O complexo legado queer do grupo Village People
Em seu novo livro, o jornalista musical veterano Barry Walters examina as maiores canções e artistas LGBTQ+ do século XX
O que faz com que uma música, um cantor, uma peça musical seja considerada gay? Para o renomado crítico Barry Walters, que construiu sua carreira escrevendo resenhas para o The Village Voice, Rolling Stone, The Advocate e o San Francisco Examiner, explorar a história da música LGBTQ+ é inerentemente complicado pela longa luta da comunidade queer por aceitação na cultura.
Claro, "
Pink Pony Club", de Chappell Roan, é uma faixa com certificado de platina que celebra as ruas brilhantes e regadas a álcool do bairro gay de West Hollywood, em Los Angeles, mas algumas das maiores canções gays da história da música conquistaram esse reconhecimento graças aos fãs que leram nas entrelinhas ou encontraram o verdadeiro significado por trás de pistas visuais e personas extravagantes. Em seu novo livro,
Mighty Real: A History of LGBTQ Music, 1969-2000(lançado na última terça-feira, 5),
Waltersutiliza mais de 40 anos de pesquisa profissional, conhecimento musical e informações privilegiadas para contar uma história honesta das maiores canções e artistas LGBTQ+ do século XX.
"Meu objetivo foi demonstrar como nós, como uma coalizão, damos sentido à cultura, às vezes inicialmente underground, mas frequentemente em última análise mainstream, que construímos como artistas e ouvintes, apesar da oposição muitas vezes esmagadora", escreve ele no prefácio do livro. "Além disso, tentei capturar a comunidade que essas canções acolhedoras nos proporcionam — especialmente quando pensamos que estamos mais sozinhos."
Neste excerto exclusivo,
Waltersexplora como o legado de clássicos queer do Village People é complexificado pelas crenças políticas do único membro remanescente do grupo.
Nossa prodigiosa representante da disco music, Donna Summer, teve muitos colegas LGBTQ+ que invadiram o mainstream.
Disco Tex & the Sex-O-Lettes— um grupo de estúdio liderado pelo cabeleireiro de celebridades
MontiRock III— lançou, em 1974, o que continua sendo um forte candidato ao título de música mais
campa chegar ao Top 10 das paradas pop: "
Get Dancin'". A canção é interpretada pelo produtor
Bob Crewe, pelo co-compositor
KennyNolane pelo cantor
Cidny Bullens, que na época, décadas antes de sua transição, era conhecido como Cindy. Eles cantam a música inteira intercalada com os discursos de
Rock, que repetem suas aparições notoriamente afetadas em programas de entrevistas na TV. "Meu chiffon está molhado, querida", ele dispara como Liberace com o nível de homossexualidade no máximo.
O sucesso internacional de
Alicia Bridgesem 1978, "
I Love the Nightlife (Disco 'Round)" (1978), oferece comentários mais sutis que também vêm de uma perspectiva queer. O renomado DJ gay
Jim Burgessmaximizou seu potencial para as pistas de dança em uma versão de 12 polegadas tão suave que você pode nem perceber que a música é escrita sob a ótica de uma mulher negligenciada que luta para deixar seu marido mulherengo. Como tantas lésbicas da época presas em relacionamentos heterossexuais, a protagonista da canção anseia por libertação — "ack-shon", canta
Bridgesde forma memorável.
Bridgesse assumiu lésbica após o lançamento de seu álbum "
HocusPocus" em 1984, pela
Second Wave, subsidiária da
Olivia Records, e "
Nightlife" voltou a ganhar popularidade após sua aparição em
Priscilla, a Rainha do Deserto, a comédia de estrada de sucesso de 1994, na qual duas drag queens e uma mulher trans desfilam com uma miríade de figurinos fabulosos e vencedores do Oscar pelo interior da Austrália.
Após deixar o
Edgar Winter Group, com quem tocava baixo, compôs e cantou o sucesso de 1973 da banda, "
Free Ride",
Dan Hartmanse tornou o roqueiro que fez a transição mais completa para a disco music; sendo gay, ele sabia como fazer isso da maneira correta. Após o lançamento do vibrante e certificado com disco de ouro
Instant Replayem 1978, ele lançou uma faixa de dez minutos tão perfeita que culmina todo o gênero.
Construída através de múltiplos crescendos de tensão, "
Vertigo/Relight My Fire", de 1979, culmina em uma canção de amor comovente, na qual
Hartmanclama por ajuda de seu parceiro(a) para reconstruir o relacionamento em crise. Contudo, embutida nessa narrativa, está uma profunda busca por refúgio e transcendência queer. O cantor pede não apenas ao seu parceiro(a), mas também aos seus ouvintes, que "se levantem em nome do amor" ("stand up in the name of love", no original) e tornem o mundo mais parecido com nossos sonhos. Através de um dos clímaxes mais estratosféricos da música popular, a canção explode em um clima gospel com a entrada impactante da vocalista mais poderosa e visceral da disco music, Loleatta Holloway. "Você precisa ser forte o suficiente para seguir em frente pela noite!" ("You gotta be strong enough to walk on through the night!"), ela implora. O público LGBTQ+ e negro conhece nossas adversidades em comum.
