Quando começar a falar sobre o Holocausto com as crianças? Os livros podem ajudar
No Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto, especialistas falam sobre a importância da memória histórica e o papel dos livros na formação de empatia e senso crítico; confira ainda sugestões de obras
No dia 27 de janeiro é celebrado o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto. A data, estabelecida pela ONU apenas em 2005, marca a libertação do campo de concentração de Auschwitz-Birkenau em 1945 e homenageia os seis milhões de judeus e outras minorias perseguidos pelo regime nazista.
Mais do que lembrar a data, preservar a memória desse marco histórico é um exercício essencial, e um desafio permanente quando se trata de transmiti-la às novas gerações.
Mas como falar sobre o Holocausto, racismo, intolerância e violência com crianças e jovens sem causar trauma, e ao mesmo tempo estimular empatia, memória e senso crítico?
Segundo a psicóloga Tamiris Sasaki de Oliveira, mestre em avaliação psicológica e especialista em estimulação precoce, existem idades mais adequada para abordar determinados temas. "Mas também podemos falar de acordo com o interesse/curiosidade dela", explica. A visão é compartilhada por Dani Gutfreund, editora na Livros da Matriz e gestora no Lugar de Ler. "Acredito que o momento certo seja quando a criança ou jovem se interessa pelo assunto, quando as perguntas começam a aparecer", pontua.
Tamiris ressalta que, ao introduzir o tema, é importante considerar o nível de compreensão da criança. "Por volta dos 10, 11 anos a criança já tem mais noção e consciência sobre violência, empatia, preconceito... Antes dessa idade é preciso ponderar o que será dito e de que forma/contexto será falado", avalia a profissional.
Educadores e especialistas também defendem o uso de materiais e linguagens adequados à faixa etária e ao contexto emocional de cada criança ou jovem, respondendo às dúvidas conforme elas surgem, sem antecipar explicações de forma forçada. É nesse ponto que os livros ganham protagonismo.
Livros infantis e juvenis podem ser uma poderosa porta de entrada para temas complexos, ao apresentar histórias humanas e personagens com os quais leitores mais novos conseguem se identificar. "Eles são uma ótima ferramenta", avalia Tamiris. "Desde muito pequenos, os livros já ajudam as crianças a compreender o mundo e o que acontece a sua volta, também sobre si mesma, seus sentimentos, emoções, relações familiares", explica.
"A literatura permite que entremos em contato com experiências e mundos que nos são alheios", acrescenta Gutfreund. Para ela, quando uma criança traz um tema delicado, um livro ilustrado pode ajudar a conduzir essa conversa difícil. "Tratando do assunto simbolicamente, mas com respeito e sem negligenciar o tema", afirma.
"Muitas vezes, a conversa toda acontece ao redor da história que o livro conta e isso permite que a criança elabore o que precisa elaborar de acordo com suas competências", acrescenta Dani. Ela lembra ainda que há livros ilustrados que dialogam com leitores de qualquer idade e podem ser revisitados em diferentes fases da vida.
'NÃO', de Paula Carbonell com ilustrações de Isidro Ferrer
NÃO é um livro que fala do essencial, da proteção da infância, de não desistir apesar de tudo. Com poucas palavras, Paula Carbonell e Isidro Ferrer contam a história de uma irmã e um irmão presos no absurdo da guerra. Quando chegam à escola, certa manhã, um dos colegas não aparece. São mandados para casa, e descobrem que sua casa não existe mais. Encontram a mãe, que diz que agora vão brincar de esconde-esconde, mas o jogo não acaba e se torna amargamente sério. A história caminha por incertezas e termina com o palavrão do pai sobre a guerra. Um NÃO ao horror da guerra, uma recusa a desviar o olhar, mesmo quando o mundo não se importa. A tradução é de Dani Gutfreund.
Editora Livros da Matriz (48 págs.; R$ 62)
'Anne Frank: a menina que ficou invisível', de Marco Antonio Godoy
Anne Frank tinha acabado de fazer 13 anos quando teve que ir para um lugar secreto e ficar escondida por dois anos. Em seu esconderijo, ela escreveu um diário. Anos depois, o Diário de Anne Frank tornou-se um dos livros mais lidos do mundo. Quer saber como isto aconteceu? Comece por este livro e entenda porque Anne Frank passou a ser a menina com o superpoder de mostrar que intolerância e desigualdade não coisas legais.
Editora Suinara (52 págs.; R$ 49,90)
'A árvore no quintal', de Jeff Gottesfeld
A árvore da Prinsengracht, 263 observava enquanto a menina brincava e escrevia em seu diário. Quando estranhos invadiram Amsterdã e aviões roncavam acima das cabeças, a árvore via a menina afastar as cortinas do anexo da fábrica do pai para espiá-la. A árvore também viu a menina ser levada dali com sua família - e o seu pai retornar depois da guerra, sozinho. No verão em que Anne Frank completaria oitenta e um anos, a árvore morreu. Mas suas sementes e mudas foram plantadas pelo mundo afora, como símbolo da paz. A árvore no quintal introduz a delicada história de Anne Frank para o público infantil. Tradução de Luiz Antonio Aguiar.
