'O escritor é um secretário da morte': livro resgata diálogo raro entre Susan Sontag e John Berger
Amigos de longa data, os autores participaram, em 1983, do 'Voices', programa que promoveu uma pequena revolução na televisão britânica; conversas foram transcritas no livro 'Narrar Histórias'
O livro "Narrar Histórias" registra um raro diálogo televisivo de 1983 entre Susan Sontag e John Berger sobre o ofício literário e a natureza da narrativa. No debate, Berger define o autor como um "secretário da morte", que dá sentido à vida ao registrá-la em retrospecto, enquanto Sontag enfatiza a liberdade estética, a fantasia e a quebra com a tradição oral. A obra exemplifica a força de publicações dedicadas a conversas profundas entre grandes criadores sobre seus processos artísticos.
Escrever, em geral, é um ato solitário, momento em que o autor convive apenas com seres imaginários. As dificuldades são muito específicas, o que apenas outro escritor consegue entender. O encontro entre criadores, portanto, resulta em conversas íntimas e estimulantes, atraindo a curiosidade do grande público. E, quando alguns desses debates chegam ao formato do livro, preenchem a necessidade de documentar diálogos que merecem a eternidade.
O livro mais recente a chegar ao mercado brasileiro é Narrar Histórias (Fósforo), transcrição dos diálogos de um programa de televisão que uniu o crítico de arte e romancista inglês John Berger (1926-2017) e a escritora e ensaísta norte-americana Susan Sontag (1933-2004). O volume vem se unir a outros do gênero, como Amor em Texto, Amor em Contexto (Papirus 7 Mares), fruto da conversa entre Ana Maria Machado e Moacyr Scliar (1937-2011), e Conversas entre Escritores (Arte & Letra), reunião de 21 bate-papos entre autores, em sua maioria de língua inglesa.
Amigos de longa data, Sontag e Berger participaram, em 6 de fevereiro de 1983, do Voices, programa da emissora Channel 4, que promoveu uma pequena revolução na televisão britânica ao transmitir discussões e palestras que exploravam teorias culturais, sociais e literárias. Habitualmente comandado por um apresentador, aquele encontro foi conduzido apenas pelos dois escritores, com tempo de sobra para discutir sobre os meandros da escrita literária.
O programa está disponível no YouTube. Nele, é possível observar Sontag e Berger sentados um de frente para o outro em uma pequena mesa redonda, com três tapetes pendendo atrás deles.
A natureza da narrativa
Na transcrição da conversa, Berger e Sontag exploram a natureza fundamental da narrativa, examinando seu papel duplo de transmitir a verdade e estimular a imaginação. Eles discutem a diferença entre tradições orais e narrativas literárias, questionando se as histórias existem para oferecer abrigo contra o esquecimento ou para transportar os leitores por meio da fantasia.
"Escrever é contar com o artifício da arte", afirma Sontag. "É uma transformação do contar oral. Quando as pessoas começaram a escrever histórias, elas contavam outros tipos de narrativa, porque houve um rompimento radical com a tradição oral: há coisas que você quer narrar de forma escrita e que não conseguiria de forma oral."
Ela se dizia interessada em narrar várias histórias ao mesmo tempo, às vezes cortando uma e passando para outra. "Imagino que é uma coisa que eu tenha aprendido não só com a literatura, mas principalmente com o cinema", conta Sontag, que deixou uma vasta obra, na qual tanto desvendou os mistérios da fotografia como, em ensaios, celebrou a arte da complexidade e da ambiguidade.
Já Berger observava a ficção como uma luta contra o absurdo. "Não existe nas histórias uma intensidade que se iguale de fato à intensidade do que é vivido", diz. "Para mim, parece que uma vida se torna legível, e portanto narrável, quando chega ao fim, o que insere o escritor ou o contador de histórias em uma categoria estranha. Quer dizer, ele é uma espécie de secretário da morte."
Autor de Modos de Ver, um clássico lançado originalmente em 1972 que revolucionou o modo como as artes visuais eram compreendidas no século 20, Berger via na morte um caminho para desvendar a vida. "O escritor lê a vida como se ela estivesse do outro lado daquela escuridão, e então começa a escrever."
Sontag responde que também se interessa pelas particularidades. "Desde Flaubert, nós nos interessamos muito, como escritores e como leitores, e nos sentimos muito tocados por uma espécie de detalhe marginal, um detalhe inesperado", comenta. "Flaubert em Madame Bovary descreve Charles olhando a nuca de Emma, por exemplo, ou o ângulo do cotovelo dela ao verter uma jarra de leite."
Amigos por mais de 25 anos, Sontag e Berger também trocaram cartas pessoais e guardaram gravações como arquivo, fragmentos de uma relação desafiadora, por vezes trivial e sempre afetuosa. Ele a chamava, por exemplo, de Silver, apelido inspirado na mecha de cabelo que ela usava como símbolo de vitória após sua primeira batalha contra o câncer. O livro traz reproduções da correspondência.
