"É diferente de tudo que já fiz na TV", diz Jorge Fernando sobre 'Divertics'
De personalidade exagerada e intensa, Jorge Fernando está sempre de olho em algum futuro projeto. Acostumado ao esquema complexo e industrial das inúmeras telenovelas que vem comandando ao longo dos anos – caso de Caras & Bocas, Ti-Ti-Ti e da nova versão de Guerra dos Sexos –, o diretor está, desde março, mergulhado no processo diferente e artesanal que resultou em Divertics. O programa, que tem previsão de estreia para domingo, dia 8 de dezembro, foi feito em parceria com o roteirista Cláudio Torres Gonzaga e aglutina esquetes cômicos, música, circo e auditório. Tudo feito em formato de teatro de arena. "Demorou, mas saiu! O programa é diferente de tudo o que eu já fiz na tevê. Precisei desse tempo de preparo para adequar o meu olhar de diretor ao esquema aberto e múltiplo da produção", explica.
Carioca nascido e criado no subúrbio de Del Castilho, Jorge Fernando estreou na tevê há exatos 35 anos, no seriado Ciranda, Cirandinha, exibido pela Globo em 1978. Não demorou muito para que sua curiosidade sobre os bastidores dos estúdios o levasse para a função de diretor. Em 1981, sob a batuta de Roberto Talma, codirigiu Jogo da Vida, de Silvio de Abreu, autor que, ao longo dos anos, se revelaria um de seus maiores parceiros artísticos. Juntos, foram responsáveis por sucessos como Cambalacho, Rainha da Sucata e A Próxima Vítima. "Tenho a impressão de que fui aprimorando minha assinatura a cada trabalho. Hoje, seja qual for o formato ou gênero, o público consegue identificar quando a direção é minha. Isso me dá o maior orgulho", entrega Jorge, exibindo vitalidade invejável aos 58 anos de idade.
Veja a entrevista completa:
Seu nome é bastante associado a novelas e séries de forte apelo cômico, casos de Guerra dos Sexos e Minha Nada Mole Vida. Como você encara a oportunidade de fazer um programa de variedades onde a comédia é o centro das atenções?
Jorge Fernando – É um respiro para a minha trajetória. Adoro fazer shows e, mesmo assim, fiz poucas coisas do tipo na Globo: umas cinco edições do Criança Esperança, outras de Roberto Carlos Especial e algumas produções com a Xuxa. A nova versão de Guerra dos Sexos foi minha 35ª novela. Então, é um projeto novo para mim, onde deposito muitas ideias que surgiram enquanto eu estava dirigindo as tramas do Silvio (de Abreu), do Walcyr (Carrasco) e da Maria Adelaide Amaral. Tenho 58 anos e a minha mente não para. Encaro o Divertics como uma oportunidade de agregar novas experiências à minha trajetória.
Além de dirigir, em Divertics, você participa ativamente dos quadros também como ator. Isso torna as gravações mais complexas?
Jorge Fernando – Atuar em produções que eu dirijo é uma constante na minha vida. Os autores com que trabalho até já escrevem um personagem para uma possível participação especial. Eu adoro participar, mas confesso que é uma coisa meio louca. Penso totalmente diferente quando estou na posição de ator. No Divertics, é claro, eu apareço na frente do vídeo, mas muitas vezes na versão diretor, comandando e participando da cena. Como não tem um personagem inteiro para encenar, a coisa fica mais solta e divertida.
Divertics foi originalmente concebido como um programa de esquetes cômicos pelos roteiristas Claudio Torres Gonzaga e Marcius Melhem. Como você entrou no projeto
Jorge Fernando – A Globo precisava de um diretor para essa ideia e acabou me escalando. A ideia original da dupla era um pouco diferente. A partir desse processo embrionário, o programa acabou tomando novos rumos. Virou um grande show, pois juntei um desejo antigo com a ideia inicial. A partir disso, o elenco que foi sendo agrupado para o projeto também teve outras ideias. Estamos trabalhando de maneira muito intuitiva, onde todas as boas ideias podem ser aproveitadas. Nada é totalmente fechado.
No meio do processo, Marcius Melhem acabou saindo do projeto. Houve alguma divergência artística entre vocês?
Jorge Fernando – Divergência sim, mas não teve briga. O Marcius só achou que o projeto tomou uma proporção que ele não gostaria de trilhar. De fato, fiz mudanças estruturais e abri o "leque" de possibilidades da ideia. Ele já estava envolvido em outro projeto e resolveu se dedicar exclusivamente a ele. Divergências são comuns, mas não ficou nenhuma mágoa. Ele, inclusive, será uma das participações especiais da temporada.
Qual foi sua principal contribuição para a produção?
Jorge Fernando – Eu dei a cara de show ao Divertics. O programa tinha um potencial apenas humorístico e, ao lado do Cláudio, consegui ir além da piada. A ideia básica era a questão do esquete cômico em construção. Por isso que o cenário é composto por tantos contêineres, como se estivéssemos dentro de um galpão. Agora, o programa envolve música, circo, dança, teatro e público. E já adianto: o programa não precisa ser engraçado, mas, sobretudo, precisa entreter.
