Cobertura do SBT sobre morte dos Mamonas bateu a Globo em audiência: 'Difícil manter neutralidade'
Emissora alcançou 47 pontos no Ibope ao inovar com jornalismo em tempo real durante o programa 'Domingo Legal'
Os veículos de comunicação brasileiros não estavam preparados para uma cobertura tão intensa quanto àquela que teria início no dia 3 de março de 1996 e terminaria dias depois. No auge da fama, a banda Mamonas Assassinas havia sofrido um acidente aéreo na Serra da Cantareira, em São Paulo, após uma arremetida mal sucedida na noite do dia 2 de março de 1996, às 23h45.
- Essa reportagem faz parte do especial Mamonas Assassinas - 30 anos de saudade, que traz histórias e relembra momentos do grupo que conquistou o Brasil
Pioneiro na cobertura jornalística de helicóptero, José Hamilton Alves da Rocha, o comandante Hamilton, havia acabado de pousar no Rio de Janeiro, na manhã do dia 3, quando recebeu uma ligação do apresentador Augusto Liberato, o Gugu, pedindo que ele retornasse para São Paulo, pois a aeronave que transportava a banda havia caído.
"Estava indo para o Rio jogar os paraquedas com prêmios. Tinha acabado de pousar e o Gugu estava tentando falar comigo. Quando entrei no saguão do aeroporto, ele me ligou e disse: 'Teve um acidente com o avião do Mamonas. Você precisa voltar para São Paulo'. Eu falei: 'Nossa, o que aconteceu? Estão machucados?'. E ele me respondeu: 'Não, eles morreram'. Fiquei muito chateado", relembra em entrevista ao Terra.
Reconstituição da queda do avião
Análise passo a passo a manobra de arremetida e colisão; clique no botão abaixo para ver a simulação
Análise do Radar
Inicie a simulação para observar o comportamento da aeronave PT-LSD nos momentos finais.
23:02 • A CHEGADA
Tempo fechado em Guarulhos. Condições meteorológicas desfavoráveis para pouso visual.
23:05 • ARREMETIDA
O piloto decide arremeter por falta de visibilidade. O avião ganha altitude novamente.
23:14 • ERRO DE CURVA
A torre solicita curva à direita, mas a aeronave curva à esquerda, em direção à Serra.
23:16 • COLISÃO
Impacto no Morro do Chapéu. Fim da trajetória da banda Mamonas Assassinas.
Mal sabia ele que participaria de um dos maiores marcos da história da TV brasileira. Naquele dia, o SBT ultrapassaria a Rede Globo, sua principal concorrente, em audiência. O Domingo Legal registrou uma média de 47 pontos de Ibope na cobertura do acidente. O número pode ser comparado a audiência de uma final de Copa do Mundo.
A média do programa dominical da emissora de Silvio Santos era de 18 pontos. Além de uma entrevista com o então governador de São Paulo, Mário Covas, Gugu levou para o palco a vidente Mãe Dináh, que supostamente teria previsto o acidente e a morte do quinteto, enquanto a Rede Globo registrava apenas 13 pontos de audiência.
Naquela época, o grupo tinha um espaço especial no Domingo Legal, do SBT, apresentado por Gugu. Eles haviam feito diversas aparições no programa ao longo do curto período de fama que tiveram. "Eles eram muito legais, muito alegres. Eles agitavam o domingo. O programa virava deles e o Gugu sempre abria o palco para a banda. O programa estava indo bem e o importante era o time ganhar, não importava quem fazia o gol, o importante era a audiência e o programa se tornava um líder quando os Mamonas entravam."
Era inacreditável a notícia de que Dinho, Bento Hinoto, Júlio Rasec, Sérgio Reoli e Samuel Reoli haviam partido tão jovens. Ao chegar em São Paulo, comandante Hamilton pegou uma aeronave e decolou juntamente com um cinegrafista para a Serra da Cantareira.
"Era um negócio absurdo, eu nunca tinha visto um acidente dessa forma. O avião foi cortando as árvores como se fosse um disco. Você tinha rastros de árvores, galhos, tudo misturado e não dava pra ver o avião. Olhando mais de perto, dava pra ver umas partes brancas, que eram do avião. O acidente foi muito violento. O impacto foi maior porque eu conhecia eles", lamenta.
Uma imagem muito chocante a qual o comandante não consegue esquecer o deixou bastante chateado. Enquanto o Corpo dos Bombeiros tentava resgatar os corpos dos Mamonas, havia outras pessoas que tentavam pegar pedaços do avião e levar para casa. Segundo o piloto, foi uma cena inesquecível justamente pela falta de sensibilidade de quem chegou perto dos destroços.
"Você pensa: 'Caramba, o cara quer levar pra casa um pedacinho de recordação do acidente'. A polícia teve que isolar e tirar as pessoas de lá. Não entendiam que era importante fazer uma recomposição porque era preciso entender o que causou o acidente. O sentimento era muito forte, eu conhecia aquelas caras e sabia que não sobraria nada. Como enterrariam eles? Eles eram tão crianças, tão brincalhões e faziam a alegria de todo mundo. Foi uma sequência de choques que era difícil você manter a neutralidade jornalística", acrescenta.
Apesar da emoção, o comandante ressalta que é preciso se manter firme no emocional para não prejudicar o trabalho, principalmente enquanto ele pilota uma aeronave. "Vem uns lapsos emocionais, você precisa cortar. Se não, você não consegue pousar. Quando o Gugu morreu, eu estava voando e comecei a fazer algumas perguntas. Eu tive que pousar para não colocar a vida das pessoas em risco. Você não podem se envolver emocionalmente na ocorrência que você está fazendo", afirma.
A cobertura do SBT naquele dia 3 de março de 1996 foi intensa. Gugu avisou que a programação inteira seria dedicada ao acidente dos Mamonas Assassinas. Na época, era complicado fazer transmissão ao vivo diretamente do helicóptero, então havia toda uma logística para a emissora passar o material em "tempo real".
"Eu parava, abastecia, subia de novo e nós ficávamos o dia inteiro lá. Nos gravávamos e depois pousávamos no SBT. Pegavam o material e corriam pra editar, depois nós voávamos de novo. Foi o dia inteiro de trabalho. O acesso ao local do acidente também era ruim. O helicóptero foi a única forma de fazer o resgate e também de fazer esse trabalho de captação de imagens", complementa.
A cobertura que entrou para a história da carreira do comandante Hamilton também deixou um legado na televisão brasileira. Naquele dia, o Domingo Legal se tornou o primeiro programa a unir jornalismo com entretenimento, formato que viria a ser adotado por outras emissoras posteriormente.
"A gente ainda não explorava essa visão de jornalismo no programa E os Mamonas foram o início do jornalismo no Domingo Legal porque o programa viu a importância de ter informação junto com o entretenimento. E a forma que a gente usava a informação também. Não era para impactar, era pra realmente informar", diz.
A afirmação de comandante Hamilton é corroborada pelo jornalista Alex Gusmão que, na época do acidente, era repórter do TJ Brasil, programa do SBT comandado por Boris Casoy. Ele foi acionado por volta das 5h da manhã do dia 3 de março de 1996 para realizar a cobertura da morte do quinteto.
"O Gugu foi o primeiro a colocar jornalismo em programa de entretenimento. Então, as pessoas estavam assistindo um programa de entretenimento, mas queriam saber o que estava acontecendo, ainda mais com a morte, com a tragédia dos Mamonas", explica.
Ao ser acordado com a informação de que o avião da banda havia caído, Alex se dirigiu para a antiga sede da emissora na Vila Guilherme. Como o comandante Hamilton estava em viagem ao Rio de Janeiro, o repórter fez o sobrevoo na Serra da Cantareira com um piloto do Aeroporto Campo de Marte.
"Nisso, eu sou procurado por um dos diretores do programa Domingo Legal. Ele perguntou se eu iria voar e disse: 'Eu vou contigo'. Me informaram que o comandante Hamilton estava voltando desesperadamente para São Paulo para fazer a cobertura. Por isso, o diretor do Gugu queria sobrevoar a região, mas, não podia, porque o comandante ainda não estava em São Paulo", relata.
Naquele momento, o jornalista também foi informado de que a audiência do SBT estava brigando com a audiência da Rede Globo, mas que o foco era fazer três boletins de notícias de dentro do helicóptero para informar uma audiência grande naquele horário.
"Me lembro dos corpos sendo içados e sendo colocados nas viaturas do IML. Foi uma cena trágica. Fizemos bastante imagens para o TJ Brasil e para o programa do Gugu, depois retornei para a sede do SBT. A adrenalina estava a mil", completa.
A banda também guarda um lugar especial na memória do repórter. "A primeira música que eu ouvi dos Mamonas eu achei que fosse uma piada. Eu adorei, era Vira-Vira. Além da irreverência e da ousadia, eles eram extremamente talentosos. Quem entendia de música, dizia que eles tocavam e cantavam muito bem. E não era só o Dinho que fazia sucesso, eram todos."
Alex relembra que a adrenalina era muito grande e que a tragédia foi de grande repercussão, o que ele já imaginava quando foi comunicado do acidente. "Muita gente chorando, muito triste. E uma cobertura muito intensa da imprensa. Me lembro que, no dia seguinte, eu fui para o local do acidente e eu subi o morro com a equipe, para simularmos como o avião havia caído. Por questão de metros essa tragédia poderia ter sido evitada. As árvores estavam todas trituradas, porque era onde o avião havia passado", ressalta.
A cobertura marcante na carreira de Alex Gusmão deixou sua marca. Àquele não havia sido o primeiro desastre aéreo que ele precisou cobrir, mas, definitivamente, foi muito sensível em razão do sucesso que os Mamonas Assassinas faziam na época.
"Você está sensível ao que você está vendo, mas ao mesmo tempo precisa entregar o trabalho. Você acaba criando uma camada de proteção. Mas a gente fica muito impactado, principalmente quando você está na área do desastre. E tudo isso envolve muita adrenalina também", finaliza.
Mamonas Assassinas
A trajetória meteórica do grupo que mudou o humor na música brasileira e se tornou um fenômeno imortal.
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Atenção, Creuzebek!
A banda de Guarulhos conquistou o Brasil em apenas 7 meses de sucesso estrondoso. Ouça a introdução clássica clicando no ícone ao lado.
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A banda começou com um som sério e progressivo antes da virada cômica.
Saíram do anonimato para as maiores audiências da TV brasileira em meses.
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Codinome do produtor Rick Bonadio.
Brasília Amarela
O maior símbolo visual da banda.
