"Para a Globo, eu sou um protagonista", diz Humberto Martins
- Márcio Maio
- Direto do Rio
O orgulho de Humberto Martins parece não ter fim. O ator, que interpreta o sofrido Ricardo de Escrito nas Estrelas, reconhece a importância de interpretar um protagonista na novela das 18 horas da Globo. Mas ergue a cabeça para afirmar que todas as suas aparições na tevê foram nessa posição, tentando arrumar uma boa justificativa para sua teoria. "Não existe mais isso na tevê, só no teatro ou no cinema. Existem protagonistas para começar e levar uma história, mas trata-se de um produto de ordem de opinião pública. É o que vai dando, é o que vai indo... O Ramiro se tornou um protagonista em Caminho das Índias, defende.
Mesmo com esse discurso, Humberto garante que tais rótulos não fazem mais diferença em sua vida. "Para a Globo, eu sou um protagonista", gabou-se. Sobre a tarefa de compor um viúvo que busca a felicidade na fertilização do sêmen do filho morto, vivido por Jayme Matarazzo, o ator não se estende. "Sou muito intuitivo. Se não tivesse filhos e estivesse muito distante dessa realidade, talvez não fosse capaz de entender determinados sentimentos e tivesse de buscar essa compreensão em livros ou pesquisas de campo. Mas não é o caso", afirmou.
Você interpreta seu terceiro médico na TV em Escrito nas Estrelas. Essa coincidência ajudou na composição do personagem?
A composição vai surgindo aos poucos. Assim que a sinopse chega às minhas mãos e que recebo as informações sobre o personagem, leio e vejo que tipo de vida e quais reações psicológicas aquela pessoa pode desenvolver. E trabalho em cima disso. Ser médico é um detalhe desse trabalho que tem mais a ver com a parte técnica dessa interpretação. Para essas questões, existem os workshops.
O Ricardo trabalha na área de reprodução humana e recorre a seus conhecimentos depois que descobre o sêmen do filho. Como você buscou entender melhor essa relação profissional?
Conversei bastante com a Dra. Maria Cecília Erthal, uma médica que me deu a oportunidade de visitar laboratórios de fertilização para que eu chegasse a um estudo mais detalhado desse processo. E isso inclui também informações sobre exemplos de casais. Acho que conversar com essas pessoas poderia ser uma invasão em um aspecto muito particular e sensível da vida delas. Pode ser difícil para alguns aceitar recorrer a esses métodos para ter filhos.
Escrito nas Estrelas mistura elementos científicos com outros baseados em teorias religiosas, principalmente espíritas. Você precisou estudar a religião para esse trabalho?
Sempre estudei conceitos religiosos. Até porque fui criado dentro do catolicismo e também do espiritismo. Mas todas as religiões, pelo que sei de cada uma, procuram um Deus. Todas levam a um caminho de organização pessoal e familiar e também de acreditar em um organizador maior, um poder central sobre toda essa questão da vida. Cada ser humano procura uma explicação para isso. Seria muito chato achar que é isso aqui que a gente vê e que, depois, acaba. Mas não vejo uma proposta de doutrinar o público na novela. Embora seja um tema delicado, polêmico e que deve ser tratado da forma que estamos mostrando, com seriedade e respeito.
Já que a intenção não é doutrinar, vocês chegam a se policiar para manter a imparcialidade em relação à discussão religiosa?
Acho que não chega a tanto. Existe o interesse em contar uma história escrita por uma autora que fez uma pesquisa sobre os temas abordados e escreve da maneira como ela quer contar essa história. Não há mesmo um propósito religioso. E acho que algumas questões devem, sim, ser discutidas e polemizadas. Já passei por situações, no trabalho mesmo, em que recorri à fé. E isso independe de uma religião específica.
Que tipo de situação?
