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PIB perde força no 2º tri: os 3 desafios para o próximo presidente na economia

PIB cresce 0,5% no segundo trimestre, enquanto endividamento das famílias, situação das contas públicas e El Niño criam cenário desafiador para próximo governo em 2027

1 set 2026 - 09h59
(atualizado às 11h31)
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Resumo
O PIB brasileiro desacelerou no 2º trimestre ao crescer 0,5%, puxado pela agropecuária e indústria extrativa, enquanto o consumo das famílias recuou. O resultado confirma a tendência de perda de ritmo da atividade econômica, impactada por juros altos e inflação persistente. Para 2027, analistas projetam um crescimento ainda menor, em torno de 1% a 1,5%, apontando três desafios centrais ao próximo presidente: alto endividamento das famílias, desarranjo fiscal e impactos do El Niño no agronegócio.
Endividamento das famílias, situação das contas públicas e El Niño serão desafios para novo presidente em 2027
Endividamento das famílias, situação das contas públicas e El Niño serão desafios para novo presidente em 2027
Foto: AFP via Getty Images / BBC News Brasil

A economia brasileira perdeu força no segundo trimestre, com uma alta de 0,5% em relação ao trimestre anterior, abaixo do avanço de 1,1% registrado no primeiro trimestre.

O resultado veio ligeiramente acimadas expectativas dos economistas, que era de uma alta de 0,4% no trimestre, segundo a mediana das projeções colhidas pelo jornal Valor Econômico.

Na comparação com o segundo trimestre de 2025, o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB, soma de todos os bens e serviços produzidos no país) foi de 2%, informou o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta terça-feira (1/9).

Segundo economistas, a desaceleração registrada neste segundo trimestre é um prenúncio do que vem por aí. Para 2027, os analistas esperam um desempenho da economia ainda mais fraco do que neste ano.

A trajetória do PIB vem em desaceleração: após uma alta de 3,4% em 2024, a economia avançou 2,3% em 2025. Para este ano, os economistas projetam um crescimento em torno de 1,9%, e de 1,5% em 2027, segundo a mediana das projeções colhidas pelo boletim Focus, do Banco Central.

Mas já há quem veja um desempenho ainda mais fraco no primeiro ano do novo governo, com uma alta do PIB mais próxima de 1%.

Entre os três principais desafios no caminho do novo presidente no ano que vem, economistas citam o endividamento das famílias e das empresas; o desarranjo das contas públicas; e os efeitos do El Niño, que pode levar o setor agropecuário a registrar PIB negativo em 2027.

Como foi o desempenho do PIB no 2 º tri

Pela ótica da produção, o destaque no segundo trimestre ficou por conta da agropecuária (2,8%), com serviços (0,2%) e indústria (0,1%) também mostrando variação positiva.

A indústria geral só escapou da estabilidade devido ao bom desempenho da indústria extrativa (3,4%), enquanto eletricidade, gás, água, esgoto e atividades de gestão de resíduos (-1,1%), indústrias de transformação (-0,4%) e construção (-0,4%) tiveram desempenho negativo.

"O bom desempenho da indústria extrativa reflete o preço do petróleo", observa Flávio Serrano, economista-chefe do Banco Bmg.

"O petróleo subiu [devido à guerra no Irã], beneficiando a extração, e também houve um benefício para o setor de minerais, com o preço do minério [de ferro] subindo, o que estimulou a produção."

Indústria extrativa teve bom desempenho no 2º tri, impulsionado pelos preços do petróleo em alta, em meio aos conflitos no Oriente Médio
Indústria extrativa teve bom desempenho no 2º tri, impulsionado pelos preços do petróleo em alta, em meio aos conflitos no Oriente Médio
Foto: AFP via Getty Images / BBC News Brasil

Com alta de 0,2%, o setor de serviços desacelerou em relação ao avanço de 0,4% registrado no primeiro trimestre, sempre na comparação com o trimestre anterior.

Segundo Serrano, a desaceleração se deve à perda de força de fatores que impulsionam a renda no começo do ano, com destaque para o reajuste do salário mínimo — que passou de R$ 1.518 em 2025, para R$ 1.621 a partir de 1º de janeiro de 2026, alta de 6,8%.

"Esse impulso começa a diminuir [no segundo trimestre], o que se reflete no desempenho do setor de serviços, mais ligado à renda", observa o economista.

Alex Agostini, economista-chefe da agência de avaliação de risco Austin Rating, observa que a desaceleração de setores como a indústria de transformação e serviços já era esperada, devido ao efeito acumulado dos juros, que se mantiveram em patamar muito alto durante muito tempo — e que vêm sendo cortados lentamente pelo Banco Central, em meio à resiliência da inflação.

A Selic, taxa básica de juros da economia brasileira, chegou a 15% em junho de 2025 e se manteve nesse patamar até janeiro deste ano. Desde então, foram realizados quatro cortes na taxa, que está atualmente em 14%.

Na prévia da inflação de agosto, medida pelo IPCA-15, a inflação acumulava alta de 4,24% em 12 meses, ainda próximo do teto da meta, que é de uma inflação de 3% ao ano, com intervalo de tolerância de 1,50 ponto percentual a mais ou a menos.

Outro efeito dos juros elevados, o endividamento das famílias também tem pesado sobre o consumo, afetando serviços e indústria, destaca Agostini.

