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Peça sobre homofobia Bruta Flor terá leitura no Facebook

Diretor Marcio Rosario diz que o teatro e a TV precisam reagir à onda de preconceitos e critica visão de Bolsonaro sobre LGBTs

11 ago 2020
09h55
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"Onde queres prazer, sou o que dói", canta Caetano Veloso em O Quereres. A mesma canção tem o famoso refrão "Ah! bruta flor do querer / Ah! bruta flor, bruta flor". A brutalidade de sentimentos intensos, que provocam prazer e dor, conduzem a narrativa da peça Bruta Flor. O drama que fez sucesso na cena teatral paulista terá uma leitura online hoje, a partir das 21h, na página @teatropopularjoaocaetano no Facebook.

O elenco da leitura online de Bruta Flor: uma história emocionante e trágica a respeito de preconceito
O elenco da leitura online de Bruta Flor: uma história emocionante e trágica a respeito de preconceito
Foto: Divulgação

No palco e na tela (do celular, do tablet ou do computador) estarão os atores Lidi Lisboa (protagonista de Jezabel, da RecordTV), Alex Morenno (o Francisco de Novo Mundo, da Globo) e Luciano Schwab (visto na novela Jesus e em vários espetáculos de sucesso).

A partir de um jovem casal e de um gay assumido, Bruta Flor aborda a homossexualidade livre, o desejo reprimido, a homofobia internalizada e o machismo intrínseco à sociedade brasileira. O responsável pelo espetáculo e idealizador da leitura online, Marcio Rosario, conversou com o Terra.

Como chegou até esse texto e qual a data da primeira montagem?

Produzi e dirigi a primeira montagem de Bruta Flor em 2016. Estreamos em São Paulo e ficamos em cartaz por quase 3 anos ininterruptos, entre sessões na capital e em outras cidades do estado. Foram mais de 150 sessões com sucesso de público e crítica. Em 9 temporadas, tivemos muitos atores passando pelo elenco, dando vida a esses personagens interessantes e atuais. O texto veio de uma encomenda que fiz aos autores Vitor de Oliveira e Carlos Fernando Barros. Eu queria muito falar sobre preconceitos em geral e, especificamente, homofobia. A abordagem é profunda e há uma dose de espiritualidade.

Nesses 4 anos de existência do espetáculo, a questão da homofobia melhorou no Brasil?

Nao, piorou, e muito. O Estado brasileiro reconheceu a existência da LGBTfobia e, em 2019, o Supremo Tribunal Federal criminalizou a homofobia. Mas o presidente eleito por muitos, Jair Bolsonaro, desde a campanha eleitoral lançou uma cruzada contra o que chama de “marxismo cultural” e “ideologia de gênero”, disseminando ódio contra LGBTs. O Brasil continua sendo campeão em mortes contra LGBTs e aqui uma pessoa trans vive em média apenas 35 anos. De acordo com as estatísticas oficiais, a cada 16 horas uma pessoa é morta por ser gay, lésbica ou trans. Nesse festival de intolerância e violência, a população LGBT se sente cada vez mais ameaçada. Não existe, da parte do presidente e de seus ministros, uma política pública que garanta os direitos dos cidadãos LGBTQIA+. Acredito que o governo federal deveria respeitar e proteger a todos. Esse presidente vai passar, e será descrito na história do Brasil como um dos governantes que menos fizeram para as minorias em geral e, especialmente, aos LGBTs.

Cena de uma das montagens de Bruta Flor e, no destaque, o diretor e produtor Marcio Rosario
Cena de uma das montagens de Bruta Flor e, no destaque, o diretor e produtor Marcio Rosario
Foto: Divulgação

Qual a importância de fazer essa leitura online da peça nesse momento de pandemia?

Acredito ser relevante pelo ponto de vista artístico e cultural. Tenho que parabenizar e agradecer ao projeto do Palco Presente da Secretaria Municipal de Cultura da cidade de São Paulo, que deu a oportunidade para vários artistas mostrarem seu trabalho. Vamos realizar a leitura do texto na íntegra, pois na montagem original eu o adaptei para o palco. Depois da transmissão ao vivo, o público vai poder debater com o  elenco, os autores e comigo, diretor do espetáculo. Esse novo modelo, o teatro online, criado durante o distanciamento social imposto pela pandemia, vai fortalecer e preservar a cultura e seus valores. O projeto Palco Presente dá continuidade às ações de incentivo à cultura e ao setor artístico durante esse período de restrições, sem a possibilidade de abrir os teatros para o público.

Como escalou os atores dessa leitura online?

Sempre escolho atores que admiro e respeito por seus trabalhos e, dessa vez, não foi diferente. A Lidi Lisboa fez o espetáculo na estreia, em 2016. Defendeu a personagem Simone com muita garra. Depois precisou sair do elenco para fazer um trabalho na TV. Luciano Schwab e Alex Morenno são atores com quem sempre quis trabalhar. Agora eles estavam com a agenda disponível. Fico feliz de contar com atores intensos nos papéis de Miguel e Lucas.

Planeja uma nova montagem de Bruta Flor?

Sim, iríamos estrear uma temporada esse ano no Rio de Janeiro, onde o espetáculo continua inédito, e depois o levaríamos a Portugal. Com a pandemia, tudo mudou. Pretendemos encenar em Lisboa e no Porto, com elenco português, em 2021. A temporada carioca ficará para 2022. Além disso, estamos desenvolvendo o longa metragem baseado na peça. A direção será do Hsu Chien ('Ninguém Entra, Ninguém Sai', 'Flerte', 'Meu Preço').

Você está no ar, na reapresentação de Fina Estampa, e fez vários outros trabalhos em TV como ator e diretor de produção. Avalia que a televisão tem um papel importante no combate aos preconceitos em geral?

As emissoras de TV precisam falar mais dos direitos das minorias e, especificamente, da comunidade LGBT. A maioria dos telespectadores, e do público em geral, nem sabe quais são esses direitos. Com seu grande alcance, a televisão pode informar e educar milhões de pessoas ao mesmo tempo. Sabemos que alguns bons jornalistas até tentam pautar esses temas, mas são vetados por seus superiores. Muita gente que comanda a TV ainda acredita que falar de gays, lésbicas e transexuais pode afastar anunciantes. A questão financeira pesa. Está na hora de os canais mostrarem muito mais do que as paradas gays. É fundamental discutir com profundidade as questões dos LGBTs na sociedade.

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