Nem todo ovo marrom é caipira: saiba o que está por trás dessa denominação
Entenda por que a tonalidade do produto não determina sua origem e como certificações ajudam a verificar as condições de produção
Embora tenham valor nutricional similar ao convencional, os ovos caipiras diferenciam-se pelo sistema de produção e bem-estar animal, e não pela cor da casca, ligada apenas à genética da ave. Regulamentados por normas técnicas, exigem que as galinhas tenham acesso diário a áreas externas de pasto e ração sem antibióticos preventivos ou promotores de crescimento, diferindo do modelo apenas livre de gaiolas. Como essas práticas não são visíveis no produto, a certificação garante sua autenticidade.
Fonte de proteínas de alto valor biológico, vitaminas e minerais, o ovo ocupa cada vez mais espaço na alimentação dos brasileiros. A produção do alimento acompanha esse movimento: segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil chegou a 4,953 bilhões de dúzias em 2025.
Em meio a essa oferta crescente, um segmento também chama a atenção nas gôndolas do supermercado: o dos ovos caipiras. Associados por muitos consumidores à criação das galinhas em ambientes mais livres e até a diferenças de sabor, eles seguem regras específicas de produção. Mas nem todo ovo marrom é caipira — e nem toda galinha criada fora de gaiolas produz um ovo que pode receber essa denominação.
Do ponto de vista nutricional, é importante desfazer uma possível confusão. O ovo caipira e o convencional têm valores nutricionais semelhantes. A principal diferença entre eles está no sistema de produção, e não em uma superioridade nutricional do caipira.
O sabor também pode entrar nessa escolha. Características relacionadas à alimentação das aves e ao sistema de criação podem influenciar aspectos sensoriais do produto, e há consumidores que percebem o ovo caipira como mais saboroso.
Afinal, o que faz um ovo ser caipira?
A resposta está principalmente na granja, e não na aparência do produto. A ABNT NBR 16437:2016, que trata da produção, classificação e identificação do ovo caipira, estabelece critérios específicos. O sistema prevê, entre outros requisitos, que as aves tenham acesso a áreas de pastejo em sistema semiextensivo: um modelo de criação que une a liberdade de ciscar no pasto com a alimentação balanceada na ração.
A norma também estabelece condições relacionadas à alimentação, como a não utilização, via ração, de melhoradores de desempenho e anticoccidianos profiláticos. Os melhoradores de desempenho são antibióticos adicionados à ração para acelerar o crescimento das aves, enquanto os anticoccidianos profiláticos são remédios dados de forma preventiva para evitar doenças intestinais.
Como a ave não recebe antibióticos promotores de crescimento nem preventivos químicos na ração, o risco de o consumidor ingerir vestígios dessas substâncias por meio do ovo é eliminado. Isso atende a quem busca um alimento mais "limpo" e natural. Por isso, a cor da casca não permite identificar um ovo caipira. Ela está relacionada principalmente à genética da ave. Um ovo marrom pode ter sido produzido em diferentes sistemas.
Também existe diferença entre ovo caipira e ovo de galinha livre de gaiolas. Enquanto o ovo livre de gaiolas (cage-free) garante apenas que as aves não ficam presas em celas e vivam soltas dentro de um galpão, o ovo caipira vai além, exigindo obrigatoriamente que as galinhas tenham acesso diário a piquetes externos com área verde e luz solar, além de seguirem regras rígidas de alimentação sem aditivos químicos.
"Quando o consumidor escolhe um ovo caipira, não está escolhendo um alimento nutricionalmente melhor, mas um produto proveniente de um sistema de criação com características específicas. E essas características não podem ser identificadas simplesmente olhando para o ovo", afirma Flávia Fontes, CEO da FairFood, que possui um protocolo específico para a certificação de ovos caipiras.
Se não dá para ver, como saber se é realmente caipira?
Na gôndola do supermercado, não é possível saber se as galinhas tiveram efetivamente acesso à área externa, como foram manejadas e alimentadas, ou se as condições previstas para aquele sistema são mantidas ao longo do tempo.
É nesse ponto que entra a certificação. Auditorias independentes verificam as condições de produção, os controles adotados e a rastreabilidade, permitindo comprovar que os critérios estabelecidos para o sistema caipira estão sendo cumpridos.
"A certificação transforma características que o consumidor não consegue enxergar em critérios verificáveis. É uma forma de comprovar que aquilo que está sendo informado na embalagem corresponde ao que acontece na produção", diz Flávia Fontes.
Em um mercado de quase 5 bilhões de dúzias produzidas por ano, conhecer essas diferenças ajuda o consumidor a entender melhor o produto que coloca no carrinho. "O ovo caipira é mais do que um produto. É o resultado de um sistema de produção que valoriza o ambiente, o manejo e o bem-estar das aves", finaliza a CEO da FairFood.
Por Vanessa de Oliveira Dias
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