'Law & Order' chega ao fim, mas série não será esquecida
- Alessandra Stanley
A série Law & Order deveria ser permanente, e o fato de que quase o tenha conseguido -20 temporadas é uma eternidade, em tempo de televisão- não atenua o impacto do anúncio da rede NBC quanto ao seu cancelamento.
Não que a série vá de fato acabar. Episódios novos não são necessários enquanto houver reprises. Um dos motivos para que a atual temporada não esteja indo bem é que ela mesma na verdade leva jeito de reprise. Não há necessidade de correr para casa a fim de não perder o novo episódio, ou de desperdiçar espaço no gravador digital de vídeo: afinal, logo será possível vê-lo de novo nas reprises da TNT e outros canais de cabo. Como o sinal de "aberto" em delis coreanas ou a chama eterna no Cemitério Nacional de Arlington, Law & Order nunca se apaga.
Em 2002, Michael Kinsley escreveu um artigo engraçadíssimo para a revista Slate no qual falava sobre o vício de sua mulher em reprises de Law & Order. "Fora as reprises da série, ela quase não se interessa por TV", ele afirmou. "Nem mesmo por episódios novos de Law & Order. Ela não sabe em que dia o seriado passa, e não tem opinião sobre a situação de um país no qual um homem como Fred Thompson pode ser retirado da obscuridade no Senado e escalado para o importante papel de promotor público na série".
Mesmo quem ganha a vida assistindo TV pode se deixar fascinar pelas reprises, ainda que o dever nos obrigue a assistir a American Idol ou a um documentário sobre a indústria do petróleo na rede pública PBS. Quando uma série dura 20 temporadas, é possível assistir a um mesmo episódio diversas vezes e nunca lembrar quem matou. Uma das poucas recompensas de uma má memória é que até a terceira reprise parece nova.
Dick Wolf se inspirou na série Dragnet quando criou o conceito, e a fórmula engenhosamente rígida que desenvolveu sobreviveu a todas as mudanças de elenco, astros convidados e caprichos dos produtores. A cada temporada, uma nova beldade substituía a predecessora entre os promotores, um detetive durão ironizava os casos, um promotor distrital comandava o espetáculo e os juízes passavam pela tela como pacotes sendo encaminhados em uma esteira rolante dos correios. E a série se mantinha a mesma -uma ode a todas as coisas aterrorizantes que podem acontecer em Nova York.
O elenco atual, com Jeremy Sisto como o principal detetive, Anthony Anderson como seu parceiro engraçadinho e Linus Roache como o promotor público intenso, lembra bastante o da primeira temporada, com Chris Noth, George Dzundza e Michael Moriarty.
Mas se bem a série vicie, ela nunca contagiou. Dado seu sucesso inicial e sua longevidade, surpreende que tenha sido tão pouca imitada em sua austeridade e ênfase quanto à forma, de preferência ao desenvolvimento de personagens.
As séries derivadas, como Law & Order: Criminal Intent e Law & Order: SVU se aprofundam sentimentalmente nas vidas pessoais dos heróis e heroínas. O mesmo se aplica à linha CSI, que supostamente deveria tratar da ciência forense e da racionalidade mas na verdade é só uma novela com personagens de jaleco e iluminação mais caprichada.
Os novos seriados policiais são ainda mais fantasiosos. The Mentalist, no qual o detetive depende menos das provas e mais dos instintos, deveria se chamar Charme e Intuição. O foco nas provas e no procedimento judicial que Law & Order adotou parece quase obsoleto na era em que as vidas pessoais regem as histórias criminais.
Seriados como Bones giram muito mais em torno da química romântica entre os personagens principais do que da antropologia forense que deveria ser o tema. Law & Order sempre manteve uma admirável contenção. Os casos de amor e as vidas domésticas difíceis são mencionados de passagem, e exibidos raramente.
A exceção notável, na atual temporada, é a luta da tenente Anita Van Buren, a chefe da delegacia interpretada por S. Epatha Merkerson desde 1993. Premiada com um Emmy por Lackawanna Blues, um filme da HBO em 2005, a atriz jamais conquistou um prêmio por seu trabalho em Law & Order.
A situação de saúde dela talvez altere esse retrospecto: Van Buren continua a trabalhar valentemente, enquanto passa por uma quimioterapia e tenta enfrentar suas crescentes despesas médicas. Nenhum truque sentimental passa em branco: ela sofre de câncer de colo de útero e a causa é HPV, um vírus que lhe foi transmitido por seu ex-marido traidor. Isso torna ainda mais difícil para a discreta e orgulhosa tenente aprender a confiar em seu leal namorado.
Mas nem mesmo o recurso ao melodrama nesses aspectos menores da narrativa viola a santidade da fórmula. Law & Order não muda e não hesita.
A NBC anunciou que transferiria o conceito ao outro lado do país na nova temporada, com Law & Order: Los Angeles. Mas isso não é uma simples mudança de locação, e sim mais uma série derivada. A Law & Order original viverá por muito tempo, com ou sem cancelamento.