Ofensiva dos Estados Unidos na Venezuela expõe falha grave de emissoras brasileiras
Quando não há correspondente, telejornalismo se acomoda com coberturas à distância feita dos estúdios
O ataque militar dos Estados Unidos contra a capital Caracas e outras regiões da Venezuela não pode ser considerado uma surpresa. Donald Trump já sinalizava a iminência da ação para derrubar o ditador Nicolás Maduro.
Mas as emissoras brasileiras insistiram em uma cobertura à distância. Nenhum canal brasileiro possui correspondente fixo no país vizinho, apesar de sua importância geopolítica.
Líder de audiência na TV paga, a GloboNews cobre a Venezuela a partir de Buenos Aires, na Argentina, onde Ariel Palácios faz comentários no conforto de sua casa.
Eventualmente, o canal aciona uma freelancer em Caracas, com nítida inexperiência com televisão, que faz entradas ao vivo também entre quatro paredes, sem mostrar as ruas, onde os fatos efetivamente acontecem.
O ‘Edição das 7h’ deste sábado (3) começou a cobertura acionando o correspondente em Portugal, Leonardo Monteiro.
Mesmo sem um repórter na Venezuela, a Globo entrou no ar pouco antes das 6h da manhã com uma edição especial do ‘Bom Dia Sábado’, ancorado por Marcelo Pereira e Sabina Simonato. Uma agilidade que fez diferença a quem buscava informações sobre o ataque ocorrido algumas horas antes.
As principais justificativas para a ausência de jornalistas fixos em Caracas são o risco à segurança de profissionais de imprensa e os custos de uma economia dolarizada.
Argumentos incompatíveis com a missão jornalística de estar presente nos piores lugares para mostrar ao telespectador a desconstrução da propaganda oficial de um governo autoritário.
Hoje, a maioria das emissoras prefere usar imagens geradas por agências de notícias e capturar vídeos amadores de anônimos nas redes sociais, com narração feita nos estúdios com ar-condicionado no Rio ou em São Paulo.
O jornalismo de guerra, presencial, se torna cada vez mais raro. Um dos poucos brasileiros a se dedicar ao gênero é Gabriel Chaim, que prestou excelentes serviços para a Globo e GloboNews na linha de frente de batalhas na Ucrânia e na Síria. Fotojornalista independente, ele não tem vínculo permanente com nenhuma TV.