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Na TV, Gabi revela rejeição na infância e conflitos íntimos

31 mar 2015 - 08h47
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Foto: Divulgação/GNT
Foto: Divulgação/GNT
Foto: Sala de TV

Marília Gabriela demonstra ser a mulher mais segura e autoconfiante da televisão brasileira. Não, ela não é.

A negação foi feita pela própria multiartista durante entrevista ao vivo no programa Roda Viva, comandado por Augusto Nunes na TV Cultura de São Paulo, na noite de segunda-feira (30).

Num domingo qualquer, ao se olhar no espelho e desencadear uma crise existencial, Gabi decidiu redescobrir sua história. Contratou a jornalista Sibelle Pedral para colher opiniões sobre ela entre parentes e amigos.

A apresentadora não pretende transformar os relatos das pessoas que fizeram parte de sua vida em autobiografia ou livro de memórias. O material vai virar ficção. Marília Gabriela quer transformar a si mesma em personagem, na busca pelo autoconhecimento.

"Tenho uma identidade totalmente pulverizada", revelou no Roda Viva. "Há sempre uma expectativa em relação a essa Marília Gabriela que nem sei quem é". E insistiu no desabafo: "Virei ideal de pessoas sem eu mesma saber quem sou".

Durante uma hora e meia de conversa na TV, Gabi expôs traços de insegurança inimagináveis em uma quase unanimidade da mídia: "Não me sinto adequada em muitos lugares. Fico em casa".

Até ela, tão famosa e pouco confrontada, admite a necessidade de atuar na vida real: "Nós todos interpretamos algum papel o tempo inteiro. Vivemos vidas de ficção".

Para o público, Marília Gabriela representa uma vida perfeita: sucesso, fama, glamour, paixões. Uma visão utópica. Um dia a apresentadora chegou para seu analista e disse: "A minha vida é um tédio". Depois de anos de divã, recebeu alta. "Mas às vezes ainda acho que minha vida é tediosa".

Gabi confidenciou que a fonte da maioria de seus conflitos está na dolorosa relação com sua mãe, durante a infância. "Talvez eu tenha virado o que virei para fugir de rejeições", conclui. "Eu fui, sou, uma mãe permissiva. Exatamente para fazer o oposto da minha mãe".

Ao mesmo tempo em que lamenta a dureza do vínculo maternal, a apresentadora se mostra agradecida por não fazer parte de um clã falsamente perfeito, como os de comercial de margarina.

"Tive a sorte de nascer numa família desfuncional, com gerações de pessoas desfuncionais". Essa disfuncionalidade parece ter sido fundamental para Marília Gabriela se tornar Marília Gabriela.

Gabi é mãe do jornalista, apresentador e ator Christiano Cochrane, 43 anos, e do ator, DJ, cenógrafo e figurinista Theodoro Cochrane, 36. "Tenho relação de muita verdade com meus filhos. Somos amigos, mas exijo ser chamada de mãe. Sou mais mãe do que amiga".

Mulher sem medo de amar, e amar de novo, e mais uma vez, e quantas vezes foram possíveis, a apresentadora tem uma definição peculiar para o amor: "É uma célula rebelde. Não tem fórmula desenhada, escrita. O amor é imoral, não tem regras estabelecidas".

No momento, lê 'Amor Líquido - Sobre a Fragilidade dos Laços Humanos', do sociólogo polonês Zygmunt Bauman. Como o título e o subtítulo adiantam, é uma análise sobre a superficialidade do contato entre as pessoas em tempos de conectividade virtual extrema.

A relação de Gabi com os entrevistados continua sendo olho no olho. Não é fácil enganá-la. "O som de uma mentira é diferente do som de um desabafo, de uma resposta verdadeira", explica. "Sou um ser humano confiável. Muita gente não é. Hoje sei de tanta gente que mentiu pra mim em entrevista."

A paixão pela televisão não é a mesma: "Esse ano me deu uma vontade de parar." (Em janeiro, deixou o programa De Frente com Gabi, no SBT; permanece com sua atração no GNT.) "E talvez abandone mais alguma coisa daqui a pouco."

Em sua casa sintoniza apenas séries de ficção em canais pagos. "Não vejo televisão aberta. Faço televisão, mas não assisto minhas entrevistas. Não assisto ao que faço nem em teledramaturgia".

A própria Marília Gabriela oferece uma explicação: "Sou tão autocrítica, sou cruel comigo mesma. Lido com dificuldade com elogios".

Em outro momento, complementa a análise da dificuldade em se ver na TV: "Eu sei quando não fiz bem alguma coisa. Acho muito complicado ser inteligente, ter senso crítico".

No centro do Roda Viva, programa do qual foi apresentadora entre 2010 e 2011, ela assumiu a dificuldade em ocupar a posição de entrevistada: "Tenho uma mente inquisitiva. Quando respondo alguma coisa, dou uma volta na pergunta. É defesa. Fico desconfortável, desconfiada".

Entre outros assuntos, Gabi falou também sobre males sociais que a incomodam: "Homofobia, racismo, misoginia, tudo isso é produto de ignorância. É ignorar a natureza humana, é ignorar como ela existe de fato. É produto de medo também".

Ao contrário da imagem pública (e daquela voz!) um tanto intimidativa, ela afirma ser descontraída na intimidade: "Adoro que riam de mim. Os homens que amei foram homens que riam de mim".

Atuar em comédia, seja na TV ou no teatro, tem um significado especial para Marília Gabriela: "Fazer rir é resultado de uma intrínseca solidão". E a felicidade? "Essa felicidade tão perseguida, e nunca alcançada, é um conceito terrível."

Em 31 de maio Gabi completará 67 anos. A jornalista se sente no meio de uma travessia: "Ainda tenho muito chão a percorrer em relação à maturidade".

Onde ver Gabi?

.Programa 'Marília Gabriela Entrevista', no canal GNT, aos domingos, às 22h.

Mais informações:

.Peça 'Vanya e Sonia e Masha e Spike", em cartaz no Teatro FAAP, em São Paulo, às sextas (21h), sábados (17h e 21h) e domingos (17h), sob a direção de Jorge Takla.

Outras informações:

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