Holloway,
Hartman, os vocais de apoio e a orquestração se encaixam de forma tão harmoniosa que a afirmação buscada no início da canção finalmente chega.
Em 1993, um cover de "
Relight My Fire" feito pela boy band britânica Take That e pela escocesa Lulu alcançou o primeiro lugar no Reino Unido. Pouco depois,
Hartmanfaleceu de um tumor cerebral, numa época em que pacientes com AIDS, como ele, frequentemente morriam. Ele nunca se assumiu publicamente. Mesmo assim, "
Relight My Fire" permanece como um clássico das pistas de dança, garantindo que nossa tribo alcance um patamar superior na era disco.
Paul Jabaraviveu múltiplas vidas que convergiram na disco gay. Com participações em
Hair,
Jesus Cristo Superstare
The Rocky Horror Show, ele trouxe a opulência do teatro musical para sua carreira solo, repleta de referências LGBTQ+.
Ouvintes LGBTQ+ reconhecem que ele canta "ela" ao longo de "
Disco Queen", de 1978 — do filme
Até que Enfim É Sexta-Feira, a comédia dançante na qual ele também atua — para representar um de nós. "De onde ela tirou tanta energia?",
Jabarapergunta, retoricamente. Ele sabe que a resposta é
speed(anfeamina); é assim que sua "primeira-dama da pista" encontra a resistência para reinar de Los Angeles a Fire Island. No single de 12 polegadas de "
Disco Wedding/Honeymoon (In Puerto Rico)", ele está vestido tanto de noiva quanto de noivo.
Coautor de "
Last Dance" e "
No More Tears (Enough Is Enough)", de
Donna Summer, bem como do próprio sucesso disco de Barbra Streisand em 1979, "
The Main Event/Fight",
Jabaratrouxe essa irreverência para uma canção tão jocosa que nenhuma estrela a aceitaria. Em 1979, ele e o futuro líder da banda do
Late Show,
Paul Shaffer,escreveram " It's Raining Men" para
Summer, mas a cantora, recém-convertida à religião, considerou a música blasfema e enviou uma Bíblia a
Jabaraem resposta. Outras rejeições vieram de
Streisand, Cher e Diana Ross.
Jabarafinalmente venceu a resistência de
Martha Washe
Izora Armstead, do
Two Tons o' Fun. Renomeadas como The Weather Girls para o lançamento do single em 1982,
Washe
Armstead, esta última então conhecida como
Redman, se entregam completamente a uma canção que celebra a masculinidade, tão exuberante que é simultaneamente cômica e inspiradora. Naturalmente, tornou-se um hino gay instantâneo, além de um sucesso internacional inesperado. Impulsionada por um videoclipe de baixo orçamento, mas extremamente extravagante, com cenários em miniatura de filmes de monstros, coreografia ao estilo
BusbyBerkeleye dançarinos musculosos de sunga e capa de chuva, "
It's Raining Men" traz uma torrente de homossexualidade — daquelas que também falam com mulheres heterossexuais. "Arranque o telhado e fique na cama!" ("Rip off the roof and stay in bed!", no original), cantam as garotas sobre a batida instrumental estrondosa do co-produtor
Bob Esty. É a música favorita do personagem Homer Simpson.
O francês
Jacques Morali, nascido em Marrocos, tornou-se o guru mais bem-sucedido e menos apologético da disco music, criando músicas inspiradas em nós. "Morali era assumidamente gay e não tinha vergonha disso", disse seu sócio,
Henri Belolo. "Seu sonho era trazer um pouco da vida gay para o mainstream." Em 1975,
Moraliconvenceu
Beloloa financiar seu projeto de estúdio gravado na Filadélfia, o
Ritchie Family, mas só depois que o álbum
Brazilse tornou um sucesso é que
Moralireuniu um grupo feminino para promovê-lo. Fascinado por
Felipe Rose, um dançarino go-go vestido com trajes indígenas no Anvil, uma famosa discoteca gay de Manhattan,
Moraliaplicou essa abordagem ao seu próximo projeto conceitual, o
VillagePeople. "Eu queria fazer algo apenas para o público gay", admitiu
Moralià
Rolling Stoneem 1978.
