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'Povo Brasileiro': a travessia sonora de Pierre Aderne inspirada em Darcy Ribeiro

Entre a França, o Brasil e Portugal, Pierre Aderne construiu uma trajetória musical marcada pelo trânsito e pela escuta. Nascido em Toulouse, criado no Rio de Janeiro e radicado em Lisboa, o músico e produtor apresenta agora "Povo Brasileiro", novo álbum do coletivo Rua das Pretas, projeto que sintetiza essa experiência entre margens do Atlântico. O grupo lançou o disco esta semana no L'Ermitage, em Paris, e chega ao Brasil para uma apresentação no Festival Remexe Rio, no dia 24 de maio.

13 mai 2026 - 15h27
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O disco reúne músicos do Brasil, de Portugal e de Cabo Verde em uma leitura contemporânea desse território comum: plural, miscigenado e sem hierarquias impostas. Gravado na Casa Darcy Ribeiro, projetada por Oscar Niemeyer em Maricá (RJ), o álbum propõe um encontro orgânico entre linguagens musicais. Samba carioca, fado português, morna cabo‑verdiana, referências à capoeira, aos ijexás e afoxés se cruzam sem a pretensão de uma "fusão" planejada.

O músico e produtor Pierre Aderne.
O músico e produtor Pierre Aderne.
Foto: © RFI/Adriana Moysés / RFI

Segundo Aderne, essa conversa aconteceu de forma natural, como sempre ocorreu na música brasileira. "Assim como ninguém sabe exatamente por que a música brasileira chega à capoeira, a um ponto de candomblé ou a um frevo. Quando a gente é submetido a um campo novo de conhecimento, aquilo vira um sotaque orgânico."

Essa forma de criar nasce da própria história da Rua das Pretas, coletivo fundado há cerca de 15 anos, em Lisboa, a partir de encontros musicais realizados na casa de Aderne. Inspirados nos saraus cariocas da rua Nascimento Silva, onde morou Tom Jobim, esses encontros reuniam músicos de trajetórias diversas e ampliaram o contato do artista com a África que também fala português - ainda que ele rejeite o termo "lusofonia".

"É uma palavra desequilibrada. Prefiro pensar que essas matrizes nos pertencem a todos: portugueses, brasileiros, africanos. Isso me ajudou a entender melhor como se deu a nossa construção musical no Brasil."

Com o tempo, essas reuniões informais se transformaram em um espaço constante de troca e criação, que deu identidade à Rua das Pretas como projeto musical e político, mais interessado na convivência entre histórias do que em categorias formais.

Darcy Ribeiro como chão simbólico

Embora o conceito do álbum venha sendo tecido há anos, especialmente na parceria com Moacir Luz, com quem Aderne compõe há cerca de cinco anos, a gravação em Maricá trouxe uma dimensão simbólica decisiva. A relação com Darcy Ribeiro também atravessa a vida pessoal do músico: sua mãe trabalhou com o antropólogo na Universidade de Brasília, no projeto que deu origem aos CIEPs.

"Gravar na casa do Darcy foi um encontro quase espiritual. A oportunidade de montar um estúdio dentro do museu.  A gente estava, sem saber, construindo a trilha sonora daquele livro, O Povo Brasileiro, que foi tão estrutural para mim."

O disco conta ainda com arranjos escritos por Kiko Horta, um dos criadores do Cordão do Boitatá, patrimônio imaterial do Rio de Janeiro. Aderne descreve esse encontro como a junção de uma "orquestra humana" - músicos do morro, da cidade e da África - com uma escrita musical que evoca nomes como Tom Jobim, Moacir Luz e outros mestres. "Foi como uma lavagem das caravelas. Como se a gente tivesse chegado a Maricá numa caravela diferente, dessa vez com músicos de três continentes."

Vozes femininas e travessias

Entre as vozes femininas do álbum estão a cantora Zulu, da Ilha da Boa Vista, em Cabo Verde; a fadista portuguesa Ana Margarida Prado; e a flautista Letícia Malvares, brasileira radicada em Madri. Para Aderne, o impacto da gravação naquele espaço histórico foi profundo, especialmente para as intérpretes africana e portuguesa.

"Cabo Verde é quase uma clave de sol no meio do oceano, entre Lisboa e o Rio. Para a Zulu, estar ali foi muito simbólico. E a Ana Margarida ficou tocada ao lembrar daquela narrativa das lavadeiras portuguesas que, no início do século 20, cantavam fados na Fonte da Saudade, na Lagoa, com saudade da terrinha."

Essas presenças femininas ajudam a ampliar o alcance emocional e histórico do álbum, conectando diferentes tempos e deslocamentos atlânticos.

Nilson Dourado, parceiro de Aderne na Rua das Pretas há dez anos - "um paulistano baiano, radicado em Sintra, multi-instrumentista, cantor, compositor, pai de santo" -, completou o mutirão.  

O filme como extensão do disco

"Povo Brasileiro - Rua das Pretas" ganha ainda uma dimensão visual com um curta‑metragem filmado entre o Rio de Janeiro e Lisboa, dirigido pelo próprio Aderne, com roteiro do escritor e jornalista cabo‑verdiano Jorge Araújo. O projeto não nasceu como documentário, mas como um registro do processo. Foi durante as filmagens em Maricá que a narrativa audiovisual se impôs.

"Quando subi um drone em frente à casa do Darcy, tive a sensação de que aquela era a primeira imagem que os portugueses tiveram ao chegar ali. Maricá é território Tupinambá. Aquilo me tocou profundamente."

A partir dali, o filme passou a assumir outra ambição: não explicar a história, mas navegar por ela. Imagens, memórias e deslocamentos se articulam como uma espécie de vestimenta do álbum.

"O filme acaba sendo o figurino do disco. Mesmo falando de encontros forçados, de um Atlântico que uniu e esmagou, existe uma doçura na narrativa. E isso é extremamente importante agora. Ao invés de a gente se separar e buscar as diferenças, a gente deve sentar com propriedade nesse patrimônio que é nosso."

Um patrimônio comum

Para Pierre Aderne, o disco e o filme propõem um gesto de reconciliação com esse patrimônio compartilhado, em vez de reforçar separações nacionais ou identitárias. "A música de língua portuguesa é uma das mais ricas do planeta por conta desses encontros. A gente passou tempo demais tentando separar o que é brasileiro, português ou africano. Isso é impossível - e ainda bem."

Em "Povo Brasileiro", Aderne não busca respostas definitivas sobre origem ou pertencimento. Prefere celebrar o caminho comum, feito de travessias, sotaques e sobreposições. Como ele resume, ao lembrar de povos que partiram do mesmo ponto e tomaram rumos distintos, mas conectados: "Por mais que a gente não saiba exatamente de onde veio, veio do mesmo lugar".

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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