Agência Moody's melhora perspectiva da classificação de risco do Brasil
Avaliação passou de 'estável' para 'positiva'; de acordo com a agência, nota já poderia ser elevada se questão fiscal estivesse resolvida
BRASÍLIA - A agência de classificação de risco Moody's elevou nesta quarta-feira, 1º, a perspectiva da avaliação de crédito do Brasil de estável para positiva. Não é uma mudança na nota - que continua no patamar Ba2, a dois degraus do grau de investimento -, mas significa que a melhora no rating fica um pouco mais perto.
"A Moody's avalia que as perspectivas de crescimento real do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil são mais robustas do que nos anos pré-pandemia, apoiadas pela implementação de reformas estruturais em múltiplas administrações, bem como pela presença de barreiras de proteção institucionais que reduzem a incerteza em torno da direção política futura", explicou a agência, justificando a mudança de perspectiva.
Nas três grandes agências globais - Moody's, Fitch e Standard & Poor's (S&P) - o Brasil está dois degraus abaixo do grau de investimento. No trio, o País segue como um mercado de investimento de grau especulativo. O "selo de bom pagador" é muito desejado porque facilita a atração de investimentos, fomentando a atividade econômica. Muitos fundos de pensão internacionais, por exemplo, têm autorização para comprar apenas papéis considerados pelas agências como investment grade.
O Brasil chegou a atingir o grau de investimento em abril de 2008, pela Standard & Poor's, no segundo mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Na sequência, vieram Fitch (maio de 2008) e Moody's (setembro de 2009). O País, no entanto, perdeu essa classificação ainda no mandato da presidente Dilma Rousseff, sendo rebaixado para o grau especulativo.
Entenda o caminho para o Brasil chegar ao grau de investimento em agências de classificação de risco
Surpresa
Para o ex-ministro da Fazenda Maílson da Nóbrega, sócio da consultoria Tendências, ao elevar a perspectiva da nota brasileira, a Moody's se mostra mais otimista que os economistas brasileiros. Na avaliação dele, a ação da Moody's acaba sendo uma surpresa sobretudo porque todas as análises disponíveis são praticamente unânimes em afirmar que o Brasil não conseguirá estabilizar a sua relação dívida/PIB pelo menos ao longo dos próximos dez anos.
"As previsões para a dívida proporcionalmente ao PIB para o período varia de 81% a 84%, a depender da composição da taxa de juro. Todos que acompanham de perto o fiscal falam isso", disse Maílson acrescentando, contudo, que de qualquer forma é uma notícia positiva, já que se trata de uma grande e importante agência de classificação de riscos endossando melhoras na economia brasileira.
"O governo tem mais é que comemorar muito mesmo essa notícia. O difícil será conseguir de volta o grau de investimento. Isso não ocorrerá nem neste e nem no próximo governo, porque houve uma piora considerável da rigidez orçamentária, o que impede o governo de gerar superávits primários e reduzir a dívida. E para estabilizar a dívida precisaria de superávits seguidos de 1,5% a 2% do PIB", disse o ex-ministro.
Ele disse ainda que não consegue ver como o governo poderia atacar a questão da dívida, por conta, entre outras coisas, dos reajustes dos salários defasados do funcionalismo público.
"Uma das razões para o governo ter reduzido para zero a meta do resultado primário para 2025 foi para ter margem de manobra para aliviar a pressão dos órgãos gastadores e poder mandar dinheiro para ciência e tecnologia, educação, etc. Mas daqui a pouco vamos ter Polícia Federal reclamando que não tem dinheiro para passaportes, Ibama dizendo que não vem recursos para fazer as fiscalizações", disse o ex-ministro.