mais regulado. É mais complexo. Mas para o banco ser varejo é mais simples", afirma Maxnaun Gutierrez, responsável pela área de produtos e pessoa física do banco.

Ele não vê, contudo, que haja uma concorrência com os varejistas, mas sim com outras instituições financeiras, para oferecer a melhor experiência ao cliente. "Se eu vendo produtos das Casas Bahia no meu marketplace e o cliente acha mais interessante comprar comigo, porque tem cashback, não faz diferença para as Casas Bahia, porque ela quer vender, não importa o canal. Ela até economiza em marketing", explica. "O maior desafio do varejo é fazer o cliente entrar na sua loja. Se o cliente do C6 entra 21 vezes por mês no meu aplicativo, por que não levar o varejo até ele? O varejo me paga uma comissão e eu devolvo uma parte para o consumidor em cashback. Todos ganham."

Enquanto o Banco Inter e o C6 tomam esse rumo, o Nubank nega que tenha conversas do tipo: "Estamos constantemente monitorando outros mercados e avaliando oportunidades. Neste momento, nosso foco está concentrado nos nossos produtos já existentes no Brasil, no México e na Colômbia, que somam mais de 30 milhões de clientes", disse a instituição em nota à reportagem.

Os grandes bancos tradicionais também começam a se movimentar, mas também são mais tímidos. "Quando você é um transatlântico, fica mais complicado mudar a rota. Mas acredito que 2021 será o prazo final para que os grandes bancos se coloquem de maneira mais incisiva. Está na mesa, é questão de tempo", afirma Bruno Diniz.

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Estadão
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