Vandal troca a urgência das mixtapes pela calma em 'Vanguardah': 'Eu não sabia se estaria aqui'
Rapper baiano fala à RS sobre a devoção a Santa Dulce dos Pobres, a parceria com DJ KL Jay e os dois discos que completam o projeto
Após anos lançando mixtapes com a urgência imposta pela violência da periferia de Salvador, o rapper Vandal estreia em estúdio com "Vanguardah". Marcado por devoção a Santa Dulce dos Pobres e pela valorização da música baiana, como o samba-reggae, o disco traz parcerias com Russo Passapusso, Orquestra Afrosinfônica e DJ KL Jay. A obra abre uma trilogia planejada pelo artista, que celebra o tempo e suas raízes locais ao desacelerar o processo criativo para entregar um trabalho sofisticado.
Durante boa parte da carreira, Vandal se sentia correndo contra o relógio. Criado entre a pobreza e o crime que atravessam a periferia de Salvador, o rapper escrevia enquanto recebia, uma após a outra, as notícias de amigos, primos e conhecidos que tinham morrido, e a única resposta possível parecia ser colocar tudo no mundo o quanto antes, do jeito que fosse. "Eu sempre disse: 'Pô, se eu não fizer isso aqui, eu não sei se eu vou estar aqui amanhã, eu não sei se eu vou estar vivo'", conta em entrevista nos estúdios da Rolling Stone Brasil. "Eu tô aqui com 50 músicas escritas. Será que alguém vai ter essa mesma entonação de voz, esse mesmo sentimento de cantar as minhas letras?"
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Foi essa pressa que o prendeu, por mais de uma década, ao formato das mixtapes e das EPs de poucas faixas, lançados no calor do momento. Vanguardah, que chegou às plataformas em agosto, é o primeiro disco de estúdio do artista e nasce justamente do movimento contrário: o de aceitar o tempo que o estúdio, os músicos e os trâmites da indústria exigem, coisas que ele sempre preferiu contornar. "Foi um processo de vencer a urgência para se debruçar na calma e entender as burocracias da coisa", resume.
A formação musical de Vandal começou longe de qualquer estúdio, nas festas de largo, em cima do trio elétrico e diante das caixas de som dos sound systems soteropolitanos. A música de fora chegou depois, pelo grime, gênero britânico que se formou nas rádios piratas e se espalhou por meio de mixtapes gravadas em sequência, quase sem intervalo entre uma e outra. O modelo ensinou ao baiano uma maneira de cantar. "Isso fez com que eu precisasse cuspir, gritar de uma certa forma a minha música", diz. Foi dessa escola que saiu Tipolazvegazh (2015), a mixtape que o apresentou ao país e que ele trata, até hoje, como seu "primeiro filho".
Nem todo mundo entendeu a proposta de imediato. A mistura de rap com as sonoridades baianas, cantada em um andamento que fugia do que se esperava de um MC, provocava estranhamento nas plateias. "As pessoas me viam no palco, me viam rimando e diziam: 'Pô, que maluquice, sai daí, tá rimando atrasado, tá rimando muito rápido. Que instrumental é esse? É pagode? É samba-reggae misturado com grime? É drill? Mas o que é?'", lembra. As mixtapes, segundo ele, serviram exatamente para responder a essa pergunta e "fincar a personalidade musical" que tanto confundia quem o ouvia pela primeira vez.
Ponto de fé
Nada em Vanguardah foi deixado ao acaso, a começar pela data de lançamento. O 13 de agosto é o dia de Santa Dulce dos Pobres, a religiosa baiana cujas obras sociais acolheram a avó do rapper durante uma internação, episódio que a família passou a enxergar como um milagre e que moldou a fé do neto. "Essa escolha, na verdade, não foi minha. Eu fui escolhido", afirma. "A minha devoção pela Santa Dulce dos Pobres vem da minha avó e de toda essa situação que eu vivi com ela."
