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O legado de Orides Fontela para a literatura brasileira

21 jul 2026 - 11h46
(atualizado às 12h51)
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Autora de cinco livros, poeta ganha homenagem da Flip e reedição da obra. Para críticos, sua poesia é marcada pela concisão dos versos e pelo caráter filosófico.Dias antes de morrer, em 2 de novembro de 1998, Orides Fontela ligou para Davi Arrigucci Jr. Os dois eram amigos desde São João da Boa Vista, a 218 km de São Paulo, onde ela nasceu. De Campos do Jordão, onde estava internada em um sanatório para pacientes com tuberculose, a poeta avisou que estava mal de saúde e que, dessa vez, não escaparia. Do outro lado da linha, o crítico procurou tranquilizá-la: "Fique bem. Não se preocupe. Sua poesia sobrevive".

Davi Arrigucci Jr. tinha razão. Quase 28 anos depois, a poesia de Orides Fontela sobrevive. Prova disso é o relançamento de sua obra completa pela Hedra. Além dos cinco livros que ela escreveu, a editora vai publicar três títulos: uma nova edição da biografia O Enigma Orides, de Gustavo de Castro, que registrou o episódio acima, o infantil Pelos Olhos de Orides e o volume Conversas: Escritos e Entrevistas de Orides Fontela.

"Embora dialogue com diferentes tradições da poesia moderna, Orides transforma essas influências em linguagem própria", afirma Suzana Salama, editora da Hedra. "Cada livro amplia e ressignifica o anterior. Sua poesia organiza-se como uma espiral: imagens como o pássaro, a estrela e o espelho, entre outras, retornam continuamente, mas, a cada reaparição, adquirem novos significados. É uma das vozes mais originais da poesia brasileira contemporânea".

Outra demonstração da permanência de sua poesia é a 24ª edição da Feira Literária Internacional de Paraty (Flip), que acontece entre os dias 22 e 26 de julho. Ao longo dos cinco dias de programação, a obra de Orides Fontela, a homenageada da vez, será debatida através de saraus, mesas-redondas e da conferência de abertura "Entra Furtivamente a Luz", com direito a introdução do crítico Augusto Massi e performance da poeta Marília Garcia.

"A poesia de Orides é muito singular. Sua concisão era magistral. Criar imagens fortes com poucos versos, dizer mais com menos palavras, é o sonho de nove entre dez poetas", analisa Rita Palmeira, curadora da Flip. "Num tempo em que se costumava circunscrever a escrita feminina a certos temas e formas, Orides cria poemas que alargam esse universo. Contribuiu para as poetas que vieram depois escrever sobre qualquer assunto e do modo como preferissem."

Estrela solitária da poesia brasileira

Filha de um marceneiro e de uma dona de casa, Orides de Lourdes Teixeira Fontela nasceu no dia 21 de abril de 1940, em São João da Boa Vista, no interior de São Paulo. "Minha mãe leu isso [Orides] numa revista. Achou bonito e lascou em mim", contou ela no programa Jô Onze e Meia, em 1996. Já o livro O Enigma Orides conta outra versão: "Álvaro escolheu o nome Orides, corruptela de Eurídice, desejoso de que ela fosse 'forte e vitoriosa'".

"A poesia de Orides é simultaneamente delicada e brutal: 'A lucidez / alucina'", define a poeta Nathaly Ferreira Alves, citando a epígrafe do livro Teia (1996). "Gostaria de destacar, entre outras contribuições para a literatura brasileira, a concisão como estratégia poética de extrair o máximo do mínimo. Ela dizia muito com pouco. Os poemas de Orides Fontela criam um universo próprio. Sua obra é única no cenário nacional."

Quando tinha sete anos, Orides foi matriculada no Grupo Escolar Joaquim José, atual Escola Estadual Coronel Joaquim José, em sua cidade natal. Um ano depois, um professor leu o poema O Navio Negreiro (1880), de Castro Alves, em sala de aula. "Que horror, Meu Deus, que sofrimento!", bradou a aluna, aos prantos. Com o passar dos anos, descobriu outros poetas: Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, João Cabral de Melo Neto...

"Orides foi uma estrela solitária", define a poeta Viviana Bosi. "Se Orides recebeu o reconhecimento que merecia? Sim e não. Recebeu de grandes críticos, como Davi Arrigucci Jr., Antônio Candido e Augusto Massi. Todos escreveram sobre ela em vida e ajudaram a editar e divulgar sua obra. Por outro lado, como, aliás, costuma acontecer, são poucos os leitores de poesia, sobretudo quando publicada em editoras menores. Sua obra foi restrita aos amantes do gênero."

"Orides tem uma dicção poética muito própria. Seus versos são dotados de enorme controle rítmico e formal", acrescenta o filósofo Henrique Estrada Rodrigues. "O grande público também não ficou alheio à sua vida e obra. Me lembro de uma entrevista com ela no programa do Jô. Na década de 1990, ele tinha enorme audiência e ajudou muita gente a se consagrar. Isso não tornou Orides Fontela sucesso de público: mas qual poeta o foi alguma vez?", indaga.

Poesia filosófica ou filosofia poética?

