Script = https://s1.trrsf.com/update-1765905308/fe/zaz-ui-t360/_js/transition.min.js
PUBLICIDADE

Sérgio Vaz: 'Macondo era meu bairro. E Capitães da Areia, os meus amigos'; veja biblioteca do poeta

Obras de García Márquez e Jorge Amado, mas também outros clássicos - de Dostoiévski a Ana Maria Gonçalves - estão no acervo do escritor; assista ao episódio da série Coleção de Livros

9 mai 2025 - 15h37
Compartilhar
Exibir comentários

Sérgio Vaz nadava contra a corrente. Um adolescente, que em meio à violência das 'quebradas' da zona sul de São Paulo nos anos 1980, preferia entrar de cabeça no mundo dos livros e escapar da realidade. "Eu achava que tinha algo de errado comigo, que não batia bem da cabeça", diz o 'poeta da periferia', autor de obras como Colecionador de Pedras e o mais recente Flores da Batalha, de 2023. Ele é um dos nomes já confirmados na próxima Flip.

Ao ler o clássico Dom Quixote, de Miguel de Cervantes, Vaz percebeu que não tinha nada errado consigo mesmo. "Eu devo muito a esse livro. Foi com ele que me dei conta de que eu era um cara sonhador e que não tinha problema nenhum nisso. O problema é dos outros que não leem."

A figura de Dom Quixote está presente em miniaturas, imagens e até uma estátua maior na área externa da casa de Vaz, em Taboão da Serra, região metropolitana de São Paulo, onde ele recebeu a reportagem do Estadão para mais um episódio da série Coleção de Livros (confira todos os vídeos aqui).

Nascido em Minas Gerais, Vaz foi criado na zona sul de São Paulo. "O Jardim Ângela era considerado o lugar mais violento do mundo. Metade das ruas de onde eu morava não tinham asfalto", ele lembra. Hoje, prefere falar da realidade dos saraus e eventos literários na periferia. Um deles é a Cooperifa, fundada há 25 anos pelo poeta.

Da MPB ao rap, surge um poeta

Poemas eram 'coisa de gente fresca' para Vaz. Palavras rebuscadas que não faziam o menor sentido. Ele queria ser compositor. E foi com as letras insurgentes da MPB durante a ditadura militar que ele percebeu: música também é poesia.

"Eu fiz um ano de serviço militar obrigatório e, certo dia, no quartel, estava escutando Para não dizer que não falei das flores, do Geraldo Vandré. Um sargento começou a reclamar, dizendo que era música de comunista e tal. E isso fez a letra crescer ainda mais em mim." A partir das referências musicais, Vaz passou a buscar a leitura de poetas com obras mais políticas, como o chileno Pablo Neruda.

Cria dos bailes de música black da capital paulista, como a ChicShow, Vaz aprendeu a apreciar também as canções populares brasileiras. Mas nomes como Chico Buarque e Milton Nascimento ficaram pequenos demais para o seu entendimento de mundo quando, nos anos 1990, houve a explosão do rap.

"Eu comecei a ouvir os caras falando dos bairros onde eles moravam e me identifiquei. Passei a pedir para participar dos shows de hip-hop e recitar poesias", conta Vaz. Assim, estreitou laços com nomes como Mano Brown, Dexter e, mais à frente, Emicida.

Sobrevivendo no Inferno, álbum dos Racionais lançado em 1997, depois publicado em formato de livro, é o 'clássico dos clássicos', segundo Vaz. "Uma vez eu estava em um presídio, fazendo uma conversa com detentos, e perguntei se alguém gostava de poesia. Todos disseram que não. Então perguntei quem ouvia Racionais e todos responderam que sim. 'Pronto, então vocês gostam de poesia', eu disse a eles."

Clássicos nacionais e livros desafiadores

Em meio à paixão por música, Vaz seguia encantado pela leitura. Capitães da Areia, de Jorge Amado, foi a primeira obra que o fisgou. "Era uma realidade parecida com a nossa. Meu bairro era como o trapiche e os personagens, Pedro Bala, Sem Pernas, Dora... eram os amigos que eu tinha no bairro", compara o escritor. "Lembro de ler as últimas páginas chorando, aos poucos, para não acabar tão rápido."

Entre outros clássicos nacionais destacados na estante do poeta estão Um defeito de Cor, escrito por Ana Maria Gonçalves e publicado em 2006. "É um livro definitivo. Mil páginas, um quilo e eu li duas vezes." Grande Sertão Veredas, de João Guimarães Rosa, e A Hora da Estrela, de Clarice Lispector, também são leituras essenciais na lista de Vaz.

Aventurar-se pela literatura estrangeira não foi fácil para o poeta, que também coloca Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez, como uma obra que espelhava aspectos do seu cotidiano. "É literatura fantástica, né? E eu li jovem, não estava acostumado. Mas aí comecei a anotar todos os nomes dos Buendía e perceber que Macondo era como meu bairro. Faltava isso, aquilo... As coisas não tinham nem nome, como dizia o Gabo no livro."

Instigado por Antônio Abujamra durante uma entrevista do programa Provocações, da TV Cultura, Vaz também se jogou de vez na literatura russa. Foi conquistado por obras como Crime e Castigo e O Idiota, de Dostoiévski. "Ele disseca a alma humana. Para mim, literatura é isso: quando o escritor tira o coração para fora, entrega ao leitor e diz: 'agora se vira, sofre aí'", brinca o poeta.

Pretos no topo

"Hoje muitos dos autores mais lidos são negros", reflete Vaz ao enumerar uma série de nomes como Djamila Ribeiro, Conceição Evaristo, Jeferson Tenório, Eliana Alves Cruz e Itamar Vieira Júnior.

Para o escritor, este é um movimento que ajuda a recontar a história do Brasil. "O periférico começou a ler periféricos. E houve uma força tão grande que as editoras não tiveram como ficar para trás. É uma bandeira que foi fincada e que eu acredito que está segura agora", ele opina.

O movimento de aceitação da literatura negra, no entanto, começou lá atrás. Carolina Maria de Jesus, segundo Vaz, foi essencial para que ele entendesse que poderia 'escrever como quisesse'. "As pessoas insistem em dizer que o que ela escrevia não eram romances, e sim 'diários'. É difícil para o cara da academia enxergar o lirismo daquela literatura seca. É uma outra parada, outra vivência. Essas pessoas realmente nunca vão entender."

Da literatura negra estrangeira, o poeta destaca um de seus livros favoritos, Amada, de Toni Morrison, além de outras escritoras norte-americanas, como Audre Lorde e Maya Angelou. "A maioria dos clássicos são de homens, mas eu chegava nos saraus e a mulherada me cobrava para ler mais livros de nomes femininos. E foi aí que eu comecei a me tocar e diversifiquei minha leitura", conta Vaz.

Leituras essenciais de Sérgio Vaz

Para conhecer a obra do poeta, vale ler:

  • Colecionador de Pedras (2007)
  • Literatura, Pão e Poesia (2011)
  • Flores de Alvenaria (2016)
  • Flores da Batalha (2023)
Estadão
Compartilhar
TAGS
Publicidade

Conheça nossos produtos

Seu Terra












Publicidade