Sol vê em Ana Paula tudo o que a sociedade não enxerga nela sendo negra
Ressentimento racial, privilégios invisíveis e o conceito dos ‘olhos azuis’ ajudam a entender o embate entre as veteranas
Sol odeia os brancos? Provavelmente não. A artilharia contra Ana Paula tem razões profundas.
Ela se mostra ressentida com a jornalista “branquinha, loira” (em suas próprias palavras) por ver a representação mais respeitada pela sociedade.
Não é que gostaria de ter a pele clara e os cabelos lisos da rival, e sim o respeito e as prerrogativas que o fenótipo proporciona a qualquer caucasiano.
Ana Paula não levanta suspeitas dos seguranças ao entrar em uma loja de shopping, por exemplo. Não causaria olhares tortos se ocupasse um cargo de liderança numa empresa com maioria de brancos.
Uma mulher com sua aparência circula por todos os ambientes com autorização instantânea para fazer parte deles. Sem questionamento.
Já uma negra como Sol, em certos lugares, será vista como uma estranha no ninho, uma presença não natural que precisa ser explicada para, talvez, ser aceita — ou apenas tolerada momentaneamente.
Com frequência, o negro é interpretado como uma ameaça, um deslocado socialmente. No caso de ocupar uma função de serviçal, se torna invisível.
Por isso, em uma situação de confronto com um branco, pode explodir o ressentimento represado, as dores, os traumas.
Sol não está em batalha apenas contra Ana Paula, é uma guerra maior, de 47 anos de existência, de incontáveis microagressões cotidianas e grandes humilhações públicas.
Vítima de racismo explícito no 'BBB4', ela age, certamente, para evitar que a mesma violência psicológica aconteça também nessa nova chance no programa.
No livro ‘Pele Negra, Máscaras Brancas’, o psiquiatra e filósofo franco-martinicano Frantz Fanon usa os ‘olhos azuis’ como metáfora desse abismo entre brancos e negros, corpos racializados como legítimos e ilegítimos.
O autor chama de ‘olhos azuis’ não apenas um atributo físico, mas o olhar social legitimador, aquele que reconhece humanidade, competência e pertencimento.
Ter ‘olhos azuis’, nesse sentido, é ser visto antes de tudo como indivíduo e personificar a imagem mais valorizada na sociedade. Não tê-los é existir sob desconfiança, precisar provar constantemente que merece estar ali e implorar por dignidade.
O negro, em geral, cresce tentando se ajustar a esse olhar que nunca o contempla por inteiro e, às vezes, ele tenta até se parecer com a pessoa de ‘olhos azuis’ em busca de maior aceitação.
Ana Paula carrega, sem esforço, esses olhos claros simbólicos. Sol, ao contrário, sempre entra em cena marcada pelo filtro racial que antecede qualquer ação.
Compreendem-se os gritos recorrentes da veterana na tentativa desesperada de ser ouvida e integrada, ainda que tal comportamento seja lido como um estereótipo nocivo.
Mesmo errando ao tentar converter sua vivência dolorosa em confronto direto entre brancos e pretos no ‘BBB26’, Sol não merece ser reduzida ao rótulo de barraqueira e inimiga da branquitude.
Ela é uma mulher negra fazendo um pedido básico: “Me enxerguem como um ser humano”.