Veja vídeo inédito dos Mutantes que levou 50 anos para ser revelado
O resgate final de uma das performances mais raras do grupo em sua fase clássica
Vídeo inédito dos Mutantes, gravado em Portugal nos anos 70, é lançado após 50 anos, revelando uma rara performance histórica e cultural do grupo em sua fase clássica.
Este vídeo levou mais de meio século para romper a barreira do silêncio e ganhar a luz da rede. Arnaldo Baptista e Lucinha Barbosa passaram décadas em um embate paciente com a RTP (Rádio e Televisão de Portugal) tentando a liberação deste material, uma espécie de missão diplomática para resgatar um momento puro da nossa psicodelia em solo europeu. Quando a autorização finalmente veio, eles se viram diante de um novo dilema: onde divulgar uma peça que carrega tamanha densidade histórica sem que ela se perdesse no oceano digital?
Pediram minha ajuda e sugeri o YouTube. Combinamos o rito, mas o que encontrei foi a cara feia burocrática da plataforma. O sistema recusou o vídeo, alegando questões de direitos autorais e ignorando que se tratava de um registro sem qualquer intenção comercial ou de monetização. Foi ali que a ficha caiu: se o sistema não identifica lucro imediato, a importância histórica torna-se um dado secundário. Na lógica dessas empresas, a relevância de um gênio como Arnaldo Baptista pode ser tratada como um simples erro de código se não houver uma via clara para a monetização.
No entanto, decidi que o restante pouco importava diante da grandeza do que tínhamos. Um material dessa magnitude deveria estar exposto em um Museu da Música Brasileira, se um local assim existisse de forma plena e institucionalizada. Como o museu ainda é uma lacuna em nossa cultura, o impasse foi solucionado por outros caminhos.
Convido você a desfrutar desta gravação histórica dos Mutantes em Portugal, onde a banda participa do programa Discorama, da TV portuguesa, em uma performance que transborda a energia criativa daquela fase. Além da música, há a preciosidade da entrevista concedida a Carlos Cruz e os registros da banda visitando Belém, a Torre e o Castelo de Lisboa.
Tropicalistas em terra lusitana
A importância histórica dessa passagem dos Mutantes por Portugal, entre o final dos 1960 e início dos 70, reside no choque de realidades políticas e estéticas. Enquanto o Brasil vivia o sufocamento dos anos de chumbo, Portugal ainda respirava o ar rarefeito do salazarismo tardio, sob o comando de Marcelo Caetano. A chegada de Arnaldo, Rita, Sérgio, Liminha e Dinho representou a aterrissagem de uma nave espacial colorida em um cenário cinzento e profundamente conservador.
Musicalmente, o grupo estava no auge de sua fusão entre o rock psicodélico, o humor debochado e as experimentações com os equipamentos eletrônicos artesanais construídos pelo terceiro irmão, Cláudio César Baptista, o cientista que fornecia as armas para a transgressão sonora.
Essa turnê foi um dos últimos grandes atos da formação clássica em solo estrangeiro antes das fissuras internas que levariam à saída de Rita Lee e à guinada definitiva de Arnaldo em direção ao rock progressivo e ao mergulho em sua própria e complexa cosmologia artística. Ver os Mutantes em Portugal é testemunhar a antropofagia em seu estado mais puro: eles não estavam apenas tocando rock, estavam reprocessando a cultura europeia e devolvendo-a com um sotaque brasileiro subversivo e eletrificado. É um documento raro sobre a liberdade em um tempo de repressão, onde cada nota e cada intervenção de Arnaldo Baptista funcionava como um experimento de expansão da consciência e de resistência cultural.
