Aos 57 anos, atriz comemora: "nunca fiquei desempregada"
- MARIANA TRIGO
Denise Del Vecchio dosa uma intensa serenidade com uma voracidade indisfarçável como atriz. Tanto que essas características também conseguem transparecer em grande parte de suas personagens na TV, como a enigmática doceira Dona Augusta, de Vidas em Jogo. Beirando os 40 anos de carreira televisiva, esta paulistana de 57 anos nunca se distanciou das novelas, onde estreou na Tupi, em 1974. De lá para cá, seu rol de personagens heterogêneos se sobressai, sempre com uma docilidade, mesmo que implícita. Na Record desde Bicho do Mato, Denise se entusiasma ao ressaltar personagens diversificadas na emissora. Como a devoradora de garotinhos Vanda, de Bela, A Feia. Ou mesmo a atirada e engraçada Alzira, de Bicho do Mato, que seduzia o marido Alfredo, de Paulo Gorgulho, a cada capítulo, exibindo sua coleção de camisolas sensuais. "As mulheres vinham me agradecer nas ruas por lembrá-las que poderiam ser sedutoras em casa. Tenho tido bons papéis na Record e me divertido muito com a Dona Augusta e seu grande mistério", afirma a atriz.
TV Press - A Dona Augusta é a personagem mais misteriosa de Vidas em Jogo e guarda um grave segredo na trama. De que forma essa característica é explorada na reta final da história?
Denise Del Vecchio - É bastante delicado trabalhar com uma personagem sobre a qual não tenho todos os dados. Para mim, ela é um jogo. Faço essa interpretação quase jogando no escuro porque eu não sei exatamente o que vem, o que está escondido por trás. Tem sido um trabalho bastante diferente. Ela é muito discreta, fala pouco e baixo, tem sempre uma atitude de espiã. Não sei quando e como o mistério dela vai ser revelado. Acho que a própria Cristianne (Fridman, autora) está fazendo um jogo com a gente (risos). Na verdade, é como acontece na vida. Não se sabe o dia de amanhã. É uma história de suspense e nós somos personagens em suspensão.
TV Press - Que referências você buscou na composição de uma doceira enigmática, que tem uma confeitaria que também é casa de dança?
Denise Del Vecchio - Não tentei me basear em nada muito real. O cenário da confeitaria é de sonho. Um lugar que tem música, dança, onde tudo é bonito, gostoso e acolhedor. Os detalhes são lindos. Parece uma fábrica de fantasia. Não fiz uma pesquisa realista para a Augusta. Fizemos laboratórios preparando doces e bolos, muitas coisas gostosas. Até sei um pouco porque minha mãe era uma excelente doceira. Observava ela fazendo coisas em casa e ainda tenho a imagem dela fazendo doces e tortas lindas. Trabalhei muito na fantasia da personagem.
TV Press - Ao mesmo tempo que é um enigma, a personagem tem um lado cômico por ser mão-de-vaca. Isso a equilibra de que forma?
Denise Del Vecchio - Sempre acho melhor tentar descobrir algum humor. Isso faz com que a personagem tenha uma comunicação melhor com o público, que fica mais relaxado e apreende o que você está querendo dizer. O fato de ela ser sovina é grave. Ela ainda não gastou nada dos R$ 10 milhões que recebeu na loteria. Continua com as mesmas roupas, o mesmo cabelo, não deu um carro para o filho, não possui empregada e tem um apartamento mínimo perto das mansões que os outros ganhadores moram. Ela não gosta de gastar. É curioso porque é uma personagem fora de seu tempo. Ela é anticonsumista por natureza. Tenho a impressão que ela compra roupa em brechó porque é toda antiguinha, não joga nada fora.
TV Press - Você estreou há 37 anos em Ídolo de Pano, na TV Tupi. Que lembranças você traz dessa trajetória com personagens sempre tão fortes?
Denise Del Vecchio - Nossa, fiquei emocionada de lembrar do ano de 1974 com meu filho (o ator André Frateschi) pequenininho. Eu ainda me recuperava do parto e colocava cinta para ir gravar essa minha primeira novela, onde contracenei com o Dennis Carvalho, que é uma pessoa que adoro, com quem trabalhei muito na Globo. Sou uma pessoa de sorte. Consegui ter uma carreira onde fiz grandes amigos e nunca fiquei desempregada. Tenho uma continuidade de trabalhos tanto na TV quanto no teatro. Às vezes trabalho até mais do que aguento. Sempre recebi convites em todas as emissoras. Fiz teleteatro na TV Cultura sei lá, acho que no século XVIII cada dia de trabalho é uma recompensa, me dá um sentido de existência.
TV Press - Você sempre foi engajada politicamente e fazia parte do Teatro de Arena, que era resistente à ditadura militar e à repressão. O que você lembra de mais marcante nesse período?
Denise Del Vecchio - Do Teatro de Arena, o que mais me lembro e tenho saudades é do Augusto Boal, que foi o grande artista e criador. Foi quem me deu a régua e o compasso na arte de representar. Eu era muito jovem, entusiasmada e indignada com a situação do Brasil e da repressão, com colegas que morreram e desapareceram. Heleni Guariba, minha professora de teatro, morreu assassinada pelos militares na ditadura. Eu vi tudo isso muito de perto e achava, ingenuamente, que o teatro era um instrumento muito importante para conscientizar as pessoas. Hoje, se o teatro sensibilizar uma pessoa na plateia, ele já cumpriu sua missão. Só quem não viveu aquela época e que era muito alienado e cego pode ter saudades daquilo, daquela impossibilidade de falar, de se expressar, do medo, de andar na rua temendo ser sequestrado e desaparecer. Hoje o Brasil é um país um milhão de vezes melhor, mesmo com toda a nossa corrupção - que naquela época também existia e que não se podia falar dela. Não sou uma atriz iludida e otimista, de achar que tudo vai dar certo. Mas hoje vivemos em uma democracia e estamos livres para expressar o que pensamos através da arte.