Globo confundiu a Censura há 40 anos com novela que tinha pacto com o Diabo
Trama da Globo que confundiu censura ao unir crítica social, suspense e suposto pacto com o diabo entrará no Globoplay na próxima segunda-feira, 10
Em novembro de 1984, a Globo estreava Corpo a Corpo, novela de Gilberto Braga que misturava drama social e mistério sobrenatural. O enredo principal girava em torno de Eloá (Débora Duarte), uma engenheira que enfrentava preconceitos e buscava vingança contra aqueles que tentaram destruir sua vida, mas foi o suposto pacto de Raul (Flávio Galvão) com o Diabo que gerou polêmica e confundiu a Censura Federal. A história completou 40 anos em 2024 e entrará no catálogo do Globoplay na próxima segunda-feira, 10.
Confusão entre censores
O enigmático Raul foi quem causou maior alvoroço, ao insinuar que teria feito um pacto com o diabo para conquistar sucesso e poder. O tema sobrenatural gerou inquietação nos censores da ditadura militar.
Como relatado no livro Gilberto Braga, o Balzac da Globo, dias após a estreia da novela, a emissora recebeu ofícios do Departamento de Censura, exigindo esclarecimentos sobre os supostos eventos sobrenaturais.
Para evitar cortes na trama, Gilberto Braga precisou assegurar formalmente que o "pacto com o diabo" era apenas um ardil do personagem Raul para manipular Eloá.
Obra querida por Gilberto Braga
Como recorda o jornalista Nilson Xavier, do site Teledramaturgia, Braga nunca escondeu o carinho por Corpo a Corpo, até elegendo a novela como sua melhor obra. "Era uma novela extremamente bem-feita, com uma trama bem armada, baseada em histórias de ascensão social e vingança", declarou no livro Autores, Histórias da Teledramaturgia.
Apesar disso, lamentava que a produção não tivesse permanecido no imaginário popular como Dancin' Days ou Água Viva. A audiência, no entanto, refletiu o impacto da trama. Com uma média de 52 pontos no Ibope, teve o melhor desempenho de uma novela das oito na época, ultrapassando Baila Comigo, de 1981.
Do cinema para a televisão
A trama de Eloá e Osmar (Antônio Fagundes), como relembra Xavier, foi inspirada no clássico Nasce uma Estrela, mas adaptada ao contexto da engenharia civil. O casal enfrentava desafios derivados da desigualdade de gênero e de expectativas sociais, com Osmar sendo superado pelo sucesso profissional da esposa.
Curiosamente, quando Gilberto Braga se viu sem saber como continuar a história de Osmar, ligou para Fagundes e deu uma solução inusitada: "O seu personagem acabou. Mas preciso dele no final". O ator tirou uma licença e foi fazer teatro até retornar para a conclusão do personagem.
Mesmo com suas polêmicas e um caminho inesperado para alguns personagens, Corpo a Corpo permanece como um marco da teledramaturgia brasileira pela qualidade do enredo e personagens. Uma novela à frente de seu tempo, que refletia as transformações sociais e explorava o poder da ilusão.