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Homotransfobia de Ferette pode esconder segredo ‘babadeiro’ e simboliza o hétero top frágil

Personagem reproduz um tipo muito comum na sociedade das aparências e deve receber lição disciplinar

2 fev 2026 - 08h28
(atualizado às 08h28)
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Ao receber a visita do tresloucado Crô (Marcelo Serrado) no quarto do hospital, Ferette (Murilo Benício) reage com o preconceito de sempre.

“Dê mais um passo, e eu grito”, ameaça.

O ex-mordomo gay, ressuscitado de ‘Fina Estampa’, não se intimida. “Vai, grite, ai, aaaaaai!”, dispara. “Bote pra fora, solta a franga!”

Em algumas cenas, o empresário tem mesmo demonstrado trejeitos, o que levanta a suspeita de que os autores preparam uma revelação sobre a sexualidade do pai de família exemplar.

Corrupto e elitista, o personagem amplia sua vilania ao rejeitar o amor do filho por namorar uma trans e o da filha por se relacionar com outra mulher.

Ferette é a personificação do conservador homofóbico e transfóbico que agride para sustentar sua imagem pública. 

À luz da psicanálise freudiana, especialmente das ideias desenvolvidas em ‘Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade’, a homotransfobia ostensiva do “hétero exemplar” revela mais sobre o agressor do que sobre a vítima.

O fenômeno opera por dois mecanismos centrais: a formação reativa, que transforma o desejo inaceitável em aversão exagerada, e a projeção, que desloca para o outro o impulso que o sujeito não suporta reconhecer em si mesmo.

Nesse contexto, impulsos recalcados não desaparecem — retornam como agressividade ou zelo moralista. A violência torna-se um escudo: quanto maior o conflito interno, mais ruidosa é a condenação externa. O ataque ao outro serve, no fundo, para silenciar uma angústia própria que insiste em reaparecer.

O preconceito de Ferette (Murilo Benício) com gay, lésbica e trans pode esconder um lado da própria sexualidade dele
O preconceito de Ferette (Murilo Benício) com gay, lésbica e trans pode esconder um lado da própria sexualidade dele
Foto: Fotomontagem: Sala de TV

No meio LGBT+, comenta-se que há mais ‘héteros’ com vida dupla — se relacionando em sigilo com outros homens (a famosa ‘broderagem’), travestis e transexuais — do que gays declarados. 

Esse tipo de construção dramática não é novidade na obra de Aguinaldo Silva. Militante gay na juventude, o autor já explorou, em outras obras, a figura do moralista que condena a orientação sexual alheia. O próprio Crô sofreu nas mãos do motorista agressivo Baltazar, o Zoiudo, em ‘Fina Estampa’.

Já em ‘Império’, Enrico (Joaquim Lopes) era cruelmente homofóbico com o próprio pai, Claudio (José Mayer), que mantinha um casamento com mulher, mas, com a cumplicidade dela, saía com homens.

Outra trama de denúncia de intolerância foi vista em ‘Suave Veneno’. O místico Ualber (Diogo Villela) tinha de lidar com a discriminação lançada pelo pai, Genival (Jorge Doria).

Aliás, os dois tiveram um diálogo que se tornou histórico na teledramaturgia. Ao ser repreendido em razão do preconceito, o idoso se revolta com o filho. “Engraçado, vou ganhar uma lição de macheza de uma bicha”, diz, debochado. 

“Bicha, não!”, responde Ualber. “Para o senhor, dona bicha. Dona! Porque me dou o respeito. Bicha mesmo, gay, homossexual. Mas, sobretudo, macho. Muito mais do que o senhor soube ser.”

Atrás de sua heterossexualidade aparentemente frágil, Ferette merece receber a mesma medida pedagógica. Para aprender a respeitar a diversidade ou, quem sabe, enfim ‘sair do armário’.

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