Assim como a música da
RitchieFamily, o álbum
Village People, de 1977, foi gravado por músicos de estúdio, neste caso acompanhados pelo vocalista Victor Willis, com
Rosenos sinos. Suas quatro canções são hinos às comunidades LGBTQ+ — "
San Francisco (You've Got Me)", "
In Hollywood (Everybody Is a Star)", "
Fire Island" e "
VillagePeople". A primeira e mais impactante é uma explosão de semiótica queer-masculina que cita as ruas, roupas, meios de transporte e música mais gays de uma cidade "conhecida por sua liberdade". Assim como "cada gesto ali tem um significado" ("every gesture there has a meaning") , quase todos os versos enviam um sinal para os ouvintes LGBTQ+ decifrarem. O álbum liderou a parada disco da
Billboardpor sete semanas e acabou ganhando disco de ouro — uma grande conquista, considerando sua mínima exposição nas rádios. Mais uma vez, a
CasablancaRecordscativou o público principal da disco music.
Para a capa do LP e a promoção de
Macho Man, de 1978, outros membros foram reunidos, e logo cada um dos seis assumiu uma persona baseada em figurinos derivados dos arquétipos da classe trabalhadora que se tornaram gays em Greenwich Village —
Rose, o "indígena";
Willis, o policial;
Alex Briley, o soldado;
David Hodo, o operário da construção civil;
Glenn Hughes, o motoqueiro; e
Randy Jones, o cowboy Marlboro Manly. Mais uma vez, as letras gritam "gay" sem usar a palavra, particularmente em "
I Am What I Am", um hino de orgulho emocionante. "Amar não é pecado/Eu não escolhi ser como sou!" ("To love is not a sin/I did not choose the way I am!"), canta
Willis, que é heterossexual, berrando como
Carl Bean. Mas a faixa-título — o sucesso pop duradouro do grupo — envia sinais contraditórios. Os heterossexuais podem interpretá-la como uma glorificação direta do machismo, enquanto os gays sabem que ela homenageia sua própria masculinidade performática — uma roupa máscula e uma postura viril para atrair a atenção sexual de outros homens. O single de ouro e o álbum de platina resultantes deram ao grupo uma plataforma mainstream que "
I Was Born This Way", de
Bean— lançado dois meses antes — não conseguiu alcançar. Ainda morando nos subúrbios e muito jovem para frequentar discotecas, eu não tinha acesso a
Bean. Mas, como outros adolescentes LGBTQ+, eu tinha os
Peeps.
Quando
Willisassumiu as letras de
Cruisin'(1978) e
GoWest(1979), a mensagem do grupo tornou-se menos explicitamente gay. Mas os conceitos em si, ainda influenciados por
Morali, exalavam uma ousadia queer, particularmente no teste de Rorschach gay do pop, " Y.M.C.A.". Tão americana quanto a circuncisão, a Associação Cristã de Moços (YMCA) continua sendo um refúgio para atletas de todos os tipos, assim como este single, que, com doze milhões de cópias vendidas internacionalmente, pertence a todos. A prova disso é sua presença constante em eventos esportivos, bar mitzvahs, recepções de casamento e até mesmo em comícios conservadores. O fato de que, mais de quarenta anos depois, os ouvintes ainda debatem seu significado gay implícito, porém quase dogmático, demonstra o quão profundamente codificada a cultura LGBTQ+ voltada para o mainstream precisava ser naquela época, e o quão resistentes algumas pessoas heterossexuais, mesmo hoje, podem ser a enxergar o mundo de qualquer perspectiva que não seja a sua.
Segundo
Jones, o clássico cowboy do
Village People, a música foi inspirada por sua própria experiência em uma unidade específica da YMCA. "Eu tinha muitos amigos com quem malhava que trabalhavam na indústria de filmes adultos", disse
Jones, então membro da unidade McBurney da YMCA, onde levou seu produtor. "[Morali] ficou impressionado ao conhecer pessoas que ele tinha visto em vídeos e revistas. Essas visitas comigo plantaram uma semente nele, e foi assim que ele teve a ideia para '
Y.M.C.A.' — literalmente indo à YMCA."
Localizado no bairro gay de Chelsea, em Manhattan, o McBurney Y também funcionava como hotel residencial, e sua proximidade com o Village — e, portanto, com muitas das discotecas, bares e saunas gays de Nova York — significava que muitos homens gays e bissexuais da região alugavam seus quartos baratos para passar o fim de semana e ter encontros casuais. Como
Morali, um estrangeiro, vivenciou o YMCA mais gay do universo, o YMCA representava para ele a libertação LGBTQ americana. "Você pode ficar com todos os caras" ("You can hang out with all the boys"), canta
Willisem meio ao som estridente de buzinas que simulam as marchas militaristas de
John Philip Sousa. Assim como as músicas anteriores do grupo com temática urbana, "
Y.M.C.A." oferece um refúgio queer livre de inibições.
