'Ainda há trabalho a ser feito' para selar um acordo comercial com os EUA, diz ministro canadense
Negociações discutem redução de tarifas sobre setores estratégicos, enquanto o Canadá avalia concessões
Canadá e Estados Unidos correm contra o tempo para fechar um acordo comercial antes da meia-noite, evitando novas tarifas de Donald Trump sobre US$ 20 bilhões em produtos canadenses. O ministro Dominic LeBlanc admitiu que ainda há trabalho a fazer em meio a impasses sobre aço, alumínio e madeira. O primeiro-ministro Mark Carney prepara concessões, como liberar bebidas e retirar taxas de carros dos EUA, enquanto Washington estuda reduzir tarifas, em um cenário de forte tensão diplomática.
O ministro canadense Dominic LeBlanc, encarregado de negociar um acordo comercial com os Estados Unidos para evitar a entrada em vigor de novas tarifas punitivas, afirmou nesta sexta-feira, 21, que "ainda há trabalho a ser feito", a poucas horas do término do prazo estabelecido por Donald Trump.
"Ainda temos trabalho a fazer. Nosso trabalho não acabou. Vamos continuar trabalhando até o último minuto", declarou LeBlanc à imprensa ao sair do escritório do representante da Casa Branca para o Comércio, Jamieson Greer.
Negociadores canadenses e americanos retomaram as negociações nesta sexta-feira, em Washington, à medida que se aproximava o prazo para a conclusão de um acordo comercial, à meia-noite.
Os detalhes das negociações, que o presidente Trump havia elogiado no início desta semana como bem-sucedidas e descrito como um "bom acordo", não estavam claros. As discussões, no entanto, concentraram-se em uma série de questões que compõem o quadro mais amplo de divergências comerciais entre os dois países.
As negociações foram desencadeadas pela ameaça feita por Trump, em julho, de impor novas tarifas sobre cerca de US$ 20 bilhões em produtos canadenses, além das pesadas tarifas já em vigor sobre importantes setores do Canadá, como aço, madeira e automóveis.
Isso ocorreu em um contexto no qual o governo Trump se recusou a renovar, no longo prazo, o Acordo de Livre Comércio entre Estados Unidos, México e Canadá (USMCA), submetendo-o a revisões anuais e gerando instabilidade na pedra angular do comércio norte-americano.
O prazo original para as novas tarifas havia sido estabelecido para o início desta semana, mas Trump o prorrogou até a meia-noite desta sexta-feira, o que significa que as tarifas entrariam em vigor 00h01 de sábado, 22.
Do lado canadense, as concessões já começavam a tomar forma, evidenciando a situação delicada em que se encontra o primeiro-ministro Mark Carney.
Em uma teleconferência com os líderes provinciais do Canadá na tarde de quarta-feira, 19, Carney pediu que eles restabelecessem a venda de bebidas alcoólicas dos Estados Unidos. A maioria dos governadores havia proibido a comercialização no ano passado, em retaliação às tarifas impostas pelos EUA a setores-chave da economia canadense, e a questão havia se tornado um ponto delicado para o governo Trump.
Wab Kinew, governador de Manitoba, disse aos repórteres na quinta-feira, 20, que respeitava o pedido de Carney, mas fez um apelo aos canadenses: "Se vir bebidas alcoólicas americanas nas prateleiras, deixe-as lá".
"Será que precisamos sair por aí dizendo que este é o melhor acordo de todos os tempos? Será que precisamos fazer torcida? Será que precisamos alimentar o ego de Donald Trump? Não, não acho que precisemos", disse Kinew sobre o acordo que está sendo negociado.
Outra aparente concessão do Canadá seria a retirada das tarifas retaliatórias sobre carros norte-americanos. O país também poderia abandonar medidas destinadas a limitar ou tributar serviços americanos de streaming e distribuição de notícias online, criadas com o objetivo de proteger e apoiar os concorrentes canadenses.
Negociações continuam
As negociações ainda estão em pleno andamento e vão muito além da resolução de detalhes pendentes, segundo fontes nos Estados Unidos e no Canadá familiarizadas com as conversas, que falaram sob condição de anonimato para discutir a diplomacia.
Os principais pontos de discórdia envolvem três importantes indústrias canadenses que Trump atingiu com tarifas de até 50% no ano passado: aço, alumínio e madeira serrada. Os Estados Unidos têm discutido a redução das tarifas sobre algumas exportações canadenses de aço e alumínio de 50% para 25%, segundo três pessoas a par dos planos. Esse porcentual ainda seria cerca do dobro da alíquota pretendida pelo Canadá.
Além disso, apenas determinado volume de exportações canadenses de aço se qualificaria para a tarifa reduzida proposta, segundo outra pessoa a par das negociações. Internamente, o governo Trump enfrenta resistência à proposta por parte das siderúrgicas americanas, que argumentam que a mudança prejudicaria sua produção.
Para o setor automotivo, uma tarifa imposta por Trump no ano passado poderia ser reduzida de 25% para 15%, com um desconto correspondente ao valor das peças americanas, segundo outros três executivos do setor.
Relação entre os dois países
Apesar do clima mais positivo dos últimos dias, a relação entre os dois países raramente esteve tão tensa quanto durante o segundo mandato de Trump.
O presidente, que no mês passado chamou a liderança do Canadá de "desagradável", tem sugerido repetidamente a anexação do país como o 51º estado americano e questionado sua capacidade de permanecer independente sem um tratamento favorável dos Estados Unidos.
Carney assumiu o cargo na primavera passada como um especialista em finanças sensato, de quem se esperava tanto uma postura de enfrentamento a Trump quanto a capacidade de chegar a um acordo com ele. O primeiro-ministro passou a maior parte de seu mandato tentando ampliar rapidamente os laços comerciais e de investimento do Canadá com outras regiões, particularmente na Ásia e na Europa, com o objetivo de reduzir a dependência do país em relação aos Estados Unidos.
No plano interno, ele enfrentará o desafio de convencer tanto a população quanto os governadores de províncias como Ontário e Colúmbia Britânica de que o acordo em formação é benéfico para o país, mesmo que implique dificuldades de longo prazo na forma de tarifas que continuarão incidindo, embora em níveis menores, sobre setores essenciais para essas províncias.
O vice-presidente dos EUA, JD Vance, descreveu de forma irônica o estilo de negociação de Carney em comentários que vazaram durante um evento de arrecadação de fundos para jovens doadores republicanos em Southampton, Nova York, no início desta semana, e foram publicados pela The Canadian Press.
Vance disse na reunião privada que Carney "chega, estufa o peito e diz: 'Vou, tipo, ser mais duro do que o Donald Trump'", segundo a reportagem. "É hilário porque Carney apresenta isso como uma espécie de vitória para o Canadá, quando, na verdade, eles acabam cedendo em muitas questões", acrescentou Vance. / COM INFORMAÇÕES DE AFP E NYT
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