Letícia Sabatella faz sua primeira vilã em 'Caminho das Índias'
Durante muito tempo, Letícia Sabatella encarnou na tevê personagens tão bondosas e, muitas vezes, com traços religiosos, que parecia a um passo da canonização. Mesmo quando era escalada para interpretar tipos mais vulgares ou imorais, como garotas de programa, seus papéis ganhavam traços suaves e delicados. Mas ela espera que essa imagem esteja definitivamente enterrada com as vilanias da sedutora Yvone, de Caminho das Índias.
Na história de Glória Perez, a psicopata tem um passado misterioso, mente que é médica e, desde os primeiros capítulos, apunhala pelas costas a suposta melhor amiga Sílvia, de Débora Bloch. Um tipo bem diferente da romântica Ana, de Desejo Proibido, ou da noviça Lavínia, que encarnou em Páginas da Vida. "Eu estava precisando voltar de outro jeito. Tinha de ser uma surpresa para todos", explica.
A astúcia impressa no texto de Yvone é tanta que Letícia diz que faz questão de conversar com Débora Bloch de vez em quando. Segundo ela, para que as duas evitem que Sílvia apareça como boba demais no ar. "É importante que fique bem claro para o público que a minha personagem tem esse poder de enganar e seduzir muito forte. Não é a Sílvia que é uma burra", enfatiza.
Quando a Glória Perez chamou você para integrar o elenco de Caminho das Índias ela lhe ofereceu um papel indiano. Por que você pediu para ficar no núcleo brasileiro?
É verdade, mas de cara ela me disse que tinha duas opções para mim. Não sei que papel indiano eu poderia fazer, mas quando soube que o outro era daqui, soltei um "puxa, não aguento mais interpretar mulheres que rezam. Estou fazendo uma atrás da outra". Ao ouvir isso, ela me falou da Yvone e eu não tive dúvidas de que seria uma personagem forte e que faria com que o público e os próprios colegas da emissora me enxergassem com outros olhos.
Você achava que as pessoas enxergavam você como uma mulher com cara de boazinha, de religiosa?
Não sei explicar isso. E sempre faço questão de dizer que fiz bons papéis. Todos tinham suas particularidades, não caíam na mesmice. Tive experiências com personagens amorosas, maternas, sensíveis, com um lado feminino muito forte. Mas é divertido ver o contrário também. Interpretei mulheres más no cinema e no teatro. Até na tevê também, em Hoje é Dia de Maria 2 eu encarnei uma diaba, mas é diferente de novela. Nos folhetins, você fica muito tempo no inconsciente coletivo. O trabalho é mais difícil, você tem de fazer com que acreditem naquilo sem soar falso.
Como você faz isso em Caminho das Índias?
A personagem proposta pela Glória tem esse lado de ludibriar mesmo. Ela fala com verdade. A ponto dos que estão ao redor acreditarem. Esse lado manipulador e sedutor dela me ajuda nessa função. E acho que o contraponto feito na novela entre os indianos e os brasileiros dá ainda mais força às atitudes da Yvone.
De que forma?
A Glória explora bem a rotina de duas famílias, uma indiana e uma ocidental. O clã dos Cadore funciona como uma espécie de paralelo para a história indiana. Tem dois irmãos que trabalham juntos, como na família do Opash, papel do Tony Ramos, mas que brigam. Um idoso na Índia, vivido pelo Flávio Migliaccio, que sempre tem a palavra final, e o brasileiro, do Elias Gleizer, que não é respeitado, não tem espaço. A Yvone entra nessa ilusão do consumo, da busca pelo poder individual. O cenário dela é Dubai, centro de grandes empreendimentos comerciais, para onde ela vai com o Raul. Ela é vestida e cenografada dessa forma. A novela fala de valores individuais e coletivos. E sobre o fato de vivermos em um mundo onde o consumo rege as mentes e os corações. A Yvone simboliza claramente isso.
Mas sua personagem também é usada na campanha social para diferenciar a esquizofrenia da psicopatia...
Sim, e eu sempre pensei nela dessa forma. Mas não é só uma questão de campanha, também tem uma dramaturgia muito rica no texto dela. O que a novela quer é defender a idéia de que um psicopata não tem delírios, age por uma razão. Mas é engraçado, nada mais louco do que alguém tão egoísta assim, que só pensa em poder, em se dar bem. Eu costumo refletir muito sobre isso. Às vezes fico até preocupada.
Com o quê?
A minha cabeça fica a mil por hora. Penso sobre o egoísmo, o mal, o quanto o modo de vida que a gente tem é capaz de gerar psicopatas. Será que eles nascem assim? Ou se endurecem a ponto de se transformarem em máquinas de cumprir planos e conquistar coisas? Fico pensando sobre isso o tempo todo. O mal em mim, o mal no sistema...
Como o público reage às cenas da Yvone?
O que mais ouço é a expressão "lobo em pele de cordeiro". Mas o engraçado é que eu percebi que a Yvone provoca uma sensação de "déjà vu" em muitas pessoas. Quase todo mundo conta que já conheceu alguma "Yvone". Mas ainda não rolaram lamentações, como a mulher que foi traída pela melhor amiga, essas coisas. As pessoas conseguem perceber com clareza que se trata de uma personagem sem qualquer resquício de bondade.
Já chegou a ser repreendida por alguém nas ruas?
