'Acumulei R$ 1 milhão em perdas': o relato de quem tenta se reerguer após se viciar em bets
Comerciante é ex-adicta e hoje ajuda outras pessoas que estão endividadas por causa das apostas online
"Eu acumulo em perdas mais de R$ 1 milhão. Aí você pode me perguntar: 'E você tinha esse R$ 1 milhão?'. Não. Ao longo do período, eu fui perdendo, fui vendendo coisa." O relato é de Roberta*, uma comerciante de 54 anos, de São Luís do Maranhão, que faz parte da parcela de brasileiros endividada por causa de jogos de apostas online, as famosas "bets".
Receba as principais notícias direto no WhatsApp! Inscreva-se no canal do Terra
Ela prefere não se identificar porque até hoje esconde o vício do marido e da filha, mas encontrou suporte na ONG Ângela Maria, fundada por Jéssica Lobo, que perdeu a irmã para um suicídio por causa do vício em bets e se tornou influenciadora contra os jogos. A organização funciona através de grupos de ajuda, em que adictos buscam apoio uns nos outros e recebem assistência psicológica bancada voluntariamente pelos administradores.
É com lágrimas nos olhos que Roberta fala sobre sua história. Ela conta que quer ver vários relatos como os dela, de pessoas que superaram o vício e estão se reerguendo, mas que sabe que há muitos outros casos que não terminam bem.
“Vendi uma casa, de R$ 230 mil, perdi um dinheiro que o meu esposo ganhou de aposentadoria, salários que ele tinha, eu perdi… Mas eu sou muito batalhadora, trabalho muito, vendo muito na minha loja. Então, tudo que eu vendia, todo dinheiro que entrava, eu colocava no jogo”, diz.
Ela detalha que a primeira aposta foi feita em 2023. "Eu comecei com R$ 20. Lembro como hoje, me deu os malditos R$ 689", conta. Esse valor, ela preferiu não sacar de imediato e seguiu apostando. "Aí foi indo de R$ 20, de R$ 20 fui passando para R$ 50, de R$ 50 fui passando para R$ 100, de R$ 100 para R$ 200, é assim, a escadinha. Ninguém começa com muito. Quando eu pensei, eu já colocava R$ 10 mil por dia", relembra.
A situação passou a sair de controle quando Roberta precisou recorrer a cartões de crédito de amigas, com a desculpa para elas de que era para repor mercadoria da loja que possui. Para pagar as amigas e não deixá-las com nome sujo, recorreu a empréstimos próprios e, assim, foi se formando uma bola de neve.
A solução que encontrou, quando percebeu que não podia mais jogar, foi deixar as contas dos aplicativos de banco nas mãos da filha, para que a jovem administrasse o que saía e entrava do caixa, além das contas de casa. A justificativa que deu à menina foi de que estava gastando muito com aplicativos de e-commerce e precisava se controlar.
Mesmo sem ter compartilhado a situação em casa, Roberta escolheu uma amiga em quem confiava para desabafar. E, hoje, é a sugestão que mais propaga a outros adictos: "Busquem ajuda!".
Em um momento mais emotivo da entrevista, Roberta chega a ter lágrimas nos olhos. É quando ela fala com revolta sobre o que a levou a apostar: a indicação de um influenciador nas redes sociais. "Essas pessoas já são tão bilionárias, ficam divulgando coisa que está tirando o pão da mesa das pessoas", desabafa.
De adicta a coordenadora na ONG
Roberta conta que passou 7 meses tentando largar o vício em apostas online. E conseguiu. Atualmente, ela deixou a posição de adicta e passou a atuar na coordenação da ONG Ângela Maria. "Os grupos [de ajuda] foram fundamentais. Tanto é que hoje eu não saio dos grupos, ajudo da maneira que posso, conto da minha experiência, sou uma espécie de SOS", diz.
Ela afirma que, dentro dos grupos, pessoas chegam desesperadas por causa das dívidas feitas. Em muitos casos, ameaçam tirar a própria vida. "Já teve pessoa que entrou totalmente intoxicada de remédio e mandou uma mensagem no grupo apenas para se despedir. Mas nós conseguimos encontrar um perfil de um familiar e obter ajuda", conta.
"Hoje eu transformei essa minha perda em luta para ajudar pessoas. Porque eu sempre digo, nem todo dia vai ter uma Roberta* resiliente, que levantou a cabeça e está lutando com muita dificuldade, porque eu vendo roupa, então eu estou com o nome sujo, perdi tudo. Não é fácil".
O cenário no Brasil
Roberta sabe que não está sozinha em sua história, tendo conhecido pessoalmente e bem de perto relatos de pessoas que também se viciaram em bets. Mas indo para o cenário macroeconômico, o impacto das apostas online é visto em estudos e já preocupa o governo federal.
Um estudo do Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo & Mercado de Consumo (Ibevar) em parceria com FIA Business School, divulgado em março deste ano, entendeu que as bets superaram a influência dos juros e dos cartões de créditos, se tornando o principal motor do endividamento das famílias no Brasil.
Em uma escala para equalizar a comparação, as bets têm impacto de 0,2255 sobre a renda, enquanto a tomada de crédito têm 0,040 de impacto e os juros sobre o consumidor, 0,0709.
“Esses coeficientes são comparáveis, pela forma como o estudo foi construído. Então, quando você soma os coeficientes do impacto da tomada de crédito e dos juros na renda do brasileiro ainda dá um valor menor do que o das bets”, explica Claudio Felisoni, presidente do Ibevar e professora na FIA Business School.
É neste cenário que os sites de apostas online voltaram à mira do governo federal. Há a expectativa de que o novo plano de renegociação de dívidas, que deve ser anunciado em breve, também crie restrições de acesso a bets, para que quem aderiu ao programa não faça novos débitos.
*nome fictício
-vf462e5ceera.jpg)
Comentários
As opiniões expressas nos comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião do Terra.