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Mestiço, dono da Globo era xingado de “crioulo” por rivais

Hábito de usar pó de arroz no rosto pode ter sido recurso de Roberto Marinho para lidar com desconforto racial

23 set 2020
11h44
atualizado às 11h49
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Na peculiar cultura brasileira de classificação e autodeclaração de raça, Roberto Marinho era branco. Mas não suficientemente branco. As novas gerações desconhecem que o fundador da Rede Globo e homem mais poderoso da comunicação nacional por mais de 30 anos sofreu racismo por conta de sua origem miscigenada.

Roberto Marinho em 2 de outubro de 1995, na inauguração do Projac (rebatizado Estúdios Globo): o homem mais poderoso da comunicação brasileira foi discriminado assim como milhões de brasileiros anônimos
Roberto Marinho em 2 de outubro de 1995, na inauguração do Projac (rebatizado Estúdios Globo): o homem mais poderoso da comunicação brasileira foi discriminado assim como milhões de brasileiros anônimos
Foto: Divulgação

Há mistura de raças na genealogia dos Marinhos: afrodescendentes entre a maioria de portugueses. Por isso, ‘doutor Roberto’ tinha coloração morena. “O Roberto Marinho era de certa forma mulato, o pai dele era de uma pele mais escura, tinha traços negroides como todo o brasileiro”, afirmou Pedro Bial ao portal Último Segundo em dezembro de 2004. Na ocasião, o jornalista e apresentador lançava uma biografia do empresário encomendada pela própria Globo.

Em suas pesquisas para o livro, ele descobriu que Roberto Marinho sofreu recorrentes ataques racistas de adversários na imprensa. “Eram golpes muito baixos, usava-se de uma linguagem surpreendente para a gente hoje em dia. O Chatô o chamou de ‘crioulo alugado’, ‘cafuzo indígena’, ‘africano de 300 anos de senzala’, ‘débil mental sem remédio’”, relatou Bial. Chatô era Assis Chateaubriand, dono dos Diários Associados e da primeira emissora do Brasil, a TV Tupi.

“Mas o Chatô não foi o único dono de jornal que se referia ao Roberto Marinho como mulato ou crioulo”, contou o autor da obra biográfica. Outros rivais nos negócios e nas ideologias faziam referências raciais pejorativas na intenção de ofender Roberto Marinho. Na mesma conversa, Pedro Bial citou possível trauma desenvolvido por essa discriminação.

“Uma curiosidade é que ele até o fim da vida usou pó de arroz. Tem um lado que é o fato de ser um hábito de época, que no início do século os homens ainda se empoavam, mas também pode ser por um certo desconforto com a própria cor. Podia ser um complexo, mas não cheguei a uma conclusão. A Lily acha que é uma coisa de homem de época, o João Roberto acha que podia ser alguma coisa a ver com a cor”, disse. Dona Lily Marinho (1921-2011) foi a terceira mulher do dono da Globo. João Roberto Marinho é um dos três herdeiros.

No Brasil criado a partir da mistura de raças, transformado em nação mais miscigenada do planeta, até o todo-poderoso Roberto Marinho foi alvo de discriminação e sentiu o horror emocional de ser ultrajado por características de sua ascendência. Ele morreu na noite de 6 de agosto de 2003, em consequência de complicações de cirurgia para dissolver um coágulo no pulmão. Tinha 98 anos.

Deixou um legado imensurável como empresário de mídia. Assumiu a direção de O Globo ainda jovem, após a morte abrupta de seu pai, e o transformou em um dos jornais mais lidos do País. Aos 60 anos, idade em que a maioria das pessoas está focada na aposentadoria, ousou ao inaugurar a TV Globo. Em pouco tempo, a emissora se tornou o veículo de comunicação mais influente do Brasil e seu fundador garantiu espaço na galeria de grandes homens do século 20.

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