Davi Arrigucci Jr. tinha 21 anos quando leu no jornal O Município, de São João da Boa Vista, um poema de Orides intitulado Elegia. "Magistral", exclamou ele. Logo, escolheu três poemas da autora - Elegia, Meada e Destruição - e os levou para São Paulo, onde cursava Letras na Universidade de São Paulo (USP). Lá, mostrou os versos, entre outros críticos, para Antonio Candido e Décio de Almeida Prado. "Parcimônia opulência", descreveu Candido.

Em 1966, Orides trocou o interior pela capital. Em São Paulo, morou em incontáveis endereços. Um deles: Rua Dr. Cesário Mota Júnior, 565 / 66, onde viveu por 12 anos e que chamava carinhosamente de "ninho". Outro: o apartamento 51 da Casa do Estudante, na USP. Dos muitos endereços em que morou, pelo menos dois pegaram fogo. Um em 1981, outro em 1988. Em um deles, a carta que recebeu de Drummond foi consumida pelas chamas.

Entre 1969, data de sua estreia literária, e 1996, quando publicou seu último livro, Orides Fontela escreveu cinco livros: Transposição (1969), Helianto (1973), Alba (1983), Rosácea (1986) e Teia (1996). Ganhou dois prêmios - o Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro (CBL), por Alba, e o APCA, da Associação Paulista de Críticos de Arte, por Teia - e três traduções: para o inglês, o francês e o catalão.

Por ocasião do lançamento de Teia, Orides concedeu algumas poucas entrevistas. Duas delas foram para a TV: o programa Fantástico, da TV Globo, e o talk-show Jô Onze e Meia, do SBT. "A vida de mulher brasileira pobre não é mole!", declarou à repórter Helena de Grammont. "O Covas é que vai me enterrar na cova!", arrematou ao humorista Jô Soares, em referência ao então governador de São Paulo, Mário Covas.

"Tive só um contato pessoal com ela, no lançamento do meu livro na coleção Claro Enigma, em 1989. Orides bebeu demais e terminou agredindo as pessoas. São histórias que, na hora, pareciam engraçadas, mas que, na verdade, são profundamente trágicas", recorda o poeta Paulo Henriques Britto. "Tinha um talento poético imenso, mas também uma vocação incontornável para a autodestruição. Infelizmente, essa combinação está longe de ser rara em poetas."

Além de poeta, Orides foi professora e filósofa. Como professora, formou-se no Instituto de Educação Coronel Cristiano Osório de Oliveira, lecionou na Escola Estadual Professora Marisa de Mello e se aposentou em 1989. "Precisava ter uma profissão. Por isso, fui dar aulas. Mas nunca tive paciência para aguentar meus alunos", declarou, em 1993. Como filósofa, graduou-se pela USP. Gostava dos alemães Immanuel Kant e Martin Heidegger.

"A poesia de Orides inaugura uma forma híbrida entre pensamento poético e impulso filosófico. Como a coruja de um de seus poemas, ela capturava materiais poéticos nos textos filosóficos que lia", destaca a filósofa Patrícia Lavelle. "Certa vez, Orides, implacável e insolente, levantou o dedo e, diante da turma, corrigiu o erro de um professor de filosofia da USP que confundiu dois conceitos de Kant. Um de seus poemas mais conhecidos, aliás, é Kant (relido)".

A autointitulada poeta mais pobre do Brasil

Orides inspirou dois documentários: A Um Passo do Pássaro (2000), de Ivan Marques, e Orides - Onde Ninguém Mais (2018), de David Ribeiro. O primeiro apresenta relatos do crítico Davi Arrigucci Jr., do poeta Alcides Villaça e da filósofa Olgário Matos. "Como assim 'administrar a existência'? Pobre não administra a existência. Pobre sobrevive. A gente faz o que pode, e a poesia acontece quando quer", afirma a poeta de 7,5 graus de miopia em um olho e 8,25 em outro.

"Sua poética congregou inclinação filosófica, espiritualismo estoico e condensação poética com um máximo domínio da linguagem", observa o poeta Alcides Villaça. "Orides nunca teve dúvida quanto ao valor de sua poesia. Vivendo em estado de grande carência econômica, apesar de não lhe faltar quem a amparasse em muitos momentos, ela também se ressentia de uma insaciável voracidade de afeto e costumava cobrar justamente de quem mais lhe valesse…"

Já o segundo reúne depoimentos, entre outros, do biógrafo Gustavo de Castro, da amiga Gerda Schröeder e do editor Luís Fernando Emediato. As atrizes Luana Beatriz Costa e Anna Cláudia Zanetti se revezam no papel de Orides adolescente e adulta. O documentário foi produzido pela UNIFAE, centro universitário que guarda, desde 2016, as cinzas da poeta, além de objetos pessoais dela, como a máquina de escrever (Olivetti Studio 45) e a cadeira de balanço.

"O que mais me chamou a atenção foi sua real intensidade. Na obra, ela conseguiu discursar sobre mistérios universais com apenas três linhas. Na vida, viveu intensamente, da maneira que pôde, com o dinheiro que teve, e, assim ainda, produziu muito", analisa o diretor e roteirista David Ribeiro. "A cena mais forte do documentário foi a despedida dela. Filmamos em um teatro vazio, que simulava um necrotério. Foram dias intensos, com muita emoção e tristeza."

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