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Brasil

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'MP das blusinhas' evidencia impasse entre agrado ao consumidor e impacto na indústria brasileira

Para reduzir críticas de setores nacionais e aprovar esta semana a MP da desoneração das blusinhas, parlamentares governistas falam em incluir avaliação periódica do cenário com possibilidade de compensações como cashback. Economista ouvido pela RFI elogia programa que permite rastreabilidade aduaneira, mas diz que isenção prejudica indústria brasileira.

1 set 2026 - 10h41
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Resumo
O governo tenta aprovar a MP que zera o imposto de importação para compras internacionais de até US$ 50, expondo o dilema entre o apelo popular eleitoral e os prejuízos à indústria e ao varejo nacionais, que alegam concorrência desleal. Diante do risco aos empregos e à produção brasileira, parlamentares negociam incluir avaliações periódicas de impacto para criar mecanismos de mitigação aos setores afetados antes que a medida provisória perca a validade.

Raquel Miura, correspondente da RFI em Brasília

Na tentativa de gerar pautas positivas em meio a uma acirrada busca por votos, o governo tenta reduzir pontuais resistências e aprovar esta semana a Medida Provisória que zera o imposto de importação sobre compras internacionais de até US$ 50, antes taxadas em 20%.

A chamada MP da isenção das blusinhas ilustra a encruzilhada que se transformou o debate sobre o comércio popular online, num país com enormes desafios estruturantes na área industrial, inclusive o alto custo Brasil.

O país não tem condições de fabricar produtos que possam competir com a maioria daqueles expostos nas prateleiras da internet, dos quais grande parte se beneficiam de mão de obra asiática mais barata. Manter a taxação significa impedir o acesso de brasileiros, especialmente os de baixa renda, a produtos mais baratos vindos de fora.

Deputados terão semana decisiva de votações antes das eleições, em outubro. (31/08/2026)
Deputados terão semana decisiva de votações antes das eleições, em outubro. (31/08/2026)
Foto: RFI

Por outro lado, nessa cesta virtual há mercadorias das mais variadas. A cadeia produtiva nacional pode ser afetada com a isenção federal em favor dos concorrentes, com potenciais reflexos danosos no médio e longo prazos sobre setores em que o Brasil é competitivo porque têm diferenciais, como qualidade e matéria-prima, a exemplo da indústria calçadista. Além disso, o setor varejista que vende produtos importados populares também receia a perda nas vendas.

Pauta eleiteira

A decisão acabou sendo tomada pelas planilhas não econômicas, mas eleitorais. "A discussão está intimamente ligada ao cenário político e o calendário de votação fala por si. É um assunto que afeta diretamente o consumidor brasileiro, que nos últimos anos tem usado muito essas plataformas como fonte de consumo", disse à RFI o economista Rafael Prado, da GO Associados. 

"O assunto tem for apelo popular e pode gerar bônus para o governo, nesse sentido. Porém, os resultados para a economia brasileira são mais negativos do que positivos", frisou. "Quando o governo retirou a isenção em 2024 o varejo brasileiro cresceu até 2,7% a mais do que teria crescido caso a isenção tivesse permanecido."

Na véspera da votação da MP na Comissão Especial, a relatora, senadora Leila Barros (PDT/DF), e o presidente do colegiado, deputado Reginaldo Lopes (PT/MG), estiveram no Palácio do Planalto discutindo com integrantes da equipe econômica uma forma de amenizar a reclamação de setores produtivos nacionais, que alegam competição desleal com plataformas de compra online.

Mecanismos de proteção

Uma das propostas é incluir uma avaliação técnica periódica, inicialmente a cada três meses e depois a cada seis meses, para então se discutir se caberá ajuda do governo aos setores atingidos. "Nós estamos abertos ao diálogo. A gente está querendo inserir no projeto a questão da reavaliação. Daqui a três meses, se houver impacto real, com certeza nós vamos voltar e sentar para tratar o assunto", afirmou a relatora.

As regras atingem o comércio de plataformas certificadas pelo Remessa Conforme. "Diante de evidências técnicas e estudos de impacto, a Fazenda poderá mandar projetos de mitigação, seja, por exemplo, criar cashback, criar algum tipo de desoneração de até R$ 250 nas compras nacionais, ou outros mecanismos, lembrando que estamos hoje numa situação de pleno emprego", afirmou o presidente da Comissão Especial.

A MP perde a validade dia 8 e por isso o governo trabalha para votar esta semana a matéria na Comissão Especial e no Plenário da Câmara e o Senado.

"O programa Remessa Conforme trouxe avanços. Houve mais rastreabilidade, mais controle aduaneiro onde antes quase não existia. O problema foi que com o programa veio a isenção, que atrapalha muito a competição dos produtos nacionais, tanto por conta da perda de empregos na indústria nacional e no varejo, quanto pela menor geração em volume mesmo de produção industrial nacional", salientou Rafael Prado.

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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