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Lima Duarte diz que relembra suas origens em 'Araguaia'

9 jan 2011 10h39
| atualizado às 10h47
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Mariana Trigo

O jeito de falar inconfundível de Lima Duarte e o sorriso bonachão são quase sempre os mesmos. Mas seus mais variados personagens se diferenciam nos 61 anos da história da TV brasileira. De sonoplasta da Rádio Tupi a diretor da vanguardista trama Beto Rockfeller, na Tupi - que revolucionou a história da teledramaturgia nacional -, o artista tornou-se exemplo de qualidade artística associada à popularidade nacional. Lima Duarte deixou cedo Sacramento, sua cidade natal em Minas Gerais, mas nunca esqueceu suas origens e costumes de homem do campo. Tanto que, em seus mais diversos personagens rurais, este ator de 81 anos costuma se confundir com seus papéis, como é o caso do severo e rústico fazendeiro Max, de Araguaia. Na trama das seis da Globo, de Walter Negrão, amigo do ator há mais de 50 anos, Lima pediu para que seu personagem fosse gaúcho e mergulhou nos costumes, trejeitos e modo de falar dos fazendeiros dos pampas. "Já fiz, turco, hindu, paulista, nordestino. Faltava um gaúcho na TV, um homem forte. Esse personagem é grande. O Norte dele é a paixão pelo campo", ressaltou.

Em 61 anos de carreira na TV, você volta a interpretar um tipo campestre, personagem familiar por você ser filho de boiadeiro e criado no interior de Minas Gerais. Esses papéis ainda motivam você?
Sem dúvida. Gosto de ser fiel às minhas origens e raízes, por isso me dou bem com esses personagens. Mas recentemente fiz um hindu em Caminho das Índias. Gosto muito do Brasil, do nosso povo. Amo ser brasileiro e fazer vários tipos da nossa terra. Mas, sem dúvida, papéis brasileiríssimos como o Sinhozinho Malta e o Zeca Diabo são eternos.

Por quais caminhos você direcionou a composição desse poderoso fazendeiro que age como um coronel na trama?
Esse personagem foi uma encomenda que recebi do meu querido amigo Walter Negrão (autor da novela). Ele foi até São Paulo conversar comigo edisse: "quero que tu faças um personagem para a minha novela das seis". Topei na hora e adorei saber que iria trabalhar com as minhas amigas Laura Cardoso e com a Regina Duarte, que atuei lá no início da trama. Isso sem falar na Eva Wilma. Amei todas essas mulheres em outras novelas. Já amei todo mundo! Esse personagem é lindo. Ele enlouqueceu de amor pelo papel da Regina. Esse início é grandioso, muito bonito. Não existem mais pessoas que enlouquecem de amor, só as que enlouquecem de ódio e isso deu o tom de todo o personagem. Ele amava essa mulher, ela se apaixonou por um participante da guerrilha do Araguaia e ele o denunciou. Isso foi uma leviandade, coisa de juventude. Ele teve problema de consciência pelo resto da vida, misturado com compaixão e desamor.

Por isso o personagem é tão tirano?
Um homem apaixonado e economicamente poderoso é um perigo.

Você sugeriu ao autor da trama que o Max fosse gaúcho. Por quê?
Quis prestar uma homenagem a um grande amigo do Rio Grande do Sul, um intelectual já falecido chamado Barbosa Lessa. Fiz quatro filmes de costumes gauchescos: O Sobrado, Paixão de Gaúcho, O Preço da Paz e O Tempo e o Vento. Em dois desses filmes lidei muito com o Barbosa, que é um dos fundadores do Centro de Tradições Gauchescas. Aprendi muito com ele, muitas palavras, muito da psicologia dos gaúchos, do homem das coxias, dos campos, homens rapsodos. Eu gosto muito da prosódia, de falar daquele jeito, então montei esse personagem.

