A estratégia por trás do bloqueio dos EUA sobre o Estreito de Ormuz
EUA impõem bloqueio sobre portos iranianos, em tentativa de sufocar receitas do regime e forçar concessões. Especialistas alertam que estratégia não é de simples execução e pode provocar mais turbulência nos mercados.Depois que as negociações de paz no Paquistão entre Estados Unidos e Irã fracassaram no último fim de semana, o presidente dos EUA, Donald Trump, ordenou que a Marinha dos EUA bloqueasse os portos iranianos, impedindo que navios que entrassem ou saíssem de qualquer porto ou instalação costeira do país através do Estreito de Ormuz.
Até o início da guerra, no fim de fevereiro, um quinto do comércio mundial de petróleo transportado por via marítima passava por Ormuz, um gargalo entre o Golfo Pérsico e o Oceano Índico.
Por que Trump ordenou um bloqueio no petróleo iraniano?
Autoridades dos EUA dizem que o objetivo é retirar do Irã o controle da via marítima, que foi praticamente bloqueada por Teerã no início de março como medida retaliatória após o início da ofensiva contra o país iniciada pela Casa Branca e Israel. O bloqueio deixou centenas de petroleiros e navios de gás retidos.
Trump também descreveu essa espécie de "bloqueio sobre o bloqueio" de Ormuz como uma forma de impedir que Teerã cobrasse até 2 milhões de dólares (R$ 10 milhões) por embarcação como pedágio para a passagem segura pelo estreito, segundo relatos.
"Ninguém que pague um pedágio ilegal terá passagem segura em alto-mar", escreveu Trump no domingo no Truth Social, acrescentando que a Marinha dos EUA também "começaria a destruir as minas que os iranianos colocaram" no estreito.
O Comando Central dos Estados Unidos (Centcom), que dirige as forças militares de Washington, afirmou que o bloqueio americano não afetará embarcações que viajam de e para portos não iranianos - como Arábia Saudita, Catar e Emirados Árabes.
Se for bem-sucedido, o bloqueio cortará a principal fonte de receita do Irã, interrompendo um comércio de exportação de petróleo de quase 2 milhões de barris por dia, o que Trump aposta que forçará Teerã a ceder mais na mesa de negociações.
Como funciona o bloqueio naval pela Marinha dos EUA?
A operação, que começou na segunda-feira (13/04), foi anunciada por meio de um aviso aos navegantes da região.
O Centcom afirmou que o bloqueio seria "aplicado no Golfo de Omã e no Mar da Arábia, a leste do Estreito de Ormuz", e incluiria "toda a costa iraniana (...) não se limitando a portos e terminais de petróleo".
"Qualquer embarcação que entre ou saia da área bloqueada sem autorização estará sujeita a interceptação, desvio e captura", acrescentou o Centcom.
Especialistas em direito marítimo apontam que a implementação desse bloqueio se baseia em procedimentos navais padrão conhecidos como direito de visita e busca, nos quais navios de guerra dos EUA param e inspecionam petroleiros e podem desviá‑los se houver suspeita de que estejam transportando petróleo iraniano.
Embora essa medida tenha precedentes na guerra naval, vários especialistas alertam que o bloqueio corre o risco de entrar em território jurídico contestado no direito marítimo, afetando navios neutros e provocando uma interrupção de longo prazo em uma via crucial para o comércio internacional.
Poucas horas após o início do bloqueio americano, dados de navegação mostraram que o fluxo de petroleiros através do estreito havia praticamente cessado. Pelo menos dois petroleiros foram obrigados a retornar após tentarem atravessar a via marítima.
Trump alertou o Irã contra retaliações, insistindo que os poucos "navios de ataque rápido" restantes do país seriam "eliminados" caso se aproximassem do bloqueio.
Com que rapidez o bloqueio pode afetar as exportações de petróleo do Irã?
A operação dos EUA pode reduzir drasticamente a capacidade do Irã de enviar petróleo bruto a partir de seu principal terminal de exportação, a ilha de Kharg, no Golfo Pérsico, que responde por mais de 90% dos embarques da commodity do país.