Você acredita que o formato de programa de auditório, já tão utilizado pela atual grade da Globo, é o ideal para o Divertics?
Jorge Fernando – Existe uma tendência mesmo dentro da emissora de formatar diversos programas de auditório. Acho que ter o público presente valoriza a produção. Na Globo, nos últimos 10 anos, quase todo o investimento em humor foi feito no formato de seriados, histórias semanais, dramatúrgicas e com toque de comédia. Eu mesmo dirigi e atuei em alguns, como o Minha Nada Mole Vida e o Macho Man. O legal do Divertics é a abrangência. Dá para homenagear desde a Sexta Super, do Vanucci (Augusto César, diretor), a TV Pirata, passando por outros programas e todo o tipo de humor, inclusive, o da internet.
O programa foi encomendado para cobrir as férias do Esquenta!. Você acha que o domingo é o melhor dia para o tipo de humor proposto pela produção?
Jorge Fernando – Com certeza! O dia e o horário são perfeitos. É aquele momento depois do almoço, onde a família está reunida e querendo ver alguma coisa leve. E a gente ainda tem a facilidade de entrar para substituir as férias do Esquenta!, que tem uma audiência bem estabelecida na grade.
Em compensação, é possível que o horário limite a liberdade de conteúdo do Divertics?
Jorge Fernando – Nem um pouco. Até porque o programa já nasce com o desejo de ser "família". Essa questão do politicamente correto ou de uma possível "patrulha" é uma grande besteira. Existem vários tipos de humor e milhões de maneiras de driblar uma possível censura com texto de qualidade. Ao contrário do humor feito no cinema, no teatro e principalmente na internet, o que é feito na tevê entra na casa do público sem pedir licença. Então, não dá para falar o que der na telha. É preciso ter cuidado, mas não chega a bloquear a minha criatividade, nem a dos autores ou do elenco. Na base de muito trabalho, a gente tenta se comunicar com o público diverso do horário. Cada um vai fazer uma leitura do que a gente entrega.
Em caso de boa audiência, o programa pode ganhar uma sobrevida, além dos 18 episódios previstos?
Jorge Fernando – A ideia inicial é só mesmo cobrir as férias do programa da Regina (Casé). Eu não conseguiria ficar sem fazer novela. Já tenho a previsão de voltar em 2014 para assumir a direção de uma das candidatas à faixa das sete da noite. Fazer novela, conceber o tom e a escala das imagens é de uma complexidade deliciosa. No meu projeto atual, só trabalho com humor. Já nas novelas é necessário dosar drama, comédia, romance, ação e mistério. É algo que eu preciso fazer sempre.
Em 2013, você completa 35 anos de Globo. Com tantos anos de carreira, como lida com estreias, vitórias e fracassos de sua trajetória?
Jorge Fernando – Uma hora eu vou morrer. Essa sensação de finitude me faz não ter receio de me expor. A vida tem de ser mais aproveitada e, se você ficar carregado de pretensões ou se sentindo "o máximo", acaba se sentindo na obrigação em ser brilhante. Isso não agrega em nada. Não preciso mais mostrar que eu posso ser bom. Eu torço para as coisas darem certo. Se não dão, paciência! Mas tenho claro na minha mente que nenhum autor e diretor se juntam pensando: "Vamos fazer um programa que vai ser uma merda?" (risos).
Faixa cômica
Jorge Fernando é peça importante na criação do que hoje se entende como "novela das sete". É dele boa parte do olhar sobre os textos de novelas oitentistas consideradas como "bases" para o tom de humor que a faixa agrega à programação. Em parceria com autores do quilate de Silvio de Abreu, Carlos Lombardi e, sobretudo, do falecido Cassiano Gabus Mendes, Jorge dirigiu ou codirigiu clássicos como Cambalacho, Vereda Tropical e Que Rei Sou Eu?, respectivamente. "O texto era o grande diferencial da época. Não que hoje a tevê seja carente de grandes autores, mas a segunda metade dos anos 1980 foram propícias para uma criação mais livre", acredita.
Nas décadas seguintes, o diretor experimentou outros horários, como o das oito em Rainha da Sucata e A Próxima Vítima, nos anos 1990, e o das seis, em uma bem-sucedida parceria com Walcyr Carrasco em tramas como Chocolate com Pimenta, de 2003, e Alma Gêmea, de 2005. No entanto, não esquece do horário que o consagrou. E elege como um de seus trabalhos preferidos na faixa a controversa As Filhas da Mãe, exibida em 2001. "O público, infelizmente, não entendeu a proposta arrojada da novela e a trama não teve muito sucesso. Mas tínhamos uma história forte e um elenco maravilhoso", conta.
Ar de suspense
Jorge Fernando está sempre pensando no futuro e foge de qualquer dose exagerada de saudosismo. Mas admite que tem assistido a alguns capítulos da mítica A Próxima Vítima, novela que dirigiu em 1995 e que, atualmente, é reprisada pelo canal pago Viva. Entre as boas lembranças da época, o diretor aponta que a novela deu um novo gás ao já "batido" "quem matou?". "O público e a imprensa também tentavam descobrir qual seria o próximo personagem a morrer. A novela era muito bem amarrada e todos os capítulos recheados de mistério", ressalta.