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82% das famílias permanecem endividadas e cenário aponta para desaceleração da economia

Enquanto compras no crédito e recorrer a financiamentos são hábitos dos brasileiros, comprometimento de renda pode levar à inadimplência

10 set 2026 - 10h28
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Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

Pelo segundo mês seguido, 82% das famílias brasileiras estão endividadas. O dado referente ao mês de agosto faz parte da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor, realizada pela Confederação Nacional do Comércio (CNC) e divulgada nesta quinta-feira, 10. O percentual é recorde, mas, sozinho, não é capaz de oferecer uma definição da situação socioeconômica do País

Especialistas explicam que é preciso avaliar, principalmente, a inadimplência e o quanto da renda das famílias está sendo consumida pelo pagamento de dívidas. Em um médio ou longo prazo, a expectativa é de que a economia desacelere para conter o crescimento desse endividamento. 

Segundo o relatório da CNC, de julho a agosto houve um aumento de 0,1 ponto percentual no número de inadimplentes, que está em 29,9%. Dos endividados, 12,5% afirmam que não terão condições de pagar suas dívidas, maior nível desde fevereiro. 

O coordenador da Pós-Graduação em Contabilidade Aplicada ao Setor Público da FIPECAFI, Luciano Peres, explica que a taxa de 82% por si só não é algo alarmante, já que faz parte do hábito dos brasileiros consumir via cartão de crédito ou recorrer a financiamentos, por exemplo. Porém, "quando colocamos outros parâmetros em jogo, conseguimos enxergar que as famílias brasileiras estão em um nível perigoso de endividamento", afirma. 

Peres analisa que, segundo dados do Banco Central, as dívidas comprometem 26,2% da renda das famílias brasileiras. Esse valor está destinado a juros e amortização de dívidas com o sistema financeiro, excluindo o financiamento imobiliário. Ele compara a situação com países desenvolvidos, como Estados Unidos e Coreia do Sul, em que o comprometimento gira em torno de 8% e 11%, respectivamente.

"Mais de um quarto da renda fica comprometida com juros e amortização de dívidas. O nosso poder de compra não é dos melhores, se pensarmos em nível global, e comprometer parte expressiva da renda faz com que fique menor ainda", avalia Peres.

Para o professor Rodolfo Olivo, da Fundação Instituto de Administração (FIA), com tal comprometimento com dívidas, "qualquer falha de renda da pessoa, ela vai ser direcionada para a inadimplência". 

"E da inadimplência é muito difícil você sair, porque os juros explodem mais ainda", complementa. 

Neste cenário, Olivo tem uma visão mais pessimista da conjuntura econômica e acredita que, com o nível de endividamento cada vez mais alto, qualquer deslize na política fiscal que leve a uma queda na renda das famílias pode, consequentemente, levar a uma explosão na inadimplência. 

Desaceleração da economia é esperada

A pesquisa da CNC projeta que, no próximo trimestre, deve haver uma redução gradual no endividamento das famílias à medida em que elas tentarão estabilizar seus orçamentos. Em outras palavras, é esperado que ocorra uma desaceleração da economia, com freio no consumo. 

O resultado do PIB do segundo trimestre, divulgado na semana passada, já indica tal fenômeno. Houve um crescimento de 0,5% na economia brasileira, percentual que representa uma desaceleração em comparação com o trimestre anterior, quando cresceu 1,1%.

"Quando as pessoas se endividam, o impacto imediato é de aumento no PIB, mas ali no médio prazo, como elas vão ter que ficar mais comprometidas com a sua renda, com a amortização do principal e dos juros desses empréstimos de financiamento que as pessoas obtêm, o poder de consumo acaba se tornando menor e a economia se torna, a gente pode chamar de mais fria, impactando os valores do PIB", explica Luciano Peres. 

Ele complementa que reduções no aumento do PIB não necessariamente são um problema, justamente porque podem estar refletindo uma situação momentanea de ajuste da economia. Ainda assim, explica que o que se costuma ser esperado de forma positiva são dados de uma economia crescendo.

Fonte: Portal Terra
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