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A TV não pode substituir o contato entre pais e filhos

Psicoterapeuta Carla Poppa indica benefícios e perigos de deixar crianças e adolescentes consumirem a programação

23 jul 2018
14h34
atualizado às 14h37
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Em muitos lares brasileiros, a criança ou o adolescente tem mais contato com o aparelho de TV e o celular do que diálogo ‘olho no olho’ com os pais. Essa realidade se torna preocupante ao considerarmos a influência que os programas e as redes sociais podem exercer na formação de uma pessoa.

Quase 98% dos lares brasileiros possuem TV, de acordo com o IBGE: o aparelho serve de companhia a milhões de crianças e adolescentes
Quase 98% dos lares brasileiros possuem TV, de acordo com o IBGE: o aparelho serve de companhia a milhões de crianças e adolescentes
Foto: Divulgação

O blog ouviu a Doutora em Psicologia Clínica Carla Poppa a respeito do assunto. Ela é professora do curso de especialização em Gestalt-terapia e de cursos de psicoterapia de crianças no Instituto Sedes Sapientiae, além de ser psicoterapeuta de crianças, adolescentes e adultos. Acaba de lançar o livro O Suporte para o contato – Gestalt e infância, pela editora Summus.

Em quais contextos a TV pode ser benéfica ou prejudicial ao desenvolvimento da criança e do adolescente?

A televisão tem uma função de entretenimento e pode ajudar tanto a criança quanto os adultos a relaxar e a se desconectar um pouco das obrigações e problemas do dia a dia. Pode também ser um estímulo para os pais passarem um tempo com seus filhos, fazendo uma atividade tranquila e conversando. Por exemplo, enquanto assistem à televisão, podem colorir um desenho e discutir sobre os temas que surgem no programa, algo útil tanto para fortalecer o vínculo quanto para orientar a criança. A televisão, assim como os outros aparelhos eletrônicos, passa a ser prejudicial quando se torna um vício. O vício pode prejudicar o interesse da criança de interagir com outras pessoas. Mas é principalmente um sintoma. Quando a criança fica dependente da televisão ou de outro aparelho eletrônico pode ser sinal de uma tendência ao isolamento, dificuldade de se expressar e ansiedade. Por isso, quando os pais percebem que seu filho fica muito tempo isolado e recusa se afastar da televisão ou dos outros eletrônicos, pode ser que estipular horários e regras para a televisão não funcione. A criança poderá buscar outra maneira de aliviar a ansiedade, como na comida, por exemplo. Nesses casos, tão importante quanto limitar os horários de TV é conversar com a criança, ajudá-la a expressar seus sentimentos e fazer alguma atividade junto com ela para fortalecer o vínculo. Isso vai contribuir para que saia do isolamento, comece a conversar e se expressar um pouco mais. Assim, a ansiedade diminui. Se não funcionar e o vício persistir, a psicoterapia é uma boa alternativa para cuidar da criança e orientar os pais a como lidar com a situação.

Em muitas casas, a TV ainda é a ‘babá’ das crianças. O aparelho serve para distraí-las enquanto os pais trabalham ou realizam atividades domésticas. Isso é negativo?

A TV pode ser usada para distrair a criança de vez em quando sem causar nenhum prejuízo para o seu desenvolvimento. Porém, as crianças se desenvolvem principalmente a partir do contato com os pais e com as pessoas com quem convivem, e isso demanda um estado interno dos pais de certa tranquilidade para que eles consigam se concentrar na troca de olhares, no toque e no diálogo com seus filhos. Se essas interações acontecem e a criança é colocada, de vez em quando, para assistir à televisão enquanto os pais estão fazendo outra coisa, não existe nenhum problema. O problema acontece pela falta de contato e interação entre pais e filhos, que pode ser provocada por outros fatores, como excesso de trabalho dos pais, ansiedade e até mesmo depressão. Nesses casos, o uso excessivo da televisão para distrair a criança pode ser entendido mais uma vez como um sintoma de algo que está prejudicando o contato entre pais e filhos e precisa ser compreendido e cuidado para que o desenvolvimento emocional da criança não fique comprometido.

Os pais devem determinar os programas e os horários de acesso à TV?

Podem, mas com base no bom senso e na sua capacidade de discriminar o que as crianças conseguem ou não compreender. 

Há pouca programação educativa na TV. A televisão deve ter um papel efetivo na formação das crianças?

As crianças nos dias de hoje têm acesso a mais programas educativos se comparadas com as crianças das gerações anteriores. Os programas de entretenimento têm sua função, tanto para crianças quanto para adultos, de proporcionar certa leveza e permitir que se desconectem um pouco das preocupações do dia a dia.

A programação da TV deve ser usada pelos pais para a introdução de assuntos considerados polêmicos, como sexo, drogas e morte?

Sim, se a criança estiver curiosa e se mostrar interessada pelos temas abordados na televisão. Mas é importante que a conversa aconteça naturalmente. As crianças aprendem muito mais quando a interação e o diálogo ocorrem de maneira espontânea e afetiva. Quando a conversa é comandada por uma clara intenção pedagógica por parte dos pais, a criança pode perder o interesse e a aprendizagem fica comprometida.