A Globo está reprisando Sinhá Moça, novela em que interpretei o feitor Bruno. O personagem não era mau, porque não foi dada essa referência a ele. Só que, por ser feitor, fazia maldades. Uma questão de referência de época. Mas quando íamos para o estúdio gravar cenas de chicotadas ou outras torturas, havia cânticos africanos que eram cantados pelos atores e figurantes. Cânticos reais, que pregavam coisas ruins para aquele personagem. Sabendo disso, eu ficava em estado de reza, de proteção. Mesmo precisando manter a expressão de feitor, sentia necessidade de me proteger. Acredito em energias traçadas, mas acho que nossa mente tem um poder muito forte que o ser humano ainda não sabe usar.
Seus personagens na tevê são cada vez mais densos. Esse foi um pedido seu na emissora?
Não existe essa história de pedido ou recusar papel. Ator não é rei. Qualquer um pode ser substituído. Por isso mesmo, o poder de escolher não existe. Sempre aceitei os papéis que me ofereceram. E todos sempre foram importantes dentro daqueles projetos, o que me deu motivação para tentar honrar esse grau de responsabilidade que me deram. Temos o real poder de escolha fora da tevê. Na Globo, sou contratado e tenho de trabalhar. A relação é profissional, não é de brincadeira. Claro que você pode conversar sobre sua carreira, mas nunca recusei nenhum papel. Mas a experiência vai mudando, você abre novas portas com profissionais da empresa, é um caminho normal. Acho bom a gente mudar. A idade faz isso.
Em que você mudou?
Mudei a forma como enxergo a minha vida, por exemplo. Nesses meus 49 anos, vejo que já pensei diferente várias vezes. Mudei de postura, mas isso é amadurecimento. Todo ser humano troca de foco em algum momento. Na medida em que você cresce na vida, na carreira, forma uma família, enfim, sua vida vai mudando. É uma questão de administrar seu relógio, o tempo da sua vida.
Quando você fala em trocar de foco, tem relação com seu desejo de trabalhar com outros autores além do Carlos Lombardi? Você emendou muitos projetos dele...
Essa foi uma decisão unânime, de que era um ciclo que já tinha se encerrado.
Mas quem iniciou essa conversa?
Partiu primeiro de mim. Mas não foi a negativa de um trabalho e sim a perspectiva de novos rumos. Eu queria trabalhar com autores diferentes, fazer outros personagens, experimentar novas histórias. Ninguém quer ter uma carreira cristalizada. Já tinha feito cinco trabalhos com o Lombardi, acho que já estava de bom tamanho. É bom fazer isso intercalando, mas sequencialmente me fez sentir um pouco limitado. Mas só tive excelentes papéis escritos por ele.
Hoje você volta ao ar na pele de um protagonista. Essa escalação tem um peso diferente
Considero todos os meus trabalhos como protagonistas. Não existe mais isso. Podem determinar um protagonista, mas as coisas mudam. O público vai fazendo as histórias ganharem mais peso. O Ramiro se tornou um protagonista em Caminho das Índias. Mas, na minha carreira, não faz mais diferença ser um protagonista. Para a Globo, eu sou um. O que muda é o fato de ser um posto perigoso e complicado. É preciso ser muito disciplinado para chegar nesse posto. Se não, você só o ocupa uma vez.
Escrito nas Estrelas - Globo - Segunda a sábado, às 18h.
Sem comparações
Falante e atencioso, Humberto chega a franzir a testa ao mencionar a possibilidade de comparações entre sua atuação em Escrito Nas Estrelas e seu último personagem na tevê, o sisudo Ramiro de Caminho Das Índias. Isso porque como os dois passam por conflitos paternos, pode ser natural que algumas pessoas tentem encontrar em um traços já vistos no outro. Mas Humberto garante que isso nem é possível, tamanhas as diferenças entre os dois trabalhos. "As reações do Ramiro eram mais matemáticas. Era preciso manter um certo olhar de empresário. Agora as emoções são mais internas", filosofou. "Se a gente for analisar desse jeito, então todos os personagens de novelas se misturam em algum traço", completou.
