A música que o Deep Purple se recusa a tocar ao vivo
Hino da fase clássica da banda deixou de ser executado a partir de 2002 devido à dificuldade técnica que ele impõe ao vocalista Ian Gillan
Para os fãs de Deep Purple, poucas experiências são tão celebradas quanto ouvir os gritos agudos e marcantes de Ian Gillan em "Child in Time", do clássico álbum In Rock (1970).
No entanto, quem compareceu aos shows da banda inglesa nas últimas décadas já percebeu que essa é uma ausência constante no setlist. A faixa em questão, uma obra-prima épica com cerca de dez minutos, tem sido deixada de lado há vários anos — desde 2002, para ser mais exato.
Em entrevista à rádio RockFM (via Blabbermouth), o vocalista Ian Gillan explicou que a decisão não é por falta de carinho pela canção. Trata-se de uma questão de respeito à própria história e às limitações físicas.
Ele utilizou uma metáfora esportiva para explicar:
"Eu poderia baixar a tonalidade, mas não soaria da mesma forma. Eu sempre faço essa analogia... Quando eu era jovem, eu era atleta e fazia salto com vara; esse era o meu esporte. Quando fiz 25 anos, já não conseguia mais saltar. Aos 26, esquece."
Ou seja: nas palavras de Gillan, "Child in Time" nunca foi apenas uma canção, mas sim um "evento olímpico" devido ao seu altíssimo nível de dificuldade técnica para ser cantada.
O vocalista revelou que a decisão de parar de cantá-la começou a ser moldada quando ele tinha cerca de 38 anos. Naquela época, Gillan sentiu que a performance já não soava como deveria.
"Pensei: 'É melhor não fazer, do que fazer malfeito'. Eu não queria ser conhecido apenas por aquele 'grito'; não queria estar gritando aos 70 ou 80 anos. É indigno".
Deep Purple deixa de tocar "Child in Time"
A última vez que o Deep Purple tocou "Child in Time" ao vivo foi durante a turnê europeia de 2002. O baixista Roger Glover também já havia comentado sobre a resistência de Gillan, explicando que a banda apoia integralmente a decisão do colega.
Segundo Glover, ao site Noise11.com, houve uma sugestão de usar artifícios técnicos, como samplers ou harmonias de guitarra para alcançar as notas mais altas, mas a ideia foi prontamente descartada. O baixista é favorável a manter a lembrança original da canção, mesmo que isso signifique não executá-la:
"Nós escrevemos essa música quando tínhamos 24 anos. Quando você tem 24, faz as coisas de um jeito muito diferente de quando tem 74".
Fora do repertório do Deep Purple há quase 25 anos, "Child in Time" permanece como uma relíquia do passado. Está preservada no disco e na memória dos fãs exatamente como foi concebida: o ápice de potência vocal que Gillan prefere não tentar replicar sem a perfeição de outrora.