Galera Junior (40 págs.; R$ 64,90)
'Quando Hitler roubou o coelho cor-de-rosa', de Judith Kerr
De uma das autoras mais reverenciadas da literatura infantojuvenil contemporânea, Judith Kerr, Quando Hitler roubou o coelho cor-de-rosa é uma obra indispensável na conscientização sobre o Holocausto. Indicada para leitores de 10 a 14 anos, a obra acompanha Anna, que estava ocupada demais com a escola e sua rotina para reparar nos cartazes que estampavam o rosto de Adolf Hitler pelas ruas de Berlim. Até que um dia, o pai dela foge do país, e logo Anna e seu irmão Max também precisam sair às pressas da Alemanha por um motivo que ainda não compreendem. Agora, com a família reunida em uma terra estrangeira, os irmãos vão ver suas vidas virarem de cabeça para baixo e precisarão aprender coisas novas a cada etapa do caminho. Mas logo irão descobrir que até meio a tudo isso podem encontrar maneiras de serem felizes ? desde que se mantenham unidos. Tradução de Laura Folgueira.
HarperKids (224 págs.; R$ 54,90)
'O menino da lista de Schindler', de Leon Leyson
Recomendado para crianças a partir de 10 anos, O menino da lista de Schindler conta a história de Leon, a história de um mundo despedaçado pela invasão dos nazistas. Quando em 1939 o exército alemão ocupou a Polônia, Leon tinha apenas dez anos. Logo ele e sua família foram confinados no gueto de Cracóvia junto a milhões de outros judeus. Com um pouco de sorte e muita coragem, o menino conseguiu sobreviver ao inferno e foi contratado para trabalhar na fábrica de Oskar Schindler, o famoso empreendedor que conseguiu salvar mais de mil e duzentos judeus dos campos de concentração. Neste testemunho que ficou por tanto tempo inédito, Leon Leyson conta sua história, na qual, graças à força de um menino, o impossível se tornou possível.
Rocco (256 págs.; R$ 54,90)
'O diário de Anne Frank em quadrinhos', de Ari Folman
Com ilustrações de David Polansky, esta edição em HQ de O Diário de Anne Frank conta de forma lúdica e detalhada a história de um dos livros mais importantes do século XX. o depoimento da pequena Anne, morta pelos nazistas após passar anos escondida no sótão de uma casa em Amsterdã, ainda hoje emociona leitores no mundo inteiro. Suas anotações narram os sentimentos, os medos e as pequenas alegrias de uma menina judia que, como sua família, lutou em vão para sobreviver ao Holocausto. Indicado para leitores a partir dos 12 anos.
Record (160 págs.; R$ 63)
'O anjo da guarda do vovô', de Jutta Bauer
As aventuras da infância, os perigos da juventude e os desafios da vida adulta eram sempre encarados pelo avô com coragem e ousadia; porém, mal sabia ele que um anjo da guarda incansavelmente o protegia nos momentos mais difíceis. Os leitores são os únicos que conhecem esse mistério que envolve a vida dos personagens dessa história que aborda a finitude com delicadeza e celebra a intensidade da vida. A combinação perfeita entre texto e imagem faz de O anjo da guarda do vovô um dos livros ilustrados mais importantes da carreira da premiada artista alemã Jutta Bauer. Indicado para leitores a partir de 4 anos.
Companhia das Letrinhas (56 págs.; R$ 59,90)
'Querida Kitty', de Anne Frank
Querida Kitty é o romance inacabado que Anne Frank escreveu a partir do seu diário. Por dois anos Anne registrou sua vida no esconderijo em um diário hoje mundialmente conhecido. Mas ela tinha um grande desejo: publicar um romance sobre essa experiência quando a guerra terminasse. Como trabalho preparatório para esse projeto, ela reelaborou minuciosamente seu diário. As cartas à amiga imaginária Kitty, apresentadas pela primeira vez como uma publicação em separado, dão prova do talento literário da jovem autora. Com grande sensibilidade e fino senso de humor, ela relata à sua amiga o cotidiano da vida na casa, as relações entre seus moradores e o clima de terror que aumentava progressivamente com a escalada da guerra. Recomendado para jovens de 12 a 14 anos.
