A TV deve ou não divulgar foto e nome de assassinos como o da creche de SC
Episódio de extrema violência reforça o debate a respeito da fama concedida pela imprensa a criminosos como Jeffrey Dhamer
“Ele deve ser condenado ao anonimato”, disse o comentarista Octávio Guedes, na GloboNews, sobre o homem que matou 4 crianças e deixou feridos em uma creche de Blumenau (SC).
Presente na discussão ao vivo, o também jornalista Marcelo Lins sugeriu um “esforço conjunto” das autoridades e da imprensa para impedir que criminosos do tipo se tornem famosos.
Certos perfis de assassinos – como o da maioria dos serial killers – agem motivados pelo desejo de virar uma celebridade do mal. Querem aparecer na televisão e despertar a idolatria de pessoas desequilibradas.
A mídia vive um dilema. De um lado, teria a obrigação de revelar o nome e exibir a imagem do criminoso pelo interesse jornalístico da questão.
Na outra ponta da controvérsia, não pode se deixar usar por mentes doentias ou infratores cruéis interessados na publicidade em torno de seu crime.
Mais que isso: jamais deve tirar vantagem desses fatos hediondos. Todo cuidado é pouco quando se produz reportagens, séries documentais ou ficcionalizadas e outros produtos audiovisuais sobre tragédias com inocentes.
No ano passado, vimos o exemplo negativo suscitado por ‘Dahmer: Um Canibal Americano’. A produção da Neflix transformou o serial killer Jeffrey Dahmer em figura pop e crush proibido de muita gente. Jovens do TikTok até imitaram dancinhas feitas pelo assassino na série. O horror vivido pelas vítimas foi ofuscado.
No Brasil, alguns criminosos com amplo espaço na imprensa faturam graças ao próprio delito. Segundo a ‘Veja’, Suzane Von Richthofen, condenada pelo assassinato dos pais, assinou contrato com uma produtora inglesa para aparecer em um documentário.
Elize Matsunaga teria firmado acordo financeiro para participar de uma produção mantida em sigilo e pretende lançar um livro com sua versão da morte do marido.
O jornalismo profissional comprometido com a ética precisa refletir o seu papel na cobertura de crimes de ampla repercussão. Não adianta demonizar os programas policialescos que dão popularidade a facínoras por audiência e fazer o mesmo de maneira mal disfarçada.
Atualização: o Grupo Globo anunciou nova política para a cobertura de atentados. O nome e a foto do criminoso jamais serão mostrados no ar, informa o âncora César Tralli. A decisão visa não dar fama ao autor do crime e evitar o 'efeito contágio'.