Quando o 6LACK encontrou equilíbrio na vida, sua música ficou ainda melhor
O rapper e cantor de Atlanta fala sobre crescimento pessoal, paternidade e seu ótimo novo álbum
É uma noite de dia útil em maio, e o cheiro de chuva está no ar, anunciando um temporal a caminho. À medida que o céu começa a desabar, nova-iorquinos correm para se abrigar — mas 6LACK, 33, parece estar no seu elemento. Antes de fazer sua primeira refeição do dia em seu restaurante favorito, o rapper e artista de R&B escolhe dar uma rápida caminhada pelo Lower East Side enquanto a chuva ainda é só uma garoa. Ele teve um longo dia divulgando seu próximo álbum, Love Is the New Gangsta, e precisa descomprimir.
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Demorou para esse artista indicado ao Grammy cinco vezes, que cresceu no leste de Atlanta, passar a gostar de visitar Nova York. "Cinco anos atrás eu não gostava porque eu estava sempre aqui a trabalho", ele diz. "Parecia tudo muito intenso. Todo mundo buzinando, as pessoas são um pouco mais agressivas, você vai de um lugar para outro, de prédio para entrevista, e o trânsito suga todo o seu tempo. Eu percebi que preciso de espaço quando venho para cá".
6LACK — cujo nome artístico deriva do bairro onde passou a infância, Zone Six — ama simplicidade e as coisas boas da vida: passar tempo com pessoas queridas, dar uma passada em feiras de produtores e estar perto de qualquer corpo d'água. Quando nos encontramos para jantar em um izakaya no centro, ele assume o comando ao pedir os pratos. Enquanto a mesa se enche de pimentas shishito, salada de pepino, arroz crocante com atum apimentado, hamachi com pimentas serrano, bife, salmão e arroz de rabo de boi, ele reflete sobre como seu paladar evoluiu em todos os sentidos: "Asinhas sempre foram o número um pra mim, mas, nesse ponto da minha vida, eu acho que sushi é o topo, com certeza".
Além da comida, 6LACK cresceu como artista, pai e parceiro, passando a entender sua necessidade de equilíbrio. Espaço e reflexão não são apenas temas no dia a dia, mas a base de Love Is the New Gangsta, com lançamento em 22 de maio. O nascimento do álbum aconteceu num período em que ele e sua parceira, a artista Bianca Leonor Quiñones (a.k.a. Quiñ), também atravessavam um processo criativo próprio: a aproximação do parto da filha do casal, hoje com 10 meses, Blaze. "Antes da gravidez, nosso relacionamento estava por um fio", ele diz. Ele lembra que tinha acabado de voltar para Atlanta e começado a trabalhar com o rapper e produtor Childish Major na época. "Eu só comecei a desabafar e ter conversas abertas sobre o que eu estava vivendo, e a gente soube que precisava fazer um álbum sobre isso".
Foi nessas conversas que 6LACK começou a ter revelações sobre sua saúde mental. "Era como uma sessão contínua de terapia, responsabilidade e criatividade", ele diz. "Seja conversando ou improvisando no violão e nos teclados, tudo foi se encaixando, e as músicas começaram a sair. A gente começou a cozinhar as ideias. Foi divertido".
Crescendo como o mais velho de três, 6LACK, cujo nome verdadeiro é Ricardo Valdez Valentine Jr., era introvertido. A primeira vez que ele rimou foi aos quatro anos, sobre uma música chamada "Blues", escrita pelo pai, que também é rapper. "Meus versos não rimavam nem nada muito louco. Era só: 'When I grow up, I want to be somebody. I'm believing God. I believe in me'", ele relembra. "Foi meu primeiro rap em cima de um beat e numa música gravada". Embora dê crédito ao pai por tê-lo apresentado à arte, ele aprimorou as habilidades em particular. "Minha seriedade, minha paixão e curiosidade vieram muito de ficar no meu quarto, sozinho". Ele atribui o gosto pelo R&B à mãe, que costumava tocar artistas como Monica, Brandy e 112.
