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Psicanalista explica o estranho prazer de ‘cancelar’ famosos

Maria Homem ajuda a entender por que Karol Conká disse não ter se reconhecido em atitudes e declarações polêmicas no ‘BBB21’

30 mar 2021
15h44
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Quase toda semana algum famoso é dragado pela cultura do cancelamento no Brasil. A mais recente ‘vítima’ foi Xuxa Meneghel, após sugerir em uma live o uso de presidiários em testes laboratoriais para cosméticos no lugar de animais. Foi chamada de nazista, racista e eugenista.

Xuxa e Karol Conká estão entre os famosos “cancelados” nos últimos tempos pelo tribunal da internet
Xuxa e Karol Conká estão entre os famosos “cancelados” nos últimos tempos pelo tribunal da internet
Foto: Fotomontagem: Blog Sala de TV

A grande cancelada do ano continua a ser Karol Conká. Sua imagem e carreira foram implodidas pela onda de hostilidade como reação a seus atos e falas no Big Brother Brasil 21. Após ser eliminada, a rapper fez algumas aparições para manifestar arrependimento e depois desapareceu.

Para entender o mecanismo do “cancelamento” na mente humana, o blog ouviu a psicanalista Maria Homem, pós-graduada na Universidade de Paris VIII e doutora pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. Ela é autora de Lupa da Alma (Editora Todavia), sobre os efeitos em nossas emoções da quarentena imposta pela pandemia de covid-19.

: “O ódio e a inveja às vezes caminham juntos”, diz a psicanalista Maria Homem a respeito do comportamento dos “canceladores”
: “O ódio e a inveja às vezes caminham juntos”, diz a psicanalista Maria Homem a respeito do comportamento dos “canceladores”
Foto: Divulgação

A cultura do cancelamento tem a ver com sadismo e tentativa de inferiorizar o outro para se sentir melhor ou menos pior?

“Cancelar” no sentido de eliminar o outro pode ter a ver com sadismo e pode ter a ver com resistência. Há várias discussões sobre a origem histórica do termo e de práticas de luta em que grupos minoritários buscavam formas de resistir à opressão, unindo-se para “cancelar” o opressor. O problema é quando se parte de uma base que pode ser interessante para legitimar, paradoxalmente, novas práticas de opressão. Práticas que, sim, podem flertar com nossos aspectos sádicos. E que ainda se revestem com as vestes da moralidade. Enfim, há várias práticas e várias culturas sob o termo “cancelamento”.

Por que, confessadamente ou não, sentimos prazer quando “cancelamos” alguém ou assistimos ao “cancelamento” de uma figura pública?

Pode ser tanto pelo gozo de destruição do outro — nossas pulsões de morte que estariam recalcadas na velha dialética do mal-estar na civilização? — quanto pelo alívio de sentir que é o outro que foi para o paredão e não eu. O outro que me é indiferente, e o que sinto é somente o alívio de ter podido sobreviver, ou o outro que eu odeio e que, por vezes, invejo. Porque ódio e inveja às vezes caminham juntos.

Apontar os erros alheios, e participar de julgamentos sumários com destruição de reputações, é uma forma de fugir das próprias falhas e se sentir menos incorreto?

Apontar os erros alheios, linchar, destituir, eliminar... Há várias camadas para se exercer o desejo de manter o ‘Eu’ o mais próximo possível de um ideal de valoração máxima de si, sempre “avante e acima” em relação ao pobre outro colocado no lugar imaginário ao pé do podium.

O romancista e dramaturgo norte-americano Gore Vidal escreveu: “Cada vez que um amigo meu faz sucesso, eu morro um pouco”. Por que tanta gente se incomoda com a ascensão de pessoas próximas?

Como a gente já sabe, Freud foi muito sensível em observar que a rivalidade aperta com o próximo, e não com os distantes. Aí o “narcisismo das pequenas diferenças”, onde vemos o outro, imaginariamente muito próximo ao eu, conseguindo alcançar lugares e conquistando objetos (e objetivos) que no fundo seriam meus desejos, minhas metas, minhas posições. E eu não consegui chegar nesse lugar, e o outro sim. O outro que, assim, me joga na cara: poderia ter sido eu, mas não consegui. Esse o roteiro imaginário que move a competição contínua com o próximo, o amigo.

A rapper Karol Conká, “cancelada” por conta de sua participação no ‘Big Brother Brasil’, disse que não se reconheceu no programa. “A Karol que estava lá dentro não sou eu”, afirmou. Situações de estresse intenso e maior vulnerabilidade podem produzir mudança de personalidade e perda de controle sobre atos e declarações?

Aqui devemos lembrar que a subjetividade é mais ampla que o Eu, que nossa estrutura subjetiva é, seguindo Freud, triádica, e estamos em cena com o Id, o Eu e o Supereu. Ou seja, não é o Eu que tem o controle estável e perene do que somos nós. Somos exatamente isso, um conjunto de “nós” entrelaçados, uma miríade de instâncias psíquicas que estão em conflito entre si. O que sentimos não necessariamente é o que gostaríamos de sentir, o que achamos que pensamos não é sempre o que de fato escapa pela nossa boca e revela o que de fato opera como premissa de nosso pensamento. Ou seja, como ficou claro, o Eu não é senhor em nossa morada. A psicanálise sabe disso há um bom tempo. 

Muitas pessoas forjam uma vida irreal nas redes sociais, a fim de conquistar seguidores e status, e se preocupam demasiadamente com a opinião alheia a respeito de si e da possibilidade de cancelamento. Esse comportamento pode gerar transtorno emocional?

Estamos em trato contínuo com ao menos três partes de nosso psiquismo: com nossos impulsos basais (numa síntese radical, o Id); nossas identificações egoicas, o que pensamos ser nosso Eu; e os ideais que circundam e por vezes sufocam esse pobre Eu. Ele fica lá, pulando, pulando, tentando alcançar um podium mais ou menos imaginário, para tentar se colocar num lugar enfeitiçado e atraente para os cliques, likes, engajamento, enfim, o olhar do Outro. E cá estamos, ainda como o velho bebê que fomos, buscando manter a atenção do Outro sobre nós.

Psicanalista, pesquisadora do Núcleo Diversitas FFLCH/USP e professora da FAAP, Maria Homem ministra o curso on-line ‘Freud: Entre Pulsão e Inconsciente’, com 12 encontros, a respeito dos impactos do narcisismo, melancolia, luto, prazer, entre outros sentimentos e situações. Mais informações: mariahomem.com.

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