Não, as pessoas que encontrei até agora souberam diferenciar bem. Percebo que a maioria do público que me aborda, de uma certa forma, se diverte com o prazer que a Yvone demonstra ter ao fazer maldades. Ninguém defende a personagem, mas muita gente tem uma empatia pela história do núcleo dela. Pelo menos até agora, tudo que recebo são elogios e muitas brincadeiras. Nem um empurrãozinho de leve eu percebi.
É difícil interpretar uma vilã que não se humaniza em nenhum aspecto?
Isso é muito louco. Porque temos exemplos de grandes vilãs que, de alguma forma, tinham sua maldade justificada. A que roubou uma criança, mas desenvolveu amor por ela. Ou a que buscava vingança em memória da mãe, quase sempre tem um motivo que justifica. Mas com a Yvone, não existe qualquer brecha. Mas também não sei se já tentei enxergá-la numa forma mais humana. Vejo a Yvone como uma espécie de Iago - da tragédia Otelo, de William Shakespeare. E, por mais incrível que pareça, consigo aprender com ela.
O que você aprendeu até agora?
Outro dia eu estava cansada e fui para a casa com a maquiagem da Yvone. Depois, percebi que estava meio blasé. Aí chegou uma pessoa conhecida para falar algo ruim comigo e eu fiquei diferente. Não cedi, me vi forte. A Yvone me fez experimentar um pouco a força do "não". Minha cabeça é divagadora, delirante... Me derreto muito. Acho que estudar sobre a psicopatia me faz pensar de forma mais astuta, maliciosa. Estou com mais coragem para colocar os pingos nos "is". E isso não é fácil, porque sempre fui muito indecisa.
A novela Caminho das Índias vai ao ar de segunda a sábado às 21h na Globo.
Maturidade assumida
Aos 37 anos, Letícia Sabatella se orgulha do extenso currículo que conquistou na tevê. A atriz estreou nas novelas na pele da inocente prostituta Taís, em O Dono do Mundo, em 1991, e desde então não parou mais. Dois anos depois, reapareceu na tevê, novamente na pele de uma garota de programa, Salete, em Agosto, seu primeiro trabalho com Glória Perez.
Na época, Letícia acabara de passar pela experiência de, aos cinco meses de gestação, dar à luz Clara, fruto de seu casamento com o também ator Ângelo Antônio. A menina precisou ficar três meses internada até poder sair do hospital. "Já passei por várias experiências na vida que me fizeram amadurecer muito", suspira, sem perder o ar angelical.
A primeira protagonista veio em 1994, na novela 74.5 - Uma Onda no Ar, exibida pela Manchete. No ano seguinte, voltou para a Globo, também para protagonizar, ao lado de Marcos Palmeira, o "remake" de Irmãos Coragem. Foi sua primeira experiência, como ela mesma se refere, com "mocinhas que rezam".
Mas o "ápice" da fase de personagens religiosas aconteceu mesmo em 2006, quando encarnou a noviça Lavínia em Páginas da Vida. O papel não cresceu tanto quanto o autor Manoel Carlos prometeu na época do lançamento. E, por ironia do destino, foi responsável pela perda de um trabalho que poderia ter marcado a atriz na tevê. Ela era uma das opções de Gilberto Braga para interpretar as gêmeas Taís e Paula em Paraíso Tropical, depois de noticiada a gravidez da então escalada Cláudia Abreu. Mas como Letícia estava no ar na trama de Maneco, Alessandra Negrini faturou a oportunidade de encarnar as irmãs.
Agora que conseguiu sua primeira vilã em folhetins, Letícia espera continuar diversificando suas atuações. "Não quero fazer sempre a má ou a boa. Só desejo o que venho conseguindo: a diversidade mesmo dentro de perfis que possam parecer semelhantes", afirma.
Reações inesperadas
O envolvimento de Letícia com a história de Caminho das Índias tem sido tão forte que a atriz faz questão de assistir às cenas de Yvone. E diz que, algumas vezes, chega a se emocionar com o sofrimento causado pelas maldades que sua personagem comete. "Já chorei algumas vezes vendo o drama da Sílvia na tevê. Coisa de telespectadora mesmo. Acho que esse é um dos trabalhos mais importantes que já fiz", elogia.
Nos próximos capítulos vão ao ar as cenas que Letícia e Alexandre Borges, que interpreta o indeciso Raul, gravaram em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos. Os dois viajaram para lá pouco tempo depois que a equipe da trama de Glória Perez voltou da Índia. "É um lugar que tem tudo a ver com a Yvone, cheio de grandes empreendimentos comerciais", opina ela, sem adiantar o que vai acontecer nessa nova fase da personagem.
Trajetória Televisiva
O Dono do Mundo (Globo, 1991) - Taís
Agosto (Globo, 1993) - Salete
74.5 - Uma Onda no Ar (Manchete, 1994) - Luiza
Irmãos Coragem (Globo, 1995) - Lara/Diana/Márcia
Torre de Babel (Globo, 1998) - Celeste
A Muralha (Globo, 2000) - Ana Cardoso
Porto dos Milagres (Globo, 2001) - Arlete
O Clone (Globo, 2001) - Latiffa
Um Só Coração (Globo, 2004) - Maria Luísa
Hoje É Dia de Maria (Globo, 2005) - Maria
Hoje É Dia de Maria 2 (Globo, 2005) - Alonsa/Rosicler/Asmodéia
JK (Globo, 2006) - Marisa
Páginas da Vida (Globo, 2006) - Irmã Lavínia
Desejo Proibido (Globo, 2007) - Ana
Som Brasil (Globo, 2008) - Apresentadora
Caminho das Índias (Globo, 2009) - Yvone