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Automatização do setor de mineração no Brasil esbarra em falta de financiamento

Mecanização, inteligência artificial e investimentos são apontados como caminhos para modernizar o segmento; juros altos, carga tributária e regulação são entraves

20 ago 2026 - 13h38
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Resumo
Embora empresas como a Cedro invistam bilhões em IA e processos autônomos para elevar a produção e a sustentabilidade, a modernização da mineração brasileira enfrenta graves entraves. Especialistas apontam que a escassez de financiamento, os juros altos, a pesada carga tributária sobre pesquisas e a lentidão regulatória para licenciar projetos afastam investimentos e reduzem a competitividade do país frente a mercados consolidados como o canadense e o australiano.

ESPECIAL PARA O ESTADÃO - A mineração começou, historicamente, com pá e picareta. Hoje, principalmente na China, é uma atividade quase totalmente automatizada, com pouca ou nenhuma mão de obra humana e uso de inteligência artificial (IA). Nesse processo de transformação, o Brasil ainda está no meio do caminho, mas já tem exemplos que se aproximam do cenário chinês, segundo José Carlos Martins, presidente da Cedro Participações, grupo que, entre outras atividades, atua no descomissionamento de barragens de rejeitos. Ele foi um dos participantes do painel Mineração Automatizada e Uso da Inteligência Artificial (Mineração 4.0 - Digital), que encerrou o Fórum Minério Verde: Novo Rumo da Mineração Brasileira — uma realização do Fórum Estadão New Mining, realizado nesta quinta-feira (20), em São Paulo.

"É bem mais fácil implementar novas tecnologias em projetos que estão começando agora do que em outros que já existem", disse Martins. É isso que a Cedro Mineração está fazendo. A companhia investe cerca de R$ 3,5 bilhões para triplicar sua produção de minério de ferro em Mariana e Nova Lima (MG), dos atuais 3 milhões a 4 milhões de toneladas para 11 milhões de toneladas anuais, em três anos, e mira superar 20 milhões de toneladas até o início da próxima década.

Fórum Minério Verde: Novo Rumo da Mineração Brasileira; (da esq. para dir.) Cristiane Barbieri, mediadora, José Carlos Martins, presidente do conselho de administração da Cedro, e Patricia Seoane, da PwC
Fórum Minério Verde: Novo Rumo da Mineração Brasileira; (da esq. para dir.) Cristiane Barbieri, mediadora, José Carlos Martins, presidente do conselho de administração da Cedro, e Patricia Seoane, da PwC
Foto: Daniel Teixeira/Estadão / Estadão

Para isso, usará caminhões autônomos e processos de extração com pouco uso de mão de obra humana. "Queremos que os profissionais trabalhem pensando, e não minerando", afirmou. Parte do que será minerado, explicou o executivo, será destinada à transformação dos minerais.

"Minas Gerais extrai minerais há séculos. A maior parte dos minérios de ponta já foi extraída. Por isso, estamos aprimorando processos para transformar esse 'submineral' em um mineral mais rico, de menor impacto ambiental e de baixo custo. A mineração é uma atividade que depende da redução de custos para ser lucrativa. E esse novo mineral é o que vai gerar competitividade", explicou.

No caso da Cedro, os recursos serão próprios. Mas, no geral, o grande entrave para a automação e a modernização da mineração no Brasil é o investimento. "Temos um mercado de capitais ainda muito pequeno. Na Austrália e no Canadá, ele é bem mais desenvolvido, e as empresas captam recursos com facilidade, uma vez que os investidores lá estão dispostos a assumir o risco", disse Patricia Seoane, sócia e líder do setor de Mineração da PwC Brasil. "Aqui, os juros altos trabalham contra isso. Qual é o investidor que vai deixar essas taxas para assumir risco?", questionou.

Por que é necessário tanto investimento?

O prazo médio para que uma mina comece a produzir, depois de localizado o minério, é de 17,2 anos, segundo Pablo Cesário, diretor do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), que palestrou no encerramento do evento.

"O pior é que esse prazo, no Brasil, está ficando maior. E o problema é a regulação ambiental. Nós queremos que ela seja menos rigorosa? De maneira nenhuma. O que queremos é que ela seja clara. Que os critérios sejam claros. Se ela continuasse rigorosa como é, mas com as responsabilidades de cada parte bem definidas, esse tempo diminuiria bem", afirmou.

Além de não ter apoio suficiente do mercado financeiro, o setor de mineração enfrenta uma carga tributária que limita as atividades. "Para cada mil perfurações, encontra-se algo a ser minerado em 1,5% do total. Esse é um dado mundial. Não tem muito como mudar. Mas, no Canadá e na Austrália, todo o valor aplicado nessa pesquisa geológica é considerado parte do investimento. E não é tributado, diferentemente do que acontece no Brasil", disse Cesário.

Ele citou como exemplo o caso do enxofre, mineral usado em processos necessários para a fabricação de fertilizantes agrícolas e o refino de petróleo. "Até setembro, por conta de conflitos geopolíticos, o enxofre que o Brasil importa vai acabar. E não tem como chegar mais", afirmou.

O que poucos sabem é que o Brasil tem minas que poderiam fornecer enxofre. "Mas, no passado, políticas tributárias desiguais mataram o setor de extração de enxofre, e o País passou a depender do mineral importado."

O problema é que, mesmo que se decida hoje investir na extração nacional de enxofre, esse é um processo demorado, como o próprio Cesário explicou.

Estadão
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