E Humberto é capaz de embasar sua teoria. Contratado da Globo, o ator mostra em sua conversa que faz questão de ver tudo o que pode na teledramaturgia. "Acho importante saber o que acontece. E não só aqui, mas nas outras emissoras também. É bom ver como estão os colegas que mudaram de casa e o que vem sendo apresentado. Todo ator precisa ter essa noção de mercado", justificou. Mas sua visão a respeito do mercado é, ao mesmo tempo, boa e ruim. "Vejo muitas oportunidades se abrindo e isso é bom. Mas ainda existem precariedades que percebemos no ar. Algumas vezes, em termos de elenco. Em outras, vemos grandes atores com problemas de direção", analisou, com semblante desanimador.
Trilha de sucesso
A relação de Humberto Martins com a tevê começou timidamente, com pequenas participações em Bebê a Bordo e Vale Tudo, ambas em 1988. Mas já no ano seguinte o ator ficou "habitué" dos folhetins, conquistando um papel em O Sexo dos Anjos. Daí para emplacar um personagem de destaque em Barriga de Aluguel, como o caminhoneiro João, foi um pulo. Uma ascensão rápida, mas, ele garante, dura. "Nada vem por acaso na nossa profissão. Se você não se dedica, é engolido pelos outros", analisa. Daí para frente, emendou novelas e minisséries sem parar, todas com aparições marcantes, até se transformar no mocinho constante das obras de Carlos Lombardi. Tanto que, de 1994 a 2003, marcou presença em todos os projetos assinados pelo autor. "Sei que foi uma fase importante da minha carreira e guardo muito respeito pelo espaço que conquistei na tevê dentro desse período", ameniza Humberto, que admite ter conversado com a Globo para "experimentar novas histórias".
A mudança, feita de maneira amigável, acabou refletindo positivamente na carreira de Humberto. De descamisado aventureiro, o ator passou a ser visto em papéis de destaque desde em tramas de época, como em Sinhá Moça, em reprise atualmente no Vale a Pena Ver de Novo, e na minissérie Amazônia - De Galvez a Chico Mendes, como na pele de empresários céticos e com índole muitas vezes duvidosa, como em América e Caminho das Índias. Agora, prestes a completar 50 anos, Humberto acredita que poderia explorar outras vertentes de sua profissão, como a direção, mas não pretende se distanciar da frente das câmaras tão cedo. "Sei que eu teria condições, mas não sinto essa necessidade. Prefiro continuar atuando. Pode ser que mais tarde eu pense diferente. Mas, por hoje, ser ator me basta", enfatizou.
Trajetória televisiva
# O Sexo dos Anjos (Globo, 1989) - Otávio.
# Barriga de Aluguel (Globo, 1990) - João dos Santos.
# Tereza Batista (Globo, 1992) - Jereba.
# Pedra Sobre Pedra (Globo, 1992) - Iago.
# Mulheres de Areia (Globo, 1993) - Alaor.
# A Madona de Cedro (Globo, 1994) - Maneco.
# Quatro por Quatro (Globo, 1994) - Bruno.
# Vira-Lata (Globo, 1996) - Lenin.
# Corpo Dourado (Globo, 1998) - Chico.
# Chiquinha Gonzaga (Globo, 1999) - Artur.
# Uga Uga (Globo, 2000) - Bernardo Baldochi.
# O Clone(Globo, 2001) - Aurélio.
# O Quinto dos Infernos (Globo, 2002) - Francisco Gomes.
# Kubanacan (Globo, 2003) - General Carlos Camacho.
# América (Globo, 2005) - Laerte.
# Sinhá Moça (Globo, 2006) - Bruno.
# Pé na Jaca (Globo, 2007) - Merlin (participação).
# Amazônia, de Galvez a Chico Mendes (Globo 2007) - Augusto.
# Beleza Pura (Globo, 2008) - Renato Reis.
# Caminho das Índias (Globo, 2009) - Ramiro Cadore.
# Escrito nas Estrelas (Globo, 2010) - Ricardo Aguillar.