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'12 mil pessoas vão perder seus empregos', diz prefeito de Camaçari sobre saída da Ford

Em entrevista à BBC News Brasil, o prefeito do município baiano, Elinaldo Araújo (DEM), afirmou que não só funcionários da Ford serão afetados, mas trabalhadores de empresas que prestam serviço à montadora americana. Ele afirma que diminuiu os impostos pagos pela companhia na cidade, mas que o governo Jair Bolsonaro preferiu não fazer o mesmo.

12 jan 2021
17h17
atualizado às 17h19
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O prefeito de Camaçari, Elinaldo Araújo, afirma que queda de arrecadação pode afetar saúde pública e educação no município baiano
O prefeito de Camaçari, Elinaldo Araújo, afirma que queda de arrecadação pode afetar saúde pública e educação no município baiano
Foto: Prefeitura de Camaçari / BBC News Brasil

A queda de arrecadação por causa do fechamento da fábrica da Ford na cidade de Camaçari, a 40 km de Salvador, deve chegar a mais de R$ 130 milhões nos próximos dois anos.

Em entrevista à BBC News Brasil, o prefeito do município, Elinaldo Araujo (DEM), afirmou que a cidade deve perder cerca de 12 mil empregos com a decisão da montadora americana de encerrar as atividades no local.

Entrariam na conta os empregos diretos — os funcionários que trabalham para Ford — e vagas em empresas que prestam serviços para a montadora ou fornecem insumos para a produção de automóveis.

Na segunda-feira (11/01), a Ford anunciou que fechará suas três fábricas no país - em Camaçari, Taubaté (SP) e Horizonte (CE).

A empresa americana atribuiu a decisão à pandemia de covid-19, afirmando que ela intensificou um quadro de vendas já ruim e "prejuízos significativos" no país e na América do Sul.

"Com mais de um século na América do Sul e no Brasil, sabemos que estas são ações muito difíceis, mas necessárias, para criar um negócio saudável e sustentável", declarou o diretor executivo da Ford, Jim Farley.

A decisão faz parte de uma reestruturação global da Ford com vistas a melhorar seu desempenho financeiro. Com o fim da produção no Brasil, iniciada em 1920, a empresa calcula gastos de US$ 4,1 bilhões para encerrar as operações de manufatura no país, e está trabalhando para encontrar compradores.

Iniciando seu segundo mandato em Camaçari, o prefeito Elinaldo Araújo afirmou à BBC News Brasil que a cidade ainda procura alguma empresa que assuma a fábrica na cidade. "Os governos precisam unir forças para tapar esse buraco", disse, por telefone.

Segundo ele, contratos de manutenção de escolas e de postos de saúde do município podem ser afetados com a queda de arrecadação. Ele também afirmou que a cidade "fez de tudo" para manter a companhia na cidade, com máxima redução de impostos, mas que o governo Jair Bolsonaro preferiu não dar novos subsídios à montadora.

Nesta quinta-feira, o presidente afirmou que a "Ford queria mais subsídios" para manter as fábricas em funcionamento no Brasil.

Depois de fechar fábrica em São Bernardo do Campo em 2015, Ford anunciou encerramento de produção em três unidades restantes no país
Depois de fechar fábrica em São Bernardo do Campo em 2015, Ford anunciou encerramento de produção em três unidades restantes no país
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

"Mas o que a Ford quer? Faltou a Ford dizer a verdade. Querem subsídios. Vocês querem que eu continue dando R$ 20 bilhões para eles como fizemos nos últimos anos? Dinheiro de vocês, impostos de vocês, para fabricar carro aqui? Não. Perdeu a concorrência. Lamento", afirmou em entrevista a jornalistas.

Confira abaixo a entrevista do prefeito de Camaçari, Elinaldo Araújo.

BBC News Brasil - Como o sr. reagiu à notícia do fechamento da fábrica da Ford?

Elinaldo Araújo - Nós recebemos a notícia com surpresa. A Ford tinha se preparado para sair das três cidades onde ela tem plantas.

Ela não avisou aos governadores nem aos prefeitos. O país inteiro foi pego de surpresa.

O impacto na receita do município será muito grande. Só de ISS (Imposto sobre Serviços) vamos perder R$ 30 milhões por ano.

E, no ano que vem, a queda de arrecadação do ICMS será de R$ 100 milhões.

Fora isso, serão cinco mil trabalhadores desempregados só da Ford. Calculamos que, com as empresas agregadas, que prestam serviços para a Ford, serão mais sete mil empregos afetados. 12 mil pessoas vão perder seus empregos. Também haverá impacto no comércio que gira em torno da empresa.

O impacto será enorme para Camaçari.

BBC News Brasil - Esses empregos são só em Camaçari?

Araújo - Isso, só em Camaçari. Mas cidades próximas também serão afetadas, porque há empresas fora da cidade que atuam para a Ford também.

