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Para John Legend, parcerias elevam qualidade musical ao máximo

21 jun 2018 - 14h30
(atualizado em 21/6/2018 às 18h03)
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David Shalom
Direto de São Paulo

Desde que lançou seu primeiro disco, Get Lifted, John Legend tem se tornado uma das principais referências na música negra norte-americana. E não há prova maior para constatar esse fato do que os nove Grammys, principal premiação da música mundial, recebidos por seus três trabalhos lançados desde 2004.

Pianista desde os quatro anos de idade e presença regular na infância em corais de música gospel da pequena cidade de Sprinfield (Ohio), onde nasceu, Legend iniciou-se profissionalmente graças à Lauryn Hill, que conheceu no final da década de 1990 e para quem gravou os pianos da faixa Everything is Everything, terceiro single do debut da cantora, The Miseducation of Lauryn Hill, lançado em 2001.

Essa participação acabou marcando uma constante em sua carreira: as parcerias, realizadas em todos os trabalhos lançados por ele até hoje. Kanye West, também produtor de seus álbuns, Jay Z, Alicia Keys, Snoop Dogg e até a brasileira Ana Carolina, com quem gravou em 2009, foram alguns dos artistas que acabaram ajudando na popularização de sua música.

"Eu gosto muito de fazer colaborações porque, se você trabalha com alguém que é ótimo, provavelmente isso trará aquilo que há de melhor em você e o fará soar melhor e fazer coisas que sozinho talvez não fizesse", disse Legend em entrevista exclusiva concedida ao Terra no último domingo (29), a poucas horas de sua apresentação no Urban Music Festival, na Arena Anhembi, em São Paulo.

O músico também ficou conhecido por seu contundente ativismo social, com projetos criados por ele visando erradicar a pobreza mundial, e pelo imenso apoio prestado a Barack Obama durante a campanha presidencial de 2008, com discursos defendendo o democrata e shows beneficentes para lhe arrecadar fundos.

Do hotel onde estava hospedado na capital paulista, o músico recebeu a reportagem e falou sobre todos esses assuntos, além de alguns outros, como sua admiração pela bossa nova e pelo trabalho da cantora Maria Rita.

Confira a entrevista na íntegra a seguir.

Terra - Como surgiu essa ideia da parceria com o The Roots, grande nome do hip hop norte-americano e com quem atualmente você está em turnê?

John Legend - Foi uma ideia que surgiu em 2008, quando eu estava fazendo muita campanha para o Obama, me envolvendo com a eleição e pensando em como mudar a América e transformá-la em um lugar melhor. E eu pensei que seria interessante fazer um projeto musical que refletisse as coisas que estavam acontecendo no país. Então nós decidimos fazer um álbum de covers (Wake Up!, lançado em 2010) com grandes canções dos anos 1960 e 1970 para fazer meio que um paralelo hoje com as mudanças que estavam ocorrendo naquela época, como a Guerra do Vietnã, a exigência por direitos civis, esses assuntos dos quais todas as pessoas estavam falando e muitos grandes artistas abordaram em suas músicas. Eu achei que seria interessante fazer um novo álbum que fizesse a mesma coisa.

Terra - Não é a primeira vez que você faz parcerias. De fato, sua curta carreira é recheada por canções e discos com participações de outros artistas, algo que, naturalmente, popularizou seu nome na música pop. Qual é o peso que você dá a essas parcerias para o seu sucesso?

John - Eu gosto muito de fazer colaborações porque, se você trabalha com alguém que é ótimo, provavelmente isso trará aquilo que há de melhor em você e o fará soar melhor e fazer coisas que sozinho talvez não fizesse. Então, particularmente nessa parceria com o The Roots, eu queria fazer algo realmente com muito significado, com muita esperança, e, musicalmente, algo que me desse orgulho. Naturalmente, as parcerias têm um peso, mas é difícil mensurar seu tamanho.

Terra - Você fala com muito gosto da parceria mais recente, com o The Roots. Ela foi a favorita de sua carreira ou você tem algum nome com o qual teve mais orgulho de trabalhar?

John - Bem, essa tem sido ótima, mas eu também tenho trabalhado com Kanye West já há bastante tempo. Nós nos conhecemos em 2001 e começamos a trabalhar juntos já naquela época. Ele foi a pessoa que me ajudou a conseguir um contrato de gravação, me ajudou a conhecer pessoas no mercado fonográfico, me ajudou a colaborar com grandes artistas como Jay Z e Alicia Keys, produziu três de meus álbuns e ainda vai produzir o meu próximo. Então, com ele, é sempre uma grande parceria.

Terra - Alguma data para lançar o próximo álbum?

John - Será em 2012, eu acho. Lançarei um single no final deste ano e o álbum no início do ano que vem.

Terra - Gostaria de saber como surgiu a oportunidade de trabalhar com Ana Carolina, cantora brasileira com quem você gravou Entreolhares (The Way you look at me) em 2009?