Com alta de 2,8%, após avanço de 2,3% no primeiro trimestre, o agro foi uma surpresa positiva, mesmo após a safra recorde de soja no começo do ano. À frente, porém, o setor enfrenta os desafios climáticos de um ano de El Niño.

Na ponta da demanda, o consumo das famílias registrou queda de 0,4%, os investimentos subiram 1,2% e o consumo do governo teve alta de 0,4%em relação ao trimestre anterior.

O setor externo teve contribuição negativa para o PIB do trimestre, com as exportações em queda de0,8%e as importações em alta de 1,8% — a queda das exportações significa que houve uma redução na produção destinada ao mercado externo, enquanto o aumento das importações indica que parte da demanda interna foi atendida por produtos de outros países, e não pela produção doméstica.

Os desafios para o PIB em 2027

A perda de ritmo registrada no segundo trimestre deve se intensificar na segunda metade do ano, preveem os economistas, com a perda de força dos estímulos fiscais feitos por governo federal e governos estaduais no primeiro semestre, em meio à corrida eleitoral.

Ao mesmo tempo, os investimentos devem seguir reduzidos, diante do cenários de juros altos, que também têm se refletido nos diversos pedidos de recuperação judicial no setor de varejo.

Esse cenário de restrições à atividade econômica deve continuar no próximo ano, contribuindo para o menor crescimento do PIB, preveem os analistas.

Serrano, do Bmg, tem atualmente projeção de 1,5% para o avanço do PIB em 2027, mas acredita que esse número possa, na verdade, ser mais próximo de 1%.

Cenário fiscal conturbado deve ser a maior pedra no sapato do novo governo, diz economista
Cenário fiscal conturbado deve ser a maior pedra no sapato do novo governo, diz economista
Foto: BBC News Brasil

O economista cita como fatores para esse pessimismo a redução da taxa básica de juros mais lenta do que era esperado no início do ano, o aumento do endividamento e a redução do impulso fiscal pelo governo, passado o ciclo eleitoral.

Pesam também condições financeiras mais desfavoráveis, com juros mais altos no mundo e petróleo em alta, pressionando a inflação local.

"Ano que vem provavelmente também tem PIB negativo do agro, por causa do efeito do El Niño", diz Serrano.

"O fenômeno implica em preços dos alimentos mais altos, o que reduz a renda disponível e pesa mais para a população de renda mais baixa, e afeta a agricultura, que cresce menos e pode até entrar em contração, em várias safras e também na pecuária."

Agostini, da Austin Ratings, acredita que o cenário fiscal conturbado deve ser a maior pedra no sapato do novo governo.

Ele acredita que, seja Lula (PT) ou Flávio Bolsonaro (PL) vitorioso — considerando os dois cenários mais prováveis atualmente —, algum ajuste fiscal será inevitável, o que teria efeito contracionista sobre a atividade econômica.

Segundo o Agregador de Pesquisas da BBC News Brasil, Lula tem atualmente 38% das intenções de voto no primeiro turno, à frente de Flávio Bolsonaro (31%), Augusto Cury (10%), Ronaldo Caiado (5%) e Renan Santos (4%).

A estimativa de intenção de voto no petista no segundo turno está em torno de 45%, enquanto Flávio tem 43%, conforme os resultados das pesquisas nacionais divulgadas até esta segunda-feira (31/8).

"O país chegou numa sinuca de bico, porque nós estamos com um aumento muito forte das despesas obrigatórias, sobrando muito pouco para as despesas discricionárias, que estão sendo consumidas por emendas parlamentares", observa Agostini.

"Então, quando inicia o próximo ciclo político, tem quatro anos para poder colocar a casa em ordem. Em geral, o eleito ou reeleito faz um choque de ajustes no primeiro ano, porque aí ele tem mais três anos para absorver aquele choque, e tentar recompor a economia para fazer o seu sucessor na eleição seguinte. Então, todo mundo inicia 2027 olhando para 2030."

Silvia Matos, coordenadora do Boletim Macro do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV-Ibre), avalia, porém, que Lula poderá ter maior dificuldade para fazer um ajuste, se eventualmente for reeleito.

"Lula tem muito mais dificuldade, porque ele já perdeu a credibilidade de ajuste, porque já tentou fazer e não segurou as pontas", considera a economista.

Matos observa que, para que um ajuste fiscal seja feito, é preciso uma convergência entre sociedade, Congresso e Executivo, o que é muito difícil numa sociedade polarizada.

"E quanto mais você posterga isso, mais o juro fica alto, porque o mercado rola a dívida num patamar muito mais alto e a dívida [pública] torna-se muito mais inviável de ser financiada."

Na segunda-feira (31/8), o Banco Central informou que a dívida bruta do governo geral — que compreende governo federal, INSS, governos estaduais e municipais — avançou para 82,5% do PIB em julho, maior patamar desde a pandemia.

Diante deste cenário, Matos vê o PIB em alta de cerca de 1% no ano que vem, mas avalia que há mais riscos negativos do que positivos nessa projeção.

"Isso por conta de El Niño — eu já tenho uma projeção de PIB negativo para o agro, mas pode ser pior", pondera. "E você tem todo o processo de desalavancagem das famílias: depois do alto endividamento, elas vão ter que desacelerar [os gastos], e o mercado de trabalho vai junto, com a economia e a renda crescendo menos."

Matos observa que esse efeito poderá ser mascarado no início do próximo ano pelo novo reajuste do salário mínimo (com valor previsto pelo governo federal de R$ 1.741), mas se tornará mais evidente ao longo dos trimestres.

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