A série 13 Reasons Why, da Netflix, sobre o suicídio de uma garota, gerou controvérsia e muitos pais proibiram seus filhos de assisti-la por temer o hipotético despertar do desejo de morte nos adolescentes. Simplesmente proibir para evitar o assunto é a atitude correta?

É difícil dizer se é a atitude correta, mas é uma atitude compreensiva. A série tem cenas muito fortes, que podem incomodar até mesmo aos adultos. Apesar do desejo do suicídio não ser despertado por um filme ou uma serie, é possível pensar que hoje em dia esta é uma solução que os jovens e as crianças enxergam para dar fim ao seu sofrimento, o que não era considerado com tanta frequência nas gerações anteriores. Nesse sentido, é compreensível que os pais tentem evitar que seus filhos assistam a esta série. Porém, a atenção dos pais precisa ser redirecionada. Ao invés de prestar atenção apenas no que a criança deve ou não assistir, é importante dedicar atenção e energia para a construção de um vínculo de confiança. Quanto mais os pais estiverem conectados com seus filhos, mais poderão perceber quando a criança está sofrendo e, então, ajudá-la com seus problemas. A simples possibilidade da criança poder compartilhar suas experiências e sentimentos faz com que ela sinta que tem a quem recorrer, e essa sensação proporciona grande alívio e a fortalece para enfrentar situações difíceis.

A Doutora em Psicologia Clínica Carla Poppa alerta sobre a importância de os pais conversarem com os filhos a respeito de temas polêmicos exibidos na TV
A Doutora em Psicologia Clínica Carla Poppa alerta sobre a importância de os pais conversarem com os filhos a respeito de temas polêmicos exibidos na TV
Foto: Mari Castro / Divulgação

Redes sociais fazem parte da realidade das novas gerações. Nesse ambiente virtual há superexposição da imagem, vaidade excessiva, competição por popularidade e fake news. Crianças devem ser mantidas longe de redes como Facebook e Instagram, podem acessar sob supervisão ou ter liberdade total de acesso?

Difícil pensar em algum benefício que uma criança possa usufruir das redes sociais. Os adolescentes vão querer usar, mas é importante ajudá-los a discriminar o conteúdo das redes sociais e do ambiente virtual como um todo. O próprio adulto precisa fazer esse exercício para não se contaminar com a vida ‘perfeita’ das pessoas, para não se influenciar pela divulgação de serviços e produtos que podem não ser confiáveis ou mesmo por informações que não são verdadeiras. Quando os pais conseguem fazer uso das redes sociais discriminando o que pode ser proveitoso e o que deve ser descartado, eles devem ensinar essa habilidade para seus filhos adolescentes. Ensiná-los a questionar e a discriminar a realidade que é mostrada no mundo virtual é uma habilidade que pode ser levada também para as relaç&otil de;es reais. A pedofilia é uma pauta recorrente nos telejornais. Os pais devem permitir que os filhos assistam a esse tipo de matéria para que o assunto seja conversado, ou é melhor evitar que crianças e adolescentes acompanhem essas reportagens na TV? Quando a criança não sabe o que é pedofilia pode sim ser uma maneira de explicar, mas, de novo, a conversa precisa acontecer de maneira espontânea e com uma linguagem adequada à idade da criança para que ela entenda e assimile a orientação. Uma vez que a criança assimilou o que é pedofilia, é possível que ela mesma peça para mudar de canal, pois este tema, de maneira compreensível, pode lhe provocar sentimentos desagradáveis.

O que é a Gestalt-terapia, e como se aplica nos pacientes?

A Gestalt-terapia é uma abordagem da psicologia que tem como premissa a ideia de que o desenvolvimento acontece por meio do diálogo. Com as crianças, o meu trabalho, na maior parte das vezes, é ajudá-las a se comunicar, a expressar o que estão sentindo e a mediar a comunicação com seus pais. Com adolescentes, a intenção é a mesma, só a linguagem utilizada que muda. Com as crianças, a linguagem é a da brincadeira, já com os adolescentes são usados jogos ou diferentes atividades para mediar as conversas.

Em quais casos a psicoterapia é indicada a crianças e adolescentes? Os pais devem procurar um terapeuta apenas quando há uma questão a ser resolvida ou toda criança ou adolescente deveria passar por uma avaliação terapêutica?

Quando a criança não consegue se comunicar, seja porque tem dificuldade para se expressar, seja porque falta uma pessoa que a escute e oriente, seu desenvolvimento pode ficar comprometido. Nesse contexto, a criança pode desenvolver um sintoma, como a ansiedade, ou outros comportamentos associados, como fobias, comportamentos compulsivos ou obsessivos e mesmo adoecer de maneira recorrente. Outros sintomas frequentes são a vergonha e a dificuldade de regular suas emoções. São crianças que expressam suas emoções com muita intensidade e têm dificuldade para se acalmar. Esses sintomas costumam chamar a atenção dos pais, que buscam a ajuda da terapia. Na terapia, a criança vai ter apoio para se comunicar e expressar suas emoções para retomar seu desenvolvimento e, com isso, os sintomas tendem a amenizar bastante. Os pais são orientados para que tenham maior clareza do que a criança está sentindo e qual a melhor forma de ajudá-la. É importante que os pais fiquem atentos a estes sintomas porque quanto antes a criança receber ajuda, ou eles puderem ser orientados, mais rápido será a mudança.

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