John - Bem, foi uma ideia da minha gravadora, a Sony aqui do Brasil. Eles acharam que seria ótimo se eu colaborasse com Ana. Ela é uma artista tão talentosa e obviamente é muito bem sucedida por aqui. Eu disse, "claro, vamos fazer". Ela me mandou a música em português e eu escrevi a letra em inglês baseada na letra original. Nós gravamos separadamente inicialmente e depois fizemos o vídeo e nos apresentamos juntos duas vezes. E vamos fazer isso de novo esta noite (domingo, 29 de maio, no Urban Music Festival).

Terra - Como é fazer uma música em duas línguas totalmente diferentes?

Primeiro, Ana precisou me explicar bem o que a letra significava, então eu recebi uma tradução da música e escrevi de uma forma que soasse bem em inglês. Você não pode fazer uma tradução ao pé da letra pois ela precisa soar bem nas duas línguas.

Terra - Você teve alguma influência da música brasileira ou aprendeu a gostar de algum artista específico após se envolver com uma cantora do País?

John - Bem, eu definitivamente ouço um pouco de bossa nova, e gosto desse tipo suave de música brasileira, como Sergio Mendes e Tom Jobim. Também gosto de Maria Rita.

Terra - A influência da música gospel é muito clara em suas canções. Qual foi a importância desse estilo para a sua formação musical?

John - Foi muito importante para mim e ainda é muito importante. Eu ainda uso muitas referências da música gospel nas minhas músicas, ainda sinto uma conexão muito forte com esse estilo e, particularmente neste álbum (Wake Up!), essas raízes estão ainda mais presentes.

Terra - A música negra sempre foi muito popular nos EUA e tem até crescido nos últimos anos - basta olhar aos nove prêmios Grammy que você abocanhou de 2004 para cá. A que se deve tamanha popularidade do estilo?

John - Bem, esse estilo de música é popular há muito tempo na América. É só pegar os discos de blues do início do século XX e grandes artistas como Chuck Berry e Little Richard, os pais do rock moderno. Se você olhar os anos 1960 e 1970, havia a Motown (gravadora fundada em 1959 Detroit que era especializada em soul), que tinha tantos artistas influentes no (estilo musical) R & B. Eu sinto como se apenas estivesse seguindo esse legado e agora, particularmente, surgiu a mistura entre o R & B e o hip hop, que se juntaram com força na música da América negra. E eu gosto de fazer parte disso.

Terra - Você é um homem estudado e que trabalhou com outras coisas antes de realmente se estabilizar na música. Alguma vez pensou em desistir da carreira artística?

John - (enfático) Não (risos). Durante toda a minha vida eu quis fazer música e sempre pensei em mim como um compositor, um performer e um músico. E isso nunca vai mudar.

Terra - Trabalhar com Lauryn Hill o encorajou de alguma forma a seguir essa ambição?

John - Sim, ela foi a primeira grande artista com quem eu colaborei, tocando piano na faixa Everything is Everything. E aquilo realmente me empolgou bastante, me fez pensar, "bem, eu realmente posso fazer isso acontecer". Ela me deu minha primeira oportunidade.

Terra - Você trabalhou bastante na campanha eleitoral de Barack Obama que acabou elegendo-o presidente dos EUA em 2008. No entanto, desde que ele chegou ao poder, muita gente tem criticado o seu governo. Como você o avalia até o momento?

John - Eu acho que ele está fazendo um trabalho muito bom. Ele entrou em meio a uma grande crise econômica, nós estávamos lutando em duas guerras, uma grande recessão estava começando, o desemprego estava crescendo significativamente e muitas outras coisas ruins estavam acontecendo. E, em três anos e meio, ele conseguiu fazer até bastante coisa. Ele fez reformas na saúde e no sistema ensino, a economia está crescendo e o desemprego está caindo. Eu acho que ele melhorou o sistema educacional, terminou com a guerra no Iraque e espero que termine com a do Afeganistão. Então, no geral, ele tem feito um trabalho muito bom. Obviamente que não dá para fazer tudo, afinal ele não tem controle total, precisa lidar com o poder legislativo. Algumas coisas boas aconteceram, outras não, mas muitas coisas positivas foram feitas.

Terra - Você acha que, com todas as críticas atuais, ele vá ser reeleito?

John - Eu acho que ele vai ser reeleito no ano que vem, sim. Eu vejo uma eleição bem disputada, mas ele deve se manter no poder.

Terra - Como você viu o discurso feito por Barack Obama na semana passada a respeito da crise no Oriente Médio - sobre Israel precisar devolver os territórios anexados pelo país na Guerra dos Sete Dias, em 1967?

John - Eu acho que sempre que você fala sobre Israel e a Palestina há muita controvérsia. Obviamente, há uma competição entre dois desejos, cada país tem suas esperanças e sonhos e eles parecem estar sempre em conflito, então é difícil se meter neste assunto. Mas eu acho que foi importante para ele dizer que ambos os lados vão ter de fazer algumas concessões sérias para fazer isso funcionar. E, apesar de ele ter sido bastante criticado por isso, eu acho que foi algo importante a se dizer.