Essas influências viraram a base do seu gosto ao crescer em Atlanta no início dos anos 2000. Ele descreve seu fandom em termos de eras, ouvindo artistas como Jadakiss, Dipset, Jeezy, OutKast e battle rappers como Cassidy e Reed Dollaz. "A partir daí, quando eu tive um pouco de espaço pra mim, comecei a me aventurar em tudo o que eu conseguia encontrar", ele diz. Sua fase atual envolve gêneros como alternative e jazz, presentes ao longo do seu novo projeto. "Eu tô em tudo quanto é lugar", ele diz sobre seu gosto. "Eu sou curioso e fã. Acho que o maior elogio que alguém pode te dar ouvindo sua música é a pessoa ter que parar e se perguntar: 'O que é isso?'"
Quando se trata da música que ele faz, ele a descreve como um "diário", dando aos ouvintes um vislumbre lírico do seu mundo interior. Love Is the New Gangsta começa com a suave, porém liricamente contundente "Bounty", baseada em uma mulher desprezada que trama a morte emocional do amante. "All That Matters" — com o artista indicado ao Grammy AZ Chike e o vencedor do Grammy Leon Thomas — tem uma linha de baixo que pulsa como um coração, funcionando como metáfora instrumental para transmitir o amor pela parceira. A melodia e o andamento das duas músicas têm a textura das influências alternative, mas ambas são um testemunho da sua própria expressão.
https://www.youtube.com/watch?v=eu7rZDy2M3g
"Sunday Again", com 2 Chainz, é uma de suas favoritas. A faixa descreve o domingo ideal dele fazendo o que ama: fazendo amor e aproveitando uma refeição reforçada para recarregar depois. A letra é espirituosa, brincando com o tema do calendário: "You know you good for catching me on my weak days". "Wifey Baby Mama" vai direto ao ponto, abordando as desvantagens de sua natureza introvertida, com versos como "You loved a poet who can't get his words right sometimes". "Out of Body" traz a participação de Quiñ, sua parceira e melhor amiga. "Foi a que mais demorou", ele diz. "Só pra chegar na mix certa e ficar super confiante de como nossas vozes estavam se entrelaçando. No geral, ser mais cuidadoso, porque só porque eu gosto de algo não quer dizer que seja a melhor versão possível".
6LACK encontrou Quiñ pela primeira vez há 13 anos no YouTube, enquanto ouvia música na casa de um amigo. "Uma garota com quem eu andava estava me mostrando umas coisas que ela ouvia e tinha um vídeo da [Quiñ] cantando uma música acústica. A partir dali, eu fiquei preso", ele diz. Ele a procurou no Twitter e, por fim, criou coragem para tuitar para a então desconhecida: "I love you, bye".
A partir desse momento, os dois construíram um vínculo lento, mas constante. Quando ela lançava algo, ele era um apoiador ávido. Quando ele estava saindo do primeiro contrato, ele mandou mensagem no DM pedindo conselho, e ela respondeu: "follow what your gut feels". Eles trocaram números, o que levou a mensagens e FaceTimes diários por um ano. Depois, ele voou para L.A. para finalmente conhecer a amiga pessoalmente. "Foi um momento de livro de histórias", ele diz sobre a primeira vez que se viram. "Você vê a pessoa com quem vem falando há muito tempo e é tipo: 'Caramba. Onde você estava?' Foi tão familiar. Eu senti no peito. Eu senti no estômago. Eu estava com frio na barriga e nervoso. A gente passou aquela semana toda junto, mas ainda era platônico".
Eles esperaram mais um ano para explorar a possibilidade de romance e, mesmo assim, decidiram não seguir, querendo proteger a integridade do vínculo. "A gente deu um tempo, e foi a minha primeira versão real de coração partido", ele lembra. Para ocupar o tempo, ele se trancou no estúdio e focou na música, embora saísse casualmente com outras pessoas. Isso foi até descobrir que sua filha mais velha, Syx, estava a caminho. "Passar por aquele período foi muito traumático", ele diz. "Eu estava virando adulto, e agora tenho que descobrir como sustentar uma criança, a mim e a mãe dela. Ao mesmo tempo, minha carreira estava decolando e eu estava tentando entender a dinâmica de moradia. Parecia tudo muito bugado".