Sintonia, liberdade e fantasia em outras conversas e livros
A sintonia é visível nos comentários que se completam - para Berger, as histórias estão ligadas à relação e ao registro; para Sontag, à liberdade e à fantasia. Se Berger desponta como a testemunha ética, Sontag surge como a defensora da autonomia estética.
Idêntica afinidade é observada na conversa entre Ana Maria Machado e Moacyr Scliar, demonstrada em Amor em Texto, Amor em Contexto. Em uma conversa realizada na Academia Brasileira de Letras, no Rio, em 2009, a dupla falou sobre como o homem, apesar de viver em uma época de relações efêmeras e virtuais, ainda busca o amor eterno.
"Falamos sobre o que é vital em literatura, a questão do amor, do sentimento em geral. Afinal, literatura é isso, uma troca de sentimentos, de emoções com o leitor, via texto", comentou Scliar.
O mesmo fio charmoso conduz Conversas entre Escritores, que traz a troca de ideias de nomes do naipe de John Banville, Ian McEwan, Paul Auster, Haruki Murakami, Orhan Pamuk, Zadie Smith e Dave Eggers.
Uma das melhores conversas uniu Zadie e McEwan. Como o encontro aconteceu em 2004, os atentados terroristas de 11 de setembro de 2001 ainda eram tema recorrente. O escritor, por exemplo, acabara de lançar Sábado (Companhia das Letras), romance que aborda a tragédia de forma oblíqua. "Fica claro que o fato ocorrido naquele dia já era um incidente típico de um livro seu", pondera Zadie, que se revela profunda conhecedora da obra do conterrâneo. "Porque, de qualquer forma, a explosão do irracional dentro do racional era o seu 'modus operandi'. Porque sua ficção já era sobre a ideia de uma intervenção maligna."
Os escritores não escondem sua curiosidade em descobrir as motivações que levaram o colega a enveredar por tal caminho. Julie Orringer, por exemplo, especula com Tobias Wolff se sua passagem pelo colégio interno foi decisiva para, no futuro, aprender a manipular a verdade em proveito próprio.
A angústia provocada pelo ato da escrita, aliás, já era um tema tratado por Clarice Lispector que, no fim dos anos 1960, entrevistou personalidades para a revista Manchete para complementar o orçamento doméstico. Entre seus preferidos estavam, claro, outros autores. Eram momentos, na verdade, nos quais Clarice revelava suas inquietações com o ofício, buscando compartilhar dúvidas. "Fernando (Sabino), por que é que você escreve? Eu não sei por que escrevo, de modo que o que você disser talvez sirva para mim", diz ela, na conversa reunida em Entrevistas (Rocco). Incerteza que, além de universal, parece eterna.
Leia trecho de 'Narrar Histórias'
John Berger
Me parece que uma vida se torna legível, e portanto narrável, quando chega ao fim, o que insere o escritor ou o contador de histórias numa categoria estranha. Quer dizer, ele é uma espécie de secretário da morte. Ele é secretário da morte, muito familiar. Mas o que ele lê, claro que não é a morte, e sim a vida. Ele lê como se ela estivesse do outro lado daquela escuridão, e ele começa a escrever. É um movimento contrário no tempo porque a vida segue numa direção e a história se vira para a outra. É como naquelas antigas inscrições latinas, bem do começo, em que há um termo para isso, 'boustrophedon' ou algo assim... Bom, de qualquer modo, significa "como o boi vira ao arar", porque você tinha uma linha que ia assim e eles não começavam a outra lá do outro lado, mas seguiam ela desse jeito. Então você tinha esse movimento.
(Desenha um zigue-zague)
Susan Sontag
Mas você realmente acha que uma vida só é inteligível depois que acaba? Eu não penso assim...
John Berger
Inteligível, não.
Susan Sontag
Mas que ela só pode ser lida por você...?
John Berger
Não, o seu sentido completo só fica visível. É inteligível, é compreensível antes, claro.
Susan Sontag
Mas aí você está dizendo que o ponto central na narração de histórias é narrar uma vida, e, se o entendimento máximo de uma vida só vem depois da morte, então o modelo básico de narrativa para você, de narração de histórias para você, é narrar a história de uma vida. E é com isso, entende, que não concordo. Quer dizer, acho que é um modelo muito interessante e suponho que seja um modelo arcaico, mas não o único. Porque existem outras histórias que são narradas e não envolvem simplesmente uma vida só, mas, digamos, um acontecimento como uma campanha numa guerra ou algo assim, que muitas vezes vem marcado pela morte. E adoro a sua formulação de que o escritor é o secretário da morte. Acho que é verdade. Mas acho que é verdade de uma forma menos literal do que você sugere. Porque ainda recuo diante da ideia de que a coisa fundamental na narração de histórias é narrar a história de uma vida ou... Suponho que você ampliaria isso para abranger uma série de vidas de uma família, pode ser uma família ou uma comunidade ou coisa assim. Você não acha que existem muitas outras formas de narrar?
Narrar Histórias
- Autores: John Berger e Susan Sontag
- Organização: Benoit Bourreau
- Tradução: Denise Bottmann
- Editora: Fósforo (160 págs.; R$ 84 / R$ 59 o e-book)
Comentários
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.