Somos uma cidade de 300 mil habitantes e provavelmente serão 12 mil desempregados perdidos só com a saída da Ford.

A Ford culpou os impactos da pandemia para o fechamento das fábricas no Brasil
A Ford culpou os impactos da pandemia para o fechamento das fábricas no Brasil
Foto: Reuters / BBC News Brasil

BBC News Brasil - A cidade tentou de alguma maneira retardar ou impedir o fechamento da fábrica?

Araújo - Nós fizemos tudo o que o município poderia fazer para manter a Ford.

A Ford tinha um desconto de 85% de IPTU em Camaçari. E do ISS, pagava o mínimo permitido pela lei federal, que são 2%.

A maior carga tributária da Ford vinha do governo federal, com o IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) e o Imposto de Renda. O presidente Bolsonaro deu uma declaração hoje de que a Ford queria mais subsídios e que ele não iria dar. Ele deixou bem claro que a decisão do governo era não dar mais subsídios.

Pode ser coincidência, mas os governadores dos três Estados com fábricas da Ford fazem oposição ao Bolsonaro: Bahia, Ceará e São Paulo.

Agora nós estamos tentando dialogar com a Federação das Indústrias da Bahia e com o governo do Estado para trazer outra empresa para tapar esse buraco.

BBC News Brasil - O senhor acha que faltou tato do governo federal ao lidar com esse problema?

Araújo - Pela declaração do presidente Bolsonaro, o governo não foi pego de surpresa. Sabia o que estava acontecendo.

O município e o governo do Estado fizeram sua parte, diminuindo a carga tributária. A questão estava com o governo federal, com o imposto de renda e o IPI. Bolsonaro deixou claro que não abriu mão dos impostos.

BBC News Brasil - O que essa queda de arrecadação representa para o dia a dia do município?

Araújo - Significa muito. São R$ 30 milhões a menos só neste ano. E mais R$ 100 milhões em 2022.

Vou citar o exemplo do nosso contrato de manutenção das escolas municipais, que custam R$ 6 milhões por ano. Já a manutenção dos postos de saúde são mais R$ 6 milhões. Ou seja, só nesses dois casos, já são R$ 12 milhões que vamos ter que tirar de algum lugar. E isso são só duas áreas de atuação da prefeitura.

É um baque enorme para a cidade e para os cidadãos. Vamos ter que readaptar nossa gestão para suprir esse rombo neste ano. Para o ano que vem, se não vier outra empresa para o lugar, a situação pode piorar.

BBC News Brasil - Um dos motivos para a ida da Ford à Camaçari foi o custo da mão de obra, que era menor do que em outros pontos do país. Esse custo aumentou nos últimos anos? Isso poderia ser um dos motivos para o fechamento?

Araújo - O custo da mão de obra no Nordeste continua sendo um dos mais baratos do país.

A Ford não falou nada sobre isso. Ela alegou um grande impacto da pandemia, que reduziu 30% das vendas em 2020.

Mas na fala do Bolsonaro ficou claro que a Ford queria renovar os subsídios e o governo federal não fez questão. Bolsonaro disse que lamenta a perda de empregos, mas que não iria abrir mão dos impostos.

BBC News Brasil - Quais foram os ganhos que a empresa proporcionou para a cidade?

Araújo - Os ganhos foram muito grandes. No auge, só de empregos diretos a Ford teve 8 mil funcionários em Camaçari, 15 mil com as empresas agregadas.

Nós tínhamos uma arrecadação só de ISS, mesmo a Ford pagando o mínimo, de R$ 2,5 milhões por mês. Sempre tivemos um ótimo relacionamento com a empresa. A questão principal não foi com a gente, e sim com o governo federal.

Quem está pagando o preço agora são os Estados e os municípios.

BBC News Brasil - O governo da Bahia disse que está negociando com a Embaixada da China para que alguma empresa incorpore a fábrica… Como o sr. vê esse movimento?

Araújo - Vejo como importante. É hora de unir forças para que não percamos esses empregos. E essa união precisa vir do governo federal, estadual, deputados e senadores…

Acho que precisa melhorar a relação entre o governador da Bahia, Rui Costa (PT), e o presidente Bolsonaro. Eles precisam saber separar as coisas… No campo da política eles podem divergir, não há problemas nisso. Mas, na hora de pensar nas cidades, na economia e nas pessoas, eles precisam deixar essas divergências de lado. Essa relação hoje é muito ruim.

BBC News Brasil - O sr. assumiu seu segundo mandato agora. Nesse momento, o que o sr. diria para a população da cidade?

Araújo - Eu digo que a cidade terá que se readaptar a esse baque e a essa queda de arrecadação. Falar em qualquer tipo de mudança é precipitado, porque ainda estamos tentando sanar esse buraco.

Mas nós precisamos replanejar nossa lei orçamentária anual. Precisamos deixar seguros os serviços básicos e essenciais para a população, mesmo com uma receita menor.

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