Como o Walter Negrão lidou com suas escolhas para este personagem?
Conheço o Negrão há uns 50 anos. Ele é meu grande amigo. Nós fundamos a televisão. A TV fez 60 anos ano passado e tem muito de nossas histórias. No dia 18 de setembro de 1950 foi ao ar a primeira transmissão de televisão da América Latina. Isso muita gente não sabe! Não tinha TV no México, na Argentina, em lugar nenhum. A primeira foi a TV Tupi de São Paulo. Eu estava lá.

Como foi?
No estúdio, no dia da inauguração, tinham 28 pessoas. Poucos estão vivos. Naquela época eu tinha 20 anos. Estou com 81. É uma bela diferença. Os diretores da Tupi se reuniram e disseram que o primeiro diretor de TV da América Latina seria o Cassiano Gabus Mendes, o autor de Ti-ti-ti. Viu como em TV as coisas não mudam muito? Ele disse: "só aceito se o Lima Duarte for meu assistente". Eu era sonoplasta da Rádio Tupi. Sonoplasta é quem coloca música na novela. Falei: "você acha que vou deixar de ser o sonoplasta que sou para ser assistente de direção de uma emissora de televisão? Você está ficando louco! Eu não vou!" (Risos). Disse não para o Boni também e estou aqui, fazendo minhas caretas até hoje. Mas lembro de muita piada desse início. Mas são apenas anedotários. O fundamental é que a minha paixão pela TV desde aquele dia e até hoje é a mesma. Afinal de contas, nunca me tiraram da TV desde então. Acho que engano bem, né? (Risos). É a paixão que move isso.

Essa mesma paixão pela TV faz com que você lide de que forma com atores tão novatos, como a Milena Toscano, que interpreta a filha do Max e vive às turras com o pai?
Sempre digo para eles criarem, ousarem. Só um velho como eu faz isso. Falo muito que não gosto de naturalismo nas novelas. Gosto de personagens que me permitam criar. E faço tudo sem rede de proteção. Quando meus papéis caem, se machucam mesmo. Mas quando acerto é muito bom. Os atores novos não se adaptam a isso.

Em que papéis e em que momentos da sua carreira você mais se jogou sem rede de proteção?
Com o Zeca Diabo, por exemplo, que falava baixinho, com o Sinhozinho Malta, vários sucessos meus.

Quando você fala em naturalismo nas novelas, o que mais o incomoda?
Meu princípio é nunca fazer esse naturalismo de consumo. Ficar girando copinho de uísque. Pretendo fazer personagens que sempre existem dentro de mim. Não sei onde eles estão, mas quero construí-los. Mesmo se me derem esses personagens, vou mudando o caminho deles no estúdio. Você vê o sucesso que foi a Regina Duarte quando fez a Viúva Porcina em Roque Santeiro? Hoje a Irene Ravache está fazendo outra Porcina em Passione, papéis arriscados que dão certo.

Seu personagem também se arrisca muito na trama influenciando na vida de todas as pessoas na região. Recentemente ele sofreu um infarte, é contra o relacionamento da filha com Solano, de Murilo Rosa, e tem sido traído pela mulher Amélia, da Júlia Lemmertz. Como tem sido?
Ele é um homem raro, único. Ganhou muito dinheiro, é muito hábil. Ele fala para a mulher dele que ela é um adorno dele. Diz que ela é bem tratada, bem cuidada, mas é apenas um enfeite. Ela acabou se apaixonando por ele no início. Foi bonito isso. Houve um acidente nessa relação. Ela se envolveu com o Vitor, personagem do Thiago Fragoso. Ele é bonito, não é? Parece um anjinho barroco.