Terra - Você faz muitos eventos de caridade e possui projetos com metas por um mundo melhor. Qual é o peso da presença de grandes artistas nesse meio para fazer essas ideias vingarem?

John - Bem, eu acho que é importante para qualquer pessoa que tenha recursos ou não, alguém com dinheiro ou com algum tempo livre para doar, qualquer tempo ou recurso que você possa aplicar para ajudar outras pessoas, já é uma grande coisa. Eu sempre encorajo os meus fãs a, mesmo sem dinheiro, se voluntariar em alguma comunidade, pois, se você você ajuda o próximo, isso vai te fazer se sentir melhor também. Então eu tento ser um exemplo em relação a isso.

Terra - Você vê alguma evolução no tratamento e, principalmente, na atenção que o mundo dá à África, um continente muitas vezes ignorado pelos países ricos?

John - Bem, eu não sei. Nos últimos tempos, provavelmente por causa da recessão, eu acho que muita gente se focou mais internamente. E, sabe, é difícil convencer alguém a se preocupar com algo que está acontecendo a mil milhas de distância se em seu próprio país há pobreza e pessoas sem trabalho. Eu acho que é um período difícil para resgatar dinheiro aos necessitados além-mar, porque as pessoas pensam, "bem, nós estamos em recessão na América e há pobreza bem aqui", e, mesmo que comparada à África e a outros lugares a América ainda esteja indo muito bem, sabe, há muitas pessoas com problemas por lá. Então, é uma hora difícil para resgatar dinheiro e voltá-lo para coisas internacionais. Mas é sempre importante olhar para toda a humanidade e dizer, "os humanos norte-americanos não são mais importantes do que os humanos brasileiros" ou "eu não sou mais importante do que os humanos de Gana", sabe? Nós somos todos seres humanos e todos temos valor.

Terra - Fale-me um pouco sobre a Show me Campaign, seu projeto de ajuda aos africanos. Como isso começou e de que forma ela melhora a vida das pessoas efetivamente?

John - Bem, nós construímos escolas, construímos clínicas de saúde, dutos d´água, sabe, porque muitos dos problemas na África são gerados por coisas básicas que as pessoas não têm, como acesso à educação, acesso ao sistema de saúde, acesso à água potável para beber. E essas coisas são muito importantes. Nós também educamos as pessoas de uma forma que as ajude a ajudarem-se a si próprias, então, se você for um fazendeiro, nós o ajudaremos a se tornar um fazendeiro mais produtivo para ganhar dinheiro suficiente para se sustentar e guardar dinheiro para o futuro, se tornando seu próprio empresário. Então, nós os ajudamos com aulas de agricultura e lhes damos os fertilizantes para que eles possam se tornar fazendeiros mais produtivos. E nós vemos que as mudanças de fato estão ocorrendo nos últimos anos: as contaminações por doenças, como a malária, estão caindo; o número de crianças que vai às escolas cresceu significativamente e o acesso à água potável cresceu de forma significativa também. Então, estamos vendo mudanças tangíveis nessas comunidades e tentamos apoiar as pessoas ao redor do mundo a também cooperar com a Show me Campaign.

Terra - Existe algum foco principal no projeto, como a educação?

John - Especialmente a educação, mas todas essas coisas também são importantes, pois, se você não é saudável o bastante para ir à escola, como vai receber educação? Então, estamos fazendo o possível para que essas pessoas não fiquem doentes o tempo todo, para que aqueles que precisem trabalhar possam ser mais produtivos. Nessas comunidades tudo é necessário, tudo é importante. Você não pode só fazer um e não fazer o outro porque um depende do outro. Temos que unir todas essas coisas para fazer funcionar.

Terra - Não é a sua primeira vez no Brasil. Como norte-americano, como você vê o país politicamente?

John - Eu não conheço muito sobre a política daqui, mas, sabe, eu posso dizer que esse é um país que está crescendo muito rapidamente e que está se tornando muito importante para a economia global e politicamente também. Eu estou muito empolgado com a Copa do Mundo e as Olimpíadas, que estão vindo para cá também. Eu espero que dê tudo certo e que vocês possam mostrar ao mundo o quanto o Brasil estão crescendo. Será divertido.

Terra - E quanto à pobreza, que é uma de suas grandes preocupações e um dos principais problemas do País?

John - Pessoalmente, eu não a vi muito por aqui, mas eu estou consciente de que ela existe. Na maioria dos países, sempre houve pobreza - mesmo na América (EUA) é assim. Mas quando a economia cresce é importante investir em projetos que melhorem a vida das pessoas. Acho que o principal é a educação, porque quando você tem educação possibilita às pessoas se ajudarem. Tanto no Brasil, na América e em todo o mundo, quando você tem recursos é importante ter em mente que todos merecem uma educação de qualidade, todos merecem uma oportunidade de ser bem sucedidos na vida. Espero que isso aconteça aqui, aconteça na América e aconteça ao redor de todo o mundo.

Fonte: Terra
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