O Irã continua a exportar petróleo apesar das sanções internacionais por causa do seu programa nuclear. O país recorre a uma "frota fantasma" de petroleiros envelhecidos, transferindo barris de um navio para outro, na região próxima da Malásia, além de outras táticas para driblar as proibições.
Os EUA também haviam concedido ao Irã uma permissão temporária para a venda de petróleo, como medida para ajudar a estabilizar os mercados durante o conflito.
O novo bloqueio naval tende a tornar esses carregamentos muito mais arriscados e menos prováveis, à medida que operadores enfrentam a perspectiva de abordagem, desvio ou apreensão.
Ano passado, as exportações de petróleo do Irã totalizaram cerca de 45 bilhões de dólares, ou 13% do PIB, segundo a Capital Economics, sediada em Londres. Sem oleodutos terrestres para desviar o fornecimento de petróleo bruto, o Irã tem poucas outras opções de exportação que não sejam marítimas. Mesmo seu terminal de exportação de Jask, no Golfo de Omã, ainda pode ser inspecionado pela Marinha dos EUA.
A expectativa dos EUA é que uma pressão sistemática sobre essa fonte de renda poderia forçar o regime iraniano a retornar rapidamente à mesa de negociações e mais disposto a fazer concessões.
O bloqueio poderia provocar mais turbulência ou até um conflito mais amplo ?
A ameaça de bloqueio feita por Trump foi respondida com ameaças de retaliação pela Guarda Revolucionária do Irã.
A organização declarou que, se o Irã enfrentassem restrições por mar, "nenhum porto no Golfo e no Mar de Omã estará seguro", levantando temores de ataques à infraestrutura energética ou de transporte marítimo nos países vizinhos do Golfo.
Ebrahim Rezaei, porta-voz da Comissão de Segurança Nacional do parlamento iraniano, também alertou que Teerã está preparada para responder militarmente, se necessário.
"Isso tornará a situação atual em que [Trump] se encontra mais complicada e tornará o mercado - com o qual ele está irritado - mais turbulento", escreveu Rezaei no X. "E também podemos revelar outras cartas que ainda não usamos no jogo."
"Fechar o estreito inteiramente vai aumentar os preços do petróleo ainda mais do que antes e colocará mais pressão da comunidade internacional nos EUA", afirmou Jennifer Kavanagh, diretora de análises militares no think tank americano Defense Priorities, em entrevista ao jornal Financial Times. "Isso definitivamente mostra o quão frustrado e no fim de suas opções se sente o presidente [Trump]", acrescentou.
Vários especialistas americanos também questionaram a medida de Trump, afirmando que ele pode estar arrastando os Estados Unidos para um compromisso militar de duração indefinida.
"Trump quer uma solução rápida. A realidade é que essa missão é difícil de executar sozinho e provavelmente insustentável no médio e longo prazo", disse Dana Stroul, que serviu como assessora de assuntos de Oriente Médio no Pentágono durante o governo Joe Biden.
Neil Shearing, economista-chefe do grupo na Capital Economics, apontou que o bloqueio "também pode ter como objetivo pressionar Pequim a desempenhar um papel mais ativo na mediação de um cessar-fogo e na reabertura do fluxo comercial pleno através do estreito".
Depois do Irã, a China é quem mais pode perder economicamente com o bloqueio, já que comprou de 80% a 90% das exportações marítimas de petróleo bruto iraniano nos últimos anos.
Shearing também questionou se a Marinha dos EUA pretende mesmo apreender navios de aliados que aceitaram pagar pedágio a Teerã ou embarcações chinesas no estreito, afirmando que qualquer um dos cenários representaria uma "escalada significativa".
Além disso, há receios de que Teerã amplie suas ações militares para novos corredores marítimos, como Bab el‑Mandeb, criando uma crise ainda mais abrangente. Atentados recentes contra infraestruturas energéticas em Israel e no Golfo reforçam o potencial desestabilizador dessa escalada.
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