Além disso, ele também precisou contar a novidade para Quiñ. "Eu tive que levar essa notícia pra minha melhor amiga", ele diz. "Eu não contei por um tempo e, aí, um dia, a gente estava sentado no carro e ela [tocou no assunto]. Aquilo definiu o tom de ser honesto em toda conversa, porque eu tinha algo que eu tinha tanta vergonha e tanto medo, e eu não sabia como dizer. E então ela disse primeiro".
A complexidade de aprender a amar como pai, enquanto também aprendia a se amar, foi o mais desafiador. "Esse trauma durou por muito tempo, porque você perde certas coisas na vida do seu filho. Você tenta compensar depois e vai seguindo a vida, mas, no fundo, você percebe: 'Eu não estava feliz' ou 'Eu perdi uma foto ou uma apresentação'".
Agora pai de duas, 6LACK se ilumina ao falar sobre Syx, que tem nove anos e é fanática por esportes. Ele também parece estar num lugar melhor em relação à coparentalidade, focando no panorama maior. "Pra gente, uma coisa em comum é o quanto a gente ama e respeita nossa criança", ele diz.
Em 2018, 6LACK e Quiñ começaram a namorar oficialmente, e eles tiveram um bebê juntos em 2025. Ele atribui a honestidade e a vulnerabilidade do relacionamento como a base da dinâmica familiar. "Eu tenho uma parceira afiada. Se ela vê, ouve ou sonha qualquer coisa que não está certa, ela fica: 'Eu sonhei que você me tirou do sério pra caramba ontem à noite. O que tá rolando?'"
Esse nível de ser visto tirou 6LACK da concha, fazendo dele um homem melhor e um artista melhor. "Isso pode ser intimidante até você se esforçar pra ser uma pessoa honesta", ele diz. "Às vezes você precisa desmontar seu ego pra entender de verdade quando precisa dele". Seria esse o motivo de ele ter se apaixonado desde o começo? "Com certeza. Foi por isso que eu me senti tão atraído por essa pessoa no começo. Desde a primeira conversa, parecia que alguém puxava algo novo de dentro de mim".
Por mais que esse álbum fale de amor romântico, ele também fala de saúde mental, de encarar traumas e da importância do amor platônico masculino. Na faixa "Trauma", ele canta "Trauma, trauma, got it from my mother/Trauma, trauma, got it from my father" antes de rimar: "Opportunity felt trapped in/Life of a Black man". Durante o processo de fazer o álbum, 6LACK precisou reestruturar algumas amizades, entendendo o que amor platônico significa pra ele neste momento. Quando parecia que amigos estavam indo para outra direção, ele os puxou para uma conversa.
"Eu fiquei tipo: 'Daqui pra frente, eu agradeceria se ou você não me colocasse nessa posição, ou você estivesse do meu lado quando eu precisar, e eu faria o mesmo'", ele diz. "A gente realmente precisa estar um pro outro de um jeito diferente. De agora em diante, esses são os tipos de relação que eu quero ter. E acho que, naturalmente, você acaba se afastando das pessoas depois de conversas assim".
Após o lançamento do álbum, 6LACK está ansioso para sair em turnê. Ele sonha em se mudar para a Costa Rica, onde pode colher pejibaye, um fruto local, nas palmeiras de pupunha. "Minha linguagem do amor, neste ponto, é tempo de qualidade. Eu amo estar em casa com a minha pessoa, dias de praia e viagens de carro, a gente arrumando o carro e viajando para a próxima cidade", ele diz. "Outra linguagem do amor minha é apoio. Se apresentar e tocar música e ver alguém celebrando — é uma forma de validação e segurança. Nunca é tipo: 'Eu tenho que ganhar um Grammy, eu tenho que fazer música que me coloque numa conversa específica.' É sempre: eu quero fazer o que parece verdadeiro pra mim".
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