Clássicos Zahar (320 págs.; R$ 74,90)
'Uma Vez', de Morris Gleitzman
Felix Salinger, um menino judeu de 10 anos que mora na Polônia, adora ler e é ótimo em escrever e contar histórias. E é isso o que ele mais faz enquanto espera, num orfanato católico, o pai e a mãe, que foram cuidar da livraria da família. A mensagem ficou mais clara quando livros judeus da biblioteca do orfanato foram transformados em uma imensa fogueira. Seus pais e a livraria da família estavam em perigo. O garoto sabia que precisava voltar para casa para ajudá-los. Assim começa a jornada de Felix por um país tomado por soldados nazistas, vizinhos delatores, mas também por pessoas dispostas a ajudar. A incrível imaginação do garoto é sua melhor companhia para compreender a terrível realidade que o cerca. Este é um livro especial, que nos faz testemunhas do horror do Holocausto pelo doce e inocente olhar de uma criança. Para crianças a partir dos 10 anos.
Paz & Terra (160 págs.; R$ 54,90)
'Então', de Morris Gleitzman
A história de Felix começou a ser contada no livro Uma vez, ao descobrir que foi deixado pelos pais em um orfanato e resolve fugir, na tentativa de reencontrar a família. No meio do caminho, além de muitos sustos e perigos, Felix encontra Zelda, uma menina de 6 anos que ele salva de um incêndio. Em Então, Felix e Zelda, depois de fugirem de um trem que leva judeus para um campo de concentração na Polônia, precisam de coragem, criatividade e sorte para não serem pegos pelos nazistas nem morrerem de fome ou frio. Este é um livro que evoca emoção e ternura ao narrar, do ponto de vista infantil, as dificuldades de quem lutou para sobreviver ao Holocausto.
Paz & Terra (192 págs.; R$ 41,17)
'Pássaro branco: Uma história de extraordinário', de R. J. Palacio
Em Extraordinário, milhões de leitores se apaixonaram por Auggie, um menino com deformidade facial que decide ir à escola e enfrenta o olhar julgador do mundo. Escrito e ilustrado por R. J. Palacio, Pássaro branco é a estreia da autora no universo dos quadrinhos e revela um novo lado de Julian, um colega de turma que fazia questão de que Auggie não fosse tratado como um garoto comum. Durante uma tarefa de casa, Julian conhece o passado comovente de Grandmère, sua avó. Ainda criança, ela precisou se esconder dos nazistas na França, durante a Segunda Guerra Mundial. Pelos olhos da pequena Sara, vemos a escalada do Nazismo e também a força de uma relação de acolhimento e afeto. Com belas ilustrações e trechos poéticos, R. J. Palacio retorna ao universo de Extraordinário para recontar um capítulo terrível da história da humanidade. Tradução de Rachel Agavino.
Intrínseca (224 págs.; R$ 46,90)
'Maus', de Art Spielgeman
Indicado para leitores a partir dos 13 anos, Maus é um relato comovente sobre Auschwitz e um acerto de contas do artista com o pai. Única história em quadrinhos a receber o Prêmio Pulitzer. Desde que foi lançada, tem sido objeto de estudos e análises de especialistas de diversas áreas - história, literatura, artes e psicologia. Nas tiras, os judeus são desenhados como ratos e os nazistas ganham feições de gatos; poloneses não-judeus são porcos e americanos, cachorros. Esse recurso, aliado à ausência de cor dos quadrinhos, reflete o espírito do livro: trata-se de um relato incisivo e perturbador, que evidencia a brutalidade da catástrofe do Holocausto.
Quadrinhos na Cia (296 págs.; R$ 94,90)
Outros livros para abordar o tema da guerra para pequenos leitores
'Meu nome', de Marilda Castanha
Nomes carregam nossas origens e nossa memória. E, em tempos difíceis, nos lembram de quem somos, de onde viemos e nos ajudam a resistir. Esta história cuidadosamente elaborada pela premiada Marilda Castanha não é só sobre um nome. Nem apenas sobre o menino que o carrega. Mas um convite para refletirmos sobre os impactos da guerra na vida das crianças, a esperança que nutrimos por um mundo de paz e a importância de não abrirmos mão de nossa identidade e de nossas origens. Indicado para leitores a partir de 6 anos.
Companhia das Letrinhas (48 págs.; R$ 64,90)
'Mexique', de maria José Ferrada
Em 27 de maio de 1937, um grupo de 456 meninas e meninos embarcou no transatlântico Mexique, que partiu de Bordeaux, na França, para o México. Eles deveriam permanecer lá por três ou quatro meses, mas não contavam com a derrota republicana ou o início da Segunda Guerra Mundial, dois episódios que tornaram seu exílio definitivo. As "crianças de Morelia" nunca mais voltaram a sua pátria e, se o fizeram, várias décadas depois, encontraram um país, irmãos e paisagens que já não reconheciam. Este livro conta a história de um navio, sabendo que não há registro de todos aqueles que cruzam o oceano todos os dias, transferindo seres humanos que têm direito a uma vida digna sem que a terra se desintegre sob seus pés. Indicado para leitores a partir de 8 anos.
Pallas Mini (32 págs.; R$ 56)