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Diretor de "Too Old to Die Young": "A televisão está morta"

O dinamarquês Nicolas Winding Refn fala na evolução do streaming

16 jun 2019
03h10
atualizado às 11h01
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Nicolas Winding Refn quer ser tão diferentão que, no último Festival de Cannes, ele resolveu apresentar apenas os episódios 4 e 5 de sua série Too Old to Die Young, que está no ar na Amazon Prime Video. "Achei que, como Cannes estava abraçando o streaming, o que poderia ser melhor do que mostrar o meio?", disse o diretor de Drive e Demônio de Neon, dono de um senso de humor peculiar, em entrevista ao Estado, em Cannes. "Pelo menos é isso o que faço em casa, assim como meus filhos, minha mulher. Normalmente, pego as coisas pelo meio. Portanto, seria uma maneira mais relevante de apresentar o futuro."

Mas não só isso. Para o cineasta dinamarquês, Too Old to Die Young não é televisão. "Não é, de jeito nenhum", afirmou. "Há todo esse debate sobre cinema e TV, o que é o que, e o streaming. Mas a gente não precisa se preocupar com o cinema, ele está bem. É a televisão que está sofrendo porque, com o streaming, ninguém assiste à TV. Nós usamos o streaming quando queremos ver algo. E pausamos quando queremos fazer alguma outra coisa. Para mim, a televisão está morta. O streaming é uma evolução."

O diretor Nicolas Winding Refn
O diretor Nicolas Winding Refn
Foto: Regis Duvignau / Reuters

Refn disse que só decidiu a duração de cada um dos dez episódios depois, na montagem. "Só cortei em durações diferentes", contou. "Porque não faz sentido obedecer aos parâmetros de 45 minutos ou 1 hora se o espectador vai pausar quando ele ou ela quiser." Por conta disso, também, ele afirmou que Too Old to Die Young talvez não tenha final. "É como a internet, é só desligar o botão", afirmou. "Eu só parei de filmar porque acabou o dinheiro." O difícil foi convencer todo mundo. "A maior dificuldade era romper as fronteiras, porque ficavam me falando de televisão, o que é narrativa de TV, como se conta uma história na televisão."

Too Old to Die Young reprisa alguns dos melhores (e piores) momentos do diretor, como a violência, certa misoginia, cenas de carros. "Bem, eu não estava tentando me repetir, mas tinha 13 horas para preencher!", revelou.

Na trama, Miles Teller é Martin, um xerife do Condado de Los Angeles que teve o parceiro morto. Em um relacionamento com uma adolescente (Nell Tiger Free), filha de um bilionário, ele forma uma parceria com um agente do FBI transformado em vingador. "Só tinha lido o primeiro episódio quando me encontrei com Nic", lembrou o ator de Whiplash - Em Busca da Perfeição. "Alguns episódios não estavam nem escritos quando começamos - e, para ser honesto, os roteiros estavam em constante mutação. Mas achei que era um personagem único e complexo."

Refn recusou, porém, o rótulo da violência e da misoginia. "Temos quantidades iguais de violência contra homens e contra mulheres. Acho que estou sendo politicamente correto", disse o diretor. "Não acho o que faço muito violento. Tem coisas muito mais violentas até em canais abertos, gente morrendo para todo lado. Não me considero violento, posso ser violador. Violador da mente. E o espectador faz projeções que o deixam incomodado."

Outra de suas marcas é o ritmo lento - o que talvez, aqui, faça parte de sua estratégia para preencher dez episódios. Mas, segundo o cineasta, Too Old to Die Young exige muito porque respeita seus espectadores. "Respeito o comportamento humano, respeito as pessoas. Se vou roubar seu tempo, preciso dar algo em que pensar, ao que reagir. Não algo que vá imediatamente para a lata de lixo. É como quando temos filhos e tentamos diagnosticá-los, por alguma pressão da sociedade, que não aceita o que não se encaixa perfeitamente. Dane-se isso tudo. É arte, não há controle. E fica muito mais interessante", acrescentou o diretor.

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Estadão
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