Não importa que
Willisseja hétero. Não importa que a música não mencione sexo entre homens, algo impossível para um sucesso de 1978. "
Y.M.C.A." glorifica a auto-realização em um contexto exclusivamente masculino. "Jovem, você pode realizar seus sonhos" ("Young man, you can make real your dreams"), promete. No léxico de empoderamento gay do
Village People, isso significa se juntar a uma comunidade gay, pois a verdadeira libertação da escravidão da autoaversão social não pode ser alcançada individualmente. Tão descaradamente comercial que soa como um jingle, "
Y.M.C.A." nada mais é do que um anúncio em escala da Broadway para a vida e o amor LGBTQ+. Filmado em frente ao McBurney Y, ao Christopher Street Pier (na época fervilhando com sexo gay ao ar livre) e ao bar de couro Ramrod, nas proximidades (futuro local de um massacre anti-gay), o videoclipe tem a aparência e a atmosfera de um anúncio de recrutamento. Não fique deprimido, diz a música. Levante-se e encontre outros como você.
Logo depois, meu melhor amigo gay do ensino médio ficou hospedado no McBurney Y enquanto procurava apartamento. Uma noite, saímos para uma balada e, em vez de voltar para o meu dormitório, dormi no chão do quarto minúsculo dele. Na manhã seguinte, ele me levou escondido para o chuveiro, onde uns caras me olhavam com desejo, como se eu fosse um "frango". Com "
Y.M.C.A." na cabeça, senti que tinha entrado na realidade sórdida por trás da fantasia esplêndida da música. Anos depois, consegui minha própria matrícula no Embarcadero Y de São Francisco, onde fui flagrado tentando realizar meus sonhos com outro cara na sauna. Fomos expulsos.
Em 1979,
Moralijá estava envolvido em muitos outros projetos, como seu namorado
Dennis Parker, também conhecido como o astro pornô
Wade Nichols. Mesmo assim, o co-produtor assumidamente gay de
Grease,
Allan Carr, decidiu que a história de
Morali, como mentor do grupo
Village People, em sua maioria gay, seria uma narrativa perfeita para o que ele pretendia ser o primeiro musical abertamente gay de Hollywood. A roteirista gay de
Grease,
Bronté Woodard, escreveu um filme que, inexplicavelmente, teria
Steve Guttenbergcomo "
Jack Morell", Valerie Perrine como a colega de quarto supermodelo de
Morelle a medalhista de ouro olímpica Caitlyn Jenner (décadas antes de sua transição) como uma advogada de Wall Street que apoia o grupo. Na primavera de 1979, a escolha também inexplicável de
Carrpara a direção, a atriz de sitcom
Nancy Walker, começou a filmar o que originalmente se chamaria
Discoland... Where the Music Never Endssem
Willis, que havia deixado o grupo.
Lançado em junho de 1980, o filme de
Carr, renomeado para
Can't Stop the Music, acabou se tornando um dos filmes mais divertidamente horrendos de todos os tempos. Abandonando a autenticidade LGBTQ em favor de um clichê do showbiz, apresenta todos os personagens principais como heteronormativos caricatos, enquanto o
Village Peoplefica em segundo plano no próprio filme, apesar de números de dança extravagantes e desajeitados, como "
Milkshake", que na verdade foi financiado com dois milhões de dólares da atual Associação Americana de Ciência Láctea. Apenas a sequência de dança de "
Y.M.C.A.", com duzentos e cinquenta ginastas masculinos ao estilo de West Hollywood, exala a gloriosa homossexualidade que de resto lhe foi negada. Fracassando em todos os lugares, exceto na Austrália, Japão e Bali,
Can't Stop the Musicteve um prejuízo de dezoito milhões de dólares.
O grupo
Village Peoplecontinuou a depreciar seu legado queer tantas vezes que o presidente Donald Trump — cujo primeiro governo nomeou juízes anti-gays, se opôs à Lei da Igualdade, enfraqueceu ou bloqueou proteções LGBTQ+ e tentou impedir que pessoas trans servissem nas forças armadas — deixou a Casa Branca, que ele alegava ainda ser sua, ao som de "
Y.M.C.A.". Quando ele retornou em 2025 para fazer coisas muito piores, o grupo
VillagePeople, reformulado por
Willis, apresentou a música em sua festa de vitória. Morali não pôde comentar, muito menos impedir essa sacrilégio disco; ele morreu de AIDS em 1991.
Do livro
Mighty Real, de
Barry Walters, publicado em 12 de maio pela Viking, um selo da Penguin Publishing Group, uma divisão da Penguin Random House, LLC. Copyright © 2026 por
Barry Walters.
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