Flechada histórica
Uma das maiores paixões de Lima Duarte é o tempo que se dedica às pesquisas para seus personagens. Mas seu maior acervo costuma ser suas histórias de vida. Tanto que a familiaridade do ator com a região do Araguaia, onde passa a trama das seis da Globo, é para lá de inusitada. Apesar de não conhecer a região, era muito amigo dos irmãos Villas Boas, que praticamente desbravaram a região e documentaram diversos acontecimentos relacionados à antropologia indígena brasileira. Tanto que no quarto centenário de São Paulo, em 1953, eles levaram índios para a cidade e os alojaram na casa dos amigos. "Eu fui um desses amigos que hospedou um índio. Isso é tudo que eu conhecia do Araguaia antes da novela. Me deram um índio de presente", brincou Lima.

Sem estripulias
Sempre disposto na maioria de seus papéis na TV, Lima Duarte ainda sofre as consequências de uma fratura no joelho no início das gravações de Araguaia, da Globo. Tanto que tem feito menos cenas em que monta entusiasmado em seus cavalos. Sem praticar exercícios, o ator ainda se recupera do incidente. "Se me colocarem no cavalo, eu fico, me aguento. Não dá é para ficar subindo e descendo", explicou.

Trajetória Televisiva
# Sua Vida Me Pertence (Tupi, 1951)
# Rosas Para o Meu Amor (Tupi, 1952)
# Sangue na Terra (Tupi, 1954) - Joviano.
# Engenho das Almas (Tupi, 1955) - Belarmino.
# Cleópatra (Tupi, 1962) - Júlio César.
# Um Rosto Perdido (Tupi, 1965) - Cândido.
# A Ré Misteriosa (Tupi, 1966) - Fernando.
# Paixão Proibida (Tupi, 1967) - Santa Maria.
# Beto Rockfeller (Tupi, 1968) - Diretor/ domingos, Duarte/Manoel/Conde.
# O Décimo Mandamento (Tupi, 1968) - Salvador.
# Toninho On The Rocks (Tupi, 1970) - Diretor.
# O Bofe (Globo, 1972) - Diretor.
# Os Ossos do Barão (Globo, 1973) - Egisto.
# O Bem-Amado (Globo, 1973) - Zeca Diabo.
# O Rebu (Globo, 1974) - Boneco.
# Pecado Capital (Globo, 1975) - Salviano.
# Espelho Mágico (Globo, 1977) - Carijó.
# Pai Herói (Globo, 1979) - Oscar.
# Champanhe (Globo, 1983) - Raul.
# Partido Alto (Globo, 1984) - Cocada.
# Roque Santeiro (Globo, 1985) - Sinhozinho Malta.
# O Tempo e O Vento (Globo, 1985) - General Rafael.
# O Salvador da Pátria (Globo, 1989) - Sassá Mutema.
# Meu Bem, Meu Mal (Globo, 1990) - Lázaro Venturini.
# Rainha da Sucata (Globo, 1990) - Onofre.
# Pedra Sobre Pedra (Globo, 1992) - Murilo Pontes.
# Fera Ferida (Globo, 1993) - Emiliano.
# A Próxima Vítima (Globo, 1995) - Zé Bolacha.
# O Fim do Mundo (Globo, 1996) - Ildásio.
# A Indomada (Globo, 1997) - Murilo.
# Uga-Uga (Globo, 2000) - Nikos.
# Porto dos Milagres (Globo, 2001) - Vitório.
# O Quinto dos Infernos (Globo, 2002) - Conde dos Arcos.
# Da Cor do Pecado (Globo, 2004) - Afonso.
# Belíssima (Globo, 2005) - Murat.
# Amazônia - De Galvez a Chico Mendes (Globo, 2007) - Bento.
# Desejo Proibido (Globo, 2007) - Viriato.
# Caminho das Índias (Globo, 2009) - Shankar.
# Araguaia (Globo, 2010) - Max.

Lima Duart vive o poderoso Max em 'Araguaia'
Lima Duart vive o poderoso Max em 'Araguaia'
Foto: Pedro Paulo Figueiredo/Carta Z Notícias / TV Press
Fonte: TV Press
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