Desde então, Vandal se enxerga como um "ponto de fé", alguém incumbido de levar adiante a história do "anjo bom da Bahia", como a santa é chamada em Salvador. O disco foi pensado como uma trilha de pistas que, seguidas com atenção, conduzem o ouvinte até ela. "Quando as pessoas começarem a esmiuçar o Vanguardah, vão entender: 'Ah, Santa Dulce, dia 13'. E vão pesquisar sobre a vida dela, sobre a obra dela, que eu digo que é um milagre palpável", explica. "Essa obra ajudou minha avó e me ajudou, me dando essa paz. Eu acredito que vai fazer com que as pessoas se entendam nesse grande processo que é ajudar o próximo, independente de dogmas e religião."
A religiosidade também orientou a identidade visual do projeto, construída com o mesmo apreço pelo trabalho manual que atravessa as gravações. As imagens sacras que aparecem na capa foram moldadas e pintadas à mão na Cerâmica São Francisco, uma fábrica familiar instalada no bairro de Valéria, em Salvador.
O disco que pediu mais
O ponto de partida foi o encontro com o produtor Tiago Simões, durante a pandemia. Sem shows e sem a rua, que sempre foram seu laboratório, Vandal se viu, pela primeira vez, morando dentro de um estúdio, e decidiu aproveitar a reclusão para registrar tudo o que tinha guardado. "Eu não sou MC de estúdio, eu sou um MC de rua, de festa de largo, de sound system", diz. "Eu pensei: 'A gente não sabe o que vai acontecer no mundo, então eu vou gravar todas as músicas que eu tiver aqui'." Ao fim desse período, havia mais de 50 faixas gravadas.
O material ganhou outra dimensão quando chegou a Russo Passapusso, vocalista do BaianaSystem e amigo com quem o rapper conversa todos os dias. Ele assumiu a direção musical e levou o projeto ao maestro Ubiratan Marques e à Orquestra Afrosinfônica, que acrescentaram cordas, coros e uma instrumentação até então inédita na obra de Vandal. "Ele analisou os detalhes e disse para mim: 'A gente precisa cuidar melhor disso, a gente precisa colocar isso no patamar que ele merece'", conta. A partir daí, segundo o rapper, foram os próprios músicos que procuraram o disco, e não o contrário. "Todo mundo que participou, quando pegou o disco para si, falou: 'Eu quero participar, eu quero fazer, não chame mais ninguém'".
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A ideia original era reunir 20 músicas, mas Vanguardah acabou chegando ao público com dez, e a escolha do que ficaria de fora não foi simples. "Eu tirei algumas músicas e fiquei com o coração partido", lembra.
Sobre o título, Vandal faz questão de explicar que não carrega qualquer pretensão de pioneirismo. "É um pensamento de amor ao que veio antes. Não a vanguarda soberba de 'eu fiz primeiro, eu sou o pioneiro, eu sou o maior'. O grande lance é olhar para o passado, ter esse amor ao passado e respeitar".
Do mar ao sono
O disco abre com "Saveirozh", uma homenagem à embarcação típica da Baía de Todos os Santos e à relação que o rapper construiu com o mar desde a infância. A paixão por barcos, conta, começou nas revistas que a mãe, funcionária de uma agência de turismo, levava para casa, repletas de cruzeiros, roteiros e destinos distantes.
"Minha leitura de vida não foram os livros. Foram as revistas informativas, as revistas de turismo", diz. A faixa reúne um sample de Dorival Caymmi, um trecho de um documentário sobre Walter Smetak sugerido por Russo e o canto dos pássaros que o próprio Vandal gravou da janela do apartamento, de frente para o mar. Embora cumpra o papel de introdução, a música também fala de despedida. "Mesmo sendo uma introdução, ela soa também como uma forma de ir. Talvez ela pudesse ser até a última faixa, porque tem esse lance cíclico do nascer e do morrer", explica.
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Em "Pontoh deh Revoltah" está a única participação de fora da Bahia em todo o disco: a do DJ KL Jay, dos Racionais MC's. O convite revela um modo de enxergar o rap que Vandal cultiva há anos, mais atento aos bastidores e aos outros elementos do hip hop do que aos colegas de microfone. "Enquanto todo mundo tava atrás do MC para fazer feat, eu nunca fui atrás de MC. Eu nem gosto muito de feat", afirma. "A soberba do MC acaba apagando os outros elementos da cultura hip hop. Então eu precisava fazer essa homenagem à figura do DJ".
A faixa é um samba-reggae, com cordas arranjadas pelo maestro e as vozes da orquestra, e realiza uma vontade que o rapper carregava havia muito tempo: a de colocar no centro de um disco o gênero que, antes de qualquer outro, formou sua consciência musical. "Não veio o rap primeiro para mim. Veio primeiro o samba-reggae, depois eu conheci o rap", conta. "Eu costumo dizer que o meu Racionais MC's é o samba-reggae. Meu Racionais é o Olodum".
O encerramento fica a cargo de "Sonäbuloh", uma das composições mais antigas do repertório, esboçada há dez anos na casa da cantora Lívia Nery, que também participa da gravação. É uma canção de amor, tema que Vandal aborda de um jeito que, segundo ele, destoa do que costuma aparecer no rap. "Eu sou um amante à moda antiga. Os MCs sempre fazem a mesma música de amor. São as mesmas frases, os mesmos roteiros, e eu sentia falta de alguém falando de amor dentro desse processo de sonho", diz. A posição no fim do disco foi calculada para que a escuta não terminasse de forma abrupta. "É como se o Vanguardah começasse pela manhã, corresse durante o dia e depois eu entregasse você para o sono. Mas é um sono sonâmbulo. Você tá dormindo, mas tá acordado, porque sabe que vai vir algo depois disso".
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O que está do lado
Para Vandal, Vanguardah também funciona como um recado a outros artistas: as referências mais valiosas, defende, costumam estar mais perto do que se imagina, na mesma cidade e no mesmo círculo de amigos. "A gente tá sempre atirando para o que é feito nos Estados Unidos, na Europa, e esquece que as nossas principais forças estão do nosso lado", afirma. "Às vezes, o cara que vai fazer a melhor capa do seu disco é um amigo seu, e você tá olhando para quem fez a capa de não sei quem lá fora".
O raciocínio vem acompanhado de duas ausências que ainda pesam. "Uma das dores que eu tenho é que eu queria ter tido o Riachão nesse disco. Assim como o meu grande sonho era conseguir fazer um feat com a Gal Costa", lamenta. (O sambista baiano morreu em 2020, e a cantora, em 2022, antes que qualquer encontro pudesse acontecer.)
A aproximação com os nomes consagrados da música brasileira, porém, já começou. Vandal participou da faixa-título de Novo Mundo (2025), álbum de Arnaldo Antunes, que o procurou depois de ouvir uma de suas mixtapes, lançada sem qualquer pretensão nas ruas de Salvador. "Ele olhou e disse: 'Não, eu preciso dessa voz, eu preciso dessa contundência, eu preciso dessa figura do Vandal dentro de um projeto meu'", conta.
Trilogia
Vanguardah é o primeiro capítulo de uma trilogia montada a partir das dezenas de músicas que sobraram das sessões de gravação. O segundo disco, Feztah deh Largoh, presta homenagem às festas populares de onde o rapper e tantos outros músicos baianos saíram, com referências de axé music, lambada e pagodão. "Tem alguns feats inusitados", adianta, sem revelar nomes, a não ser para dizer que um deles realiza um sonho antigo e fala de Carnaval de um jeito muito particular.
O desafio, agora, é liberar as amostras que o rapper pretende usar. Vandal espera que a repercussão de Vanguardah abra portas entre músicos que não costumam circular pelo universo do rap. "Eu quero sample, eu quero feat de músicos que os outros MCs não querem", diz. "Quero que eles entendam que eu respeito a música, caso eu bata na porta de um deles para pedir um sample, um arranjo de corda, um arranjo de guitarra".
O terceiro disco, Eauh deh Parfumh, deve ser o mais sofisticado dos três e depende de amostras ainda mais difíceis de negociar. Nenhum dos dois discos tem data de lançamento, mas, até lá, os fãs terão muito tempo para esmiuçar Vanguardah e entender todos seus detalhes.
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