Protagonista de ‘Terra e Paixão’ tem falhas que geram a indiferença do público
Folhetim da Globo ainda não conquistou a torcida dos noveleiros e sofre para reverter queda de audiência provocada por ‘Travessia’
Paisagens bonitas não seguram o telespectador. Faz tempo que o noveleiro apurou o senso crítico e deixou de assistir passivamente às novelas oferecidas a ele.
Hoje, o público quer tramas interessantes e críveis, personagens carismáticos em atuações convincentes, doses equilibradas de drama e humor.
O folhetim não precisa tentar reinventar a roda, mas deve apresentar elementos surpreendentes (ou menos repetitivos) e, acima de tudo, jamais subestimar a inteligência de quem se dispõe a ficar 1 hora diante da TV a cada capítulo.
‘Terra e Paixão’ ainda não entregou a maior parte desses itens imprescindíveis a uma novela de sucesso. É cedo para avaliá-la, porém, o primeiro mês no ar não empolgou.
A audiência patina: está com média de 24,3 pontos, distante da meta de 30 para a faixa mais nobre e cara da Globo.
Em alguns capítulos, a saga rural chegou a registrar índice menor que o do ‘Jornal Nacional’ e o da novela das 19h (‘Vai na Fé’). Em uma noite, ganhou da morna ficção das 18h (‘Amor Perfeito’) por apenas meio ponto.
Aposta da emissora para reverter o fiasco de ‘Travessia’, ‘Terra e Paixão’ sofre de problemas semelhantes aos da antecessora e os de ‘Um Lugar ao Sol’, a novela das 21h menos vista da história da emissora.
A começar por uma protagonista que não cativa. A tragédia e o sofrimento em torno de Aline (Barbara Reis) foram recebidos com indiferença por parcela relevante dos telespectadores, assim como não houve empatia com a inverossímil Brisa (Lucy Alves) e o maçante Christian/Renato (Cauã Reymond).
Até agora, a personagem principal não exalou a graça e o magnetismo de heroínas populares criadas pelo mesmo autor, Walcyr Carrasco.
Entre elas, a Maria da Paz (Juliana Paes) de ‘A Dona do Pedaço’, a Clara (Bianca Bin) de ‘O Outro Lado do Paraíso’, a Paloma (Paolla Oliveira) de ‘Amor à Vida’ e a Ana Francisca (Mariana Ximenes) de ‘Chocolate com Pimenta’.
Um dos equívocos da construção de Aline foi indicar que ela se casou com Samuel (Ítalo Martins) não por amor, e sim porque engravidou.
Uma justificativa para esquecê-lo rapidamente e logo se encantar com o cortejo de Caio (Cauã Reymond), Daniel (Johnny Massaro) e Jonatas (Paulo Lessa). Difícil acreditar no luto da jovem viúva e em seu ímpeto de superação.
Há outras incongruências. Por exemplo, ela vive em aperto financeiro, mas dirige uma caminhonete cara. Repete à exaustão que vai trabalhar a terra, porém, poucas vezes foi vista colocando a mão na massa. A relação afetiva com o filho pequeno – mola propulsora de sua força, segundo diz – é pouco mostrada.
A atriz Barbara Reis faz o que pode com as incoerências de Aline. Entrega uma atuação robusta, mas não consegue reverter a falta de carisma da personagem.
A fazendeira ainda não conseguiu seduzir os noveleiros cada vez menos benevolentes com protagonistas contraditórios. A heroína carece daquele brilho que captura a atenção e suscita torcida a favor.
Previsivelmente arriscado, o quarteto amoroso também não fisgou as redes sociais, grande termômetro de popularidade.
Não se nota forte química de Aline com nenhum dos pretendentes. Em breve, a morte de um deles pode reverter o marasmo romântico do núcleo principal.
‘Terra e Paixão’ precisa das reviravoltas que Walcyr Carrasco fez tão bem em folhetins anteriores. Desta vez, o autor está irreconhecivelmente contido. Falta aquele tom burlesco e a pitada de